Livros que resumem um Nobel
Partilhar:
25 de outubro de 2022
Antes da fúria nas livrarias, há muito tempo a sós, muita apanha de vírgulas em páginas. Na construção desse estádio chamado romance, onde se joga tudo, é possível ganhar-se a atenção, a emoção do mundo inteiro. De seguida, seguem livros que agarram como mãos, que resumem um autor – que vencem um Nobel.
Ensaio sobre a Cegueira
Não surpreende – e tem de estar na lista. Ensaio sobre a cegueira foi publicado pela primeira vez em 1995, poucos anos antes da atribuição do Nobel ao autor. Aqui, Saramago entra a pés juntos num romance pós-apocalíptico e não há como lê-lo sem ver como seria a vida se por acaso fosse outra coisa. Exceto uma mulher, toda a população de uma cidade é atingida por uma epidemia de cegueira branca. O colapso que vem daí é um brilhante jogo de possibilidades, em que caos se apoia no caos até já só haver uma mísera imitação da sociedade anterior. É um livro violento, a que Saramago chamou «300 páginas de constante aflição», e com razão. Ao leitor, cabe ver a sua espécie em bruto quando tem de satisfazer a fome. Quando o desespero impera, a humanidade é uma cinza.
COMPRAR NA WOOK »
A Mãe
A Mãe foi publicado em 1933, cinco anos antes de Pearl S. Buck ter recebido o Nobel. A autora, que foi criada na China, evoca o país asiático na maioria das suas obras. É o caso deste romance, em que se descreve a vida simples, quase rudimentar, do povo chinês. No centro, temos a Mãe, que, numa aldeia remota da China, trabalha de sol a sol. Para além da dureza de quem tira o pão da terra, ainda tem a dureza do abandono do marido, que vai tentar a sorte noutro lado. Para trás, fica ela, a vida dura, os três filhos para criar e uma idosa ao seu cuidado. Faz o que tem a fazer, inventa o que tem a inventar em prol da sobrevivência. Despida de artifícios, a prosa vai à matéria, e o leitor vê o cenário – uma vida pesada e solitária, um dia a dia que é combate. Ao quotidiano, a mãe que Pearl S. Buck nos dá tenta roubar outro dia, num retrato poderoso e violento da China rural.
COMPRAR NA WOOK »
Cem anos de solidão
É inesquecível, esta história passada em Macondo, lugar que não existia mas que García Márquez inventou. Com uma árvore genealógica bem arquitetada, García Márquez dá um romance que sabe a real, mesmo que o real tenha magia. José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán fundam Macondo, e a partir daí a vida vai acontecendo, com filhos, netos, bisnetos. A escrita de García Márquez é rica, trazendo emoção a tudo, e em cada página há uma descoberta. Como poucos, o autor colombiano sabe meter nas páginas a temperatura, a humidade, os cheiros. Quando uma personagem sua, o leitor sua também.
Publicado em 1967, o romance teve uma tiragem inicial de 10 mil exemplares. Hoje, já conta com mais de 50 milhões de vendas, sendo um grande marco da literatura latina. Quem lê dificilmente resiste à roda-viva: não apenas há o momento mágico em que alguém vê gelo pela primeira vez, como há tragédias, adultérios, obsessões e raivas. É a vida inteira metida na pequena aldeia de Macondo.
COMPRAR NA WOOK »
A Leste do Paraíso
De Steinbeck, pode dizer-se que é um autor que faz entender a América. De Viagens com o Charley, em que o autor se fez à estrada para ver o seu país, a As Vinhas da Ira, em que se mergulha nos efeitos da crise de 1929 nas pequenas famílias de fazendeiros do Oeste dos Estados Unidos, Steinbeck criou sempre retratos que ultrapassavam o que se podia ver no espelho. Em cada página, estava feito o estado de um país. A Leste do Paraíso, publicado em 1952, não só não é exceção como é um excelente exemplo. É um dos mais ambiciosos romances de Steinbeck e conta a história de duas famílias no Vale do Salinas, na Califórnia. Ao vermos a forma como os Hamilton e os Trask se relacionam, também vemos o conflito moral permanente, a escolha quotidiana entre o bem e o mal. Para além de personagens vivas, com quem o leitor se senta à mesa, também há um retrato contundente da região, num livro que parece não deixar pontas por atar. Em vez disso, deixa a vida.
COMPRAR NA WOOK »
A Festa do Chibo
Não é bem uma festa, é mais uma desgraça. Publicado no ano 2000, A Festa do Chibo pega em Rafael Trujillo, que, no poder durante 31 anos, fez o que quis da República Dominicana. Sendo um romance, a liberdade é máxima, e Vargas Llosa quis partir daí para fazer um romance sobre todas as ditaduras. Considerado um semideus por uns, o que fez durar o seu poder, Trujillo era um crápula para outros, e as histórias da sua crueldade chegam a ganhar a dimensão de mito. A palavra Chibo, convém dizer, não foi invenção de Vargas Llosa, que se limitou a recuperar o nome que o povo pôs ao ditador. No romance, um dos maiores do autor peruano, temos a história de uma personagem inventada, para que o livro tivesse mais do que o interior da ditadura, a de uma mulher que volta à República Dominicana nos anos 90, após 30 anos de ausência, e a das atrocidades do ditador, que serão as mais pungentes.
COMPRAR NA WOOK »