Questionário Proust a Isabel do Carmo

Por Vera Dantas
23 de outubro de 2023
Quando tinha 13 anos, o ensaísta e romancista francês Marcel Proust descobriu o «Jogo de Confissões», um entretenimento que fazia sucesso no Reino Unido na época, no final do século XIX. O jogo convidava os participantes a responderem a 35 questões para se perceber os seus gostos e aspirações pessoais. Proust acreditava que, ao responder a este «teste de personalidade», um indivíduo revela a sua verdadeira natureza.

Desta vez, temos uma convidada muito especial. Isabel do Carmo é médica endocrinologista, fundadora da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, entre muitos outros marcos distintos na área da saúde a nível nacional e internacional. Presença regular nos meios de comunicação social, é também uma incansável lutadora pela liberdade e igualdade, em todos os espetros da sociedade, e em todas as latitudes.
Autora de numerosos livros, na área da saúde (alimentação, obesidade) e política, Isabel do Carmo lança agora o livro Síndrome do COVID Longo – quando persistem sintomas da doença, mesmo após a convalescença, sobretudo nos casos mais graves de infeção. Olhando a fundo para este problema, a autora explica os sintomas, apresenta os avanços na investigação médica e apontando algumas soluções para ajudar a superar esta síndrome. Entretanto, continua com uma imensa sede de viver, espelhada nas suas respostas ao nosso Questionário Proust.
 
QUESTIONÁRIO PROUST
Qual é a sua ideia de felicidade plena?
Uma sociedade com igualdade de acesso aos meios essenciais – casa, alimentação, instrução, lazer – mas com liberdade e respeito pelas diferenças de comportamento e de gostos. Quero acreditar que é possível. E a atual não me permite a felicidade plena. Tenho janelas de felicidade.

Qual é o seu maior medo?
Ficar fechada num túnel sem saída.

Qual é a característica que mais detesta em si?
A impulsividade.

Qual é a característica que mais detesta nos outros?
O narcisismo, somado à falta de inteligência e autoritarismo. Há por aí umas figuras assim.

Qual é a sua maior extravagância?
Ir a um restaurante “caro” com os meus filhos, nora, genro e netos.

Que pessoa viva mais admira?
Neste momento (21.10.2023), o amigo da jornalista Alexandra Lucas Coelho, que está no meio do furacão em Gaza e se recusa a acantonar-se no Sul, deixando mais uma vez o seu lugar.

Que pessoa viva mais despreza?
O presidente do conselho de administração da maior empresa da indústria do armamento.

O quê, ou quem, é o maior amor da sua vida?
Tive mais do que um amor “maior” da minha vida.
Atualmente tenho uma paixão pelos netos, que não exige reciprocidade e isso é muito bom e tranquilo.

Onde e quando foi mais feliz?
Na infância na praia com o meu pai, na adolescência no Liceu de Setúbal, na juventude na Faculdade de Medicina, e no dia 25 de Abril e nos anos revolucionários que se seguiram. Atualmente, porque tenho tranquilidade económica, liberdade para fazer o que quero e uma família feliz.

Que talento não tem e gostaria de ter?
Saber cantar.

Se pudesse mudar uma coisa em si, o que seria?
Saber cantar.

Diga uma palavra – ou frase – que usa com muita frequência.
É preciso perceber as contradições nas pessoas e nos acontecimentos

Qual considera ser a sua maior conquista?
Ter vencido as convenções que a moral sexual impunha às pessoas do sexo feminino e que era transversal a todas as ideologias.

Onde gostaria de morar?
No sítio onde moro.

Qual é a sua ocupação favorita?
Fazer consultas médicas — ver doentes.

Quem são os seus escritores favoritos?
É difícil… São tantos. Camões, Pessoa, Camilo e Eça. Stendhal, Rimbaud e Baudelaire, Marguerite Yourcenar, Tolstoi e Dostoiévski, Javier Marías, Javier Cercas, Sebald, Amos Oz, Orhan Pamuk, Saramago, António Lobo Antunes (sobretudo das crónicas), Steinbeck, Stefan Zweig, Hannah Arendt. Estou a excluir portugueses e estrangeiros das novas gerações, porque receio omissões. Deixei de fora muitos poetas e não falei de ensaístas.
E amanhã vou pensar que esqueci um fundamental dos consagrados.

Qual é o bem mais valioso que tem?
A minha família e o meu conhecimento.

Qual é a sua asneira favorita?
Comer arroz-doce. Que as minhas utentes não leiam isto…

Qual é o seu estado de espírito neste momento?
Há cinco horas estava a ver o mar na Praia Grande com a família. Nada de mais tranquilo e estimulante. Agora vou ler o jornal e, depois, um livro. Mas, num nível mais abaixo das emoções, estou na expectativa dos meus livros que vão sair, o que é sempre um bocadinho inquietante. E a outro nível ou puzzle de sentimentos estou a pensar num livro de poesia do Francisco do Rosário, que vou apresentar amanhã no Folio.
E, claro, a pensar/sentir neste questionário para ver se saio bem na fotografia (escrita). Autoestima, etc.

Se não fosse você mesma, quem gostaria de ser?
Pensar e sentir como penso. Mas ser capaz de ser romancista, criar personagens e situações. Enredos.
Ou desprender-me de tudo e ir de periferia em periferia, de gueto em gueto, a explicar às pessoas aquilo que sei, em palavras exatas, mas de forma a que todos compreendessem. E, já agora, a acordar a revolta, a não sofrerem só, mas reagirem.

Qual é o seu lema de vida?
Lutar pela igualdade.
Não fazer aos outros o que não quero que me façam a mim.
Ter verdadeira empatia por cada pessoa, seja ela qual for.
Consigo?

Como gostaria de morrer?
Como toda a gente, a dormir. Tendo adormecido a pensar em planícies com flores miudinhas, mar, sol. E a antecipar: vem noite amável, vem lua eterna.

Se Deus existisse, o que gostaria que ele lhe dissesse?
Gostaria de lhe perguntar o que é que fica para além do fim do espaço que é alcançado pelo telescópio mais poderoso que há. Não sei como aos crentes lhes chega responder com o conceito de Deus ao grande Mistério. Eu ardo de curiosidade.

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!