A Grande Sombra

de Mário de Sá-Carneiro
Editor: Padrões Culturais, dezembro de 2012 ‧
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Neste texto, no espectro da dor, da loucura e a morte que, percorrem toda a obra deste autor, oscilando entre a angústia da fugacidade do tempo e a tragédia da repetição, os seus personagens confundem-se fatalmente no tédio e, numa luta penosa — que é também um confronto fascinado com a morte —, onde tentam inventar maneiras de o vencer.
Nesta novela que quase poderíamos assumir como um diário de um psicopata dos tempos modernos, o protagonista renasce com uma «outra vida» após o assassínio violento de uma rapariga que acaba de conhecer, e com quem se envolve sexualmente. Este crime acorda-o da sonolência monótona em que vivia até aí, e tem o efeito imediato de «parar os instantes», de suspender o tempo, e paralelamente, eliminar a angústia da morte que o vinha deprimindo. O suicídio final, para o qual se encaminha em euforia louca, está para além do remorso: é o culminar triunfal da sua busca do mistério e do desconhecido. Na sua materialidade abusiva, o corpo é degenerescência e confrontação com a morte. Por isso o sexo é um jogo fatal, e a morte uma encenação erótica. Mas se analisada de perto trata-se de uma obra que espelha a vida real, ou a vida real reproduzindo assustadoramente a ficção.

A Grande Sombra

de Mário de Sá-Carneiro

Propriedade Descrição
ISBN: 9789897090455
Editor: Padrões Culturais
Data de Lançamento: dezembro de 2012
Idioma: Português
Dimensões: 141 x 212 x 6 mm
Páginas: 112
Tipo de produto: Livro
Coleção: Padrões Literários
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789897090455

SOBRE O AUTOR

Mário de Sá-Carneiro

Poeta e ficcionista, com Fernando Pessoa e Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro constitui um dos principais representantes do Modernismo português. Partindo para Paris, em 1912, para cursar Direito, estudos que abandonaria pouco depois, a figura de Mário de Sá-Carneiro assume uma importância basilar para a compreensão do modo como o Modernismo português se foi formando com caracteres próprios na recepção das correntes de vanguarda europeias, processo de que a correspondência que estabeleceu com Fernando Pessoa dá um testemunho documental precioso e que culminaria com a publicação de Orpheu, em 1915. Os poemas que edita no primeiro número de Orpheu, destinados a Indícios de Oiro, são, a este título, significativos da sua adesão às estéticas paúlica e sensacionista, que na correspondência entre os dois grandes poetas fora gerada, glosando, então, em moldes muito devedores do simbolismo-decandentismo, a abjecção de um eu em conflito com um outro, reverso da sua frustração e insatisfação ("Eu não sou eu nem o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro", "7"), ao mesmo tempo que a publicação de "Manucure", no segundo número de Orpheu , revela uma incursão por uma forma poética mais próxima da escrita da vanguarda futurista, no que contém de autonomização do significante. Já antes de Orpheu, a colaboração de Mário de Sá-Carneiro na revista Renascença (1914) - onde Fernando Pessoa publica Impressões de Crepúsculo -, com a publicação de Além (apresentado como uma tradução portuguesa de certo Petrus Ivanovitch Zagoriansky), instituíra a sua experiência poética na charneira entre a herança simbolista e as tentativas paúlicas e interseccionistas. Mário de Sá-Carneiro constitui ainda um paradigma da prosa modernista portuguesa pela publicação das narrativas Céu em Fogo e A Confissão de Lúcio, construídas frequentemente a partir do estranhamento de um narrador insolitamente introduzido em situações onde o erotismo, o onirismo, o fantástico, se associam aos temas obsessivos do desdobramento e autodestruição do eu. O seu suicídio, com 26 anos, parecendo vir selar aquele sentimento de inadaptação à vida, de permanente incompletude, de narcísico auto-aviltamento e, sobretudo, de consciência dolorosa da irremediável cisão do eu, consubstanciada na dramática tensão entre um eu, vil e prosaico, e um outro, seu duplo ideal, que alimentaram tematicamente a obra, nimbou-o para a posteridade de uma aura de poeta maldito, que deixaria um forte ascendente sobre a poesia contemporânea de gerações posteriores à sua. Com efeito, a mensagem poética do autor de Indícios de Oiro ecoa postumamente na literatura presencista da geração de 50 e até surrealista, passando por nomes absolutamente diversos como Sebastião da Gama, Mário de Cesariny ou Alexandre O'Neill, entre muitos outros.

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