Questionário Proust a... Afonso Reis Cabral

17 de janeiro de 2020
No final do séc. XIX, os «álbuns de confissões» eram uma diversão muito popular para descobrir factos novos sobre velhos amigos. Reza a história que, em 1890, o romancista e crítico francês Marcel Proust – na época um adolescente – respondeu a uma lista de 35 perguntas que acreditava serem reveladoras da natureza das pessoas e dos seus pensamentos mais íntimos.

Para este popular questionário, convidámos o não menos ilustre escritor Afonso Reis Cabral, Prémio Saramago 2019, a responder a uma seleção de 20 das questões originais.
 
QUESTIONÁRIO PROUST


Qual é a tua ideia de felicidade plena?
Não ter fantasias sobre a felicidade plena é um bom começo.

Qual é o teu maior medo?
Ser confrontado com uma qualquer escolha de Sofia. Resta saber qual.

Qual é a característica que mais detestas em ti?
Alguém escreveu que o orgulho morre três dias depois do próprio morto. Fere-me o orgulho não ter sido eu.

Qual é a característica que mais detestas nos outros?
Talvez a ignorância culposa.

Que pessoa viva mais admiras?
Essa pessoa tem tantas qualidades e é tão modesta, que não me permite pôr aqui o seu nome.

Que pessoa viva mais desprezas?
Tão difícil escolher, entre Trump e Bolsonaro.

Onde e quando foste mais feliz?
Onde e quando: na infância.

Que talento mais gostarias de ter?
Adorava cantar sem magoar a minha garganta e os ouvidos alheios.

Se pudesses mudar uma coisa em ti, o que seria?
Livrar-me-ia sem hesitar da ansiedade. Mas como é útil à escrita, deixo correr.

Qual consideras ser a tua maior conquista?
O próximo livro. E o seguinte. E assim sucessivamente, de ilusão em ilusão.

Onde gostarias de morar?
Na lua Europa, com vista para Júpiter. Mas só aos fins-de-semana.

Quem são os teus escritores favoritos?
Não gosto da ideia de escritores favoritos. Parece os cromos das crianças. Mas a figura histórica com quem mais me identifico é uma resposta possível.

Quem é o teu herói da ficção?
Sei que não tenho idade para isso, mas parece-me que é o Arsène Lupin...

Com que figura histórica mais te identificas?
Com John Steinbeck, com metade da categoria e do talento.

Qual é o bem mais valioso que tens?
Uma caixinha selada.

Qual é a tua asneira favorita?
Nunca ninguém a pôs por escrito. Penso que há um pacto, pelo menos tácito. Acredita-se que corroeria o papel onde fosse escrita ou deitaria abaixo a Internet. Há registos de um pergaminho medieval onde a palavra estava escrita, mas, tanto quanto se sabe, está conservado em formol, daí ser mais inofensivo. E está guardado num cofre.

Qual é o teu estado de espírito mental?
Farto do tema recorrente, insistente, inevitável. Covid-19.

Como gostarias de morrer?
Tanto faz, desde que não vá parar a um episódio do 1000 Formas de Morrer...

Qual é o teu lema de vida?
Andamos há milhares de anos em busca de ética, de um sistema de vida, da suavidade mútua: nada disso se resume a um lema. Mas há uma óptima frase do Kurt Vonnegut: «He tried».

Se Deus existisse, o que gostarias que ele te dissesse?
Dá-me cá um abraço.

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!