Porque é o Nobel tão importante

E quem é Abdulrazak Gurnah, o galardoado de 2021
17 de janeiro de 2020
Abdulrazak Gurnah, o vencedor do Prémio Nobel da Literatura 2021
 
O PRÉMIO NOBEL
Com tantos prémios literários atribuídos anualmente em todo o mundo, porque é que o Nobel se tornou no mais célebre? Bom, não há como contorná-lo: o Nobel da Literatura é de longe o maior prémio literário em termos monetários. O vencedor recebe 10 milhões de coroas suecas, o que ronda 1 milhão de euros. O vencedor do Pulitzer, por exemplo, recebe 15 mil dólares; o do Man Booker Prize, 50 mil libras; e o do prémio Camões recebe 100 mil euros, para referir alguns dos mais mediáticos.

É também verdade que, dos prémios acima referidos, o Nobel da Literatura é o mais universal: premeia não um livro específico, mas a obra de um autor na sua generalidade e é o único dos citados que pode ser atribuído a um escritor de qualquer origem, publicado em qualquer idioma: mesmo o International Booker Prize apenas contempla obras traduzidas para inglês e que tenham sido publicadas no Reino Unido ou na Irlanda.

Seguindo esse critério da universalidade, os que mais se aproximam do Nobel são dois Prémios Espanhóis: o Rainha Sofia da Poesia Iberoamericana (que foi este ano atribuído à poetisa portuguesa Ana Luísa Amaral), e o Prémio Princesa das Astúrias para as Letras. Os valores de um e outro são, no entanto, bastante inferiores ao do Nobel, rondando os 50 mil euros.

Mas então é tudo uma questão de dinheiro? Não. A verdade é que desde a sua criação, em 1901, o Nobel tem premiado autores de incontestável valor literário, como Kipling, Tagore, Yeats, Thomas Mann, Pirandello, Hermann Hesse, T.S. Eliot, Faulkner, Hemingway, Camus, Steinbeck, Sartre (que recusou o prémio), Beckett, Pablo Neruda, García Márquez, Camilo José Cela, Toni Morisson ou o nosso Saramago. E ainda que parte da notoriedade que o Prémio foi ganhando ao longo do tempo possa resultar também do seu valor monetário, com muito poucas exceções (Sir Winston Churchill, por exemplo, que foi distinguido em 1953) os Nobelizados são, todos eles, comummente considerados grandes autores.

O que nem sempre é pacífico é se o autor escolhido é de facto o que, naquele ano, representa a melhor Literatura que se faz no mundo. Mas se, por um lado, aferir a qualidade de uma obra artística é sempre algo subjetivo, por outro, uma escolha é justamente isso: uma escolha, de entre tantas outras possíveis.

Por isso, se em qualquer momento do seu percurso de leitor se sentir desencantado com as novidades que encontra nas livrarias, leia um Nobel: é sempre uma aposta segura, capaz de o reconciliar com a grande literatura.

Há quem defenda que o Nobel se tornou num prémio imprevisível, que seleciona os seus laureados muitas vezes obscuros por razões nem sempre muito claras. Preferimos pensar que a grande vantagem do Nobel é justamente essa: a capacidade de dar visibilidade a grandes autores até então negligenciados.
 
Abdulrazak Gurnah
É justamente esse o caso de Abdulrazak Gurnah, o galardoado de 2021. Professor de literatura inglesa recentemente aposentado da Universidade de Kent, apesar de ter sido nomeado para o Booker Prize em 1994 com o seu romance Paradise, Gurnah era até agora sobretudo conhecido pelo seu trabalho crítico que, ironicamente, se concentrou em escritores que são, eles próprios, frequentemente apontados como candidatos ao Nobel: Ngugi wa Thiong'o e Salman Rushdie.

Nascido em 1948, Gurnah cresceu em Zanzibar e mudou-se para o Reino Unido como refugiado com um irmão, quando tinha dezoito anos, após um golpe militar em 1964. Vive na Grã-Bretanha desde então e foi criado como muçulmano. Escreve exclusivamente em inglês, que é sua segunda língua (é falante nativo de suaíli) e, segundo uma entrevista ao jornal The Guardian, «escrever [resultou] da situação em que me encontrava: na pobreza, com saudades de casa, sem qualificações ou educação.»

Talvez por isso, ao longo das três últimas décadas, a escrita de Abdulrazak Gurnah tem explorado sobretudo os recantos esquecidos da História. Autor de vários contos e ensaios, bem como de dez romances, Gurnah tem-se dedicado a analisar as diversas formas pelas quais os seres humanos se encontram deslocados ou no exílio: exilados de sua casa, da sua família, da sua comunidade e, talvez mais importante, de si mesmos.

 
CURIOSIDADES
  • Tem 73 anos, mas parece bastante mais jovem.

  • Em 120 anos, é o quarto negro a ganhar o Nobel.

  • Com este prémio tornou-se provavelmente no segundo nativo de Zamzibar mais famoso de sempre (o primeiro é Freddie Mercury, líder dos Queen, que também nasceu nessa zona do globo).


 
OS LIVROS
imagem AFTER LIVES
Publicado em 2020, After Lives é o romance mais recente do autor.
Conta-nos a história de dois amigos muito diferentes, Ilyas e Hamza, que passaram anos fazendo parte das tropas coloniais alemãs. Mas enquanto Ilyas foi roubado pelos soldados aos seus pais, Hamza foi vendido e cresceu sob a proteção de um oficial.
O século XX está ainda a começar e à medida que os europeus desenham mapas, dividindo África, Ilyas e Hamza conseguem regressar finalmente à sua aldeia e tentam levar uma vida normal: trabalham, apaixonam-se e os laços que os unem fortalecem-se. Mas a sombra de uma nova guerra cresce, pronta para destruí-los e acabar de vez com o seu mundo.
imagem PARADISE
Paradise é o segundo livro do autor e foi nomeado para o Booker Prize em 1994.
Ambientado pouco antes da Primeira Guerra Mundial, é simultaneamente um romance sobre as dores do crescimento, uma trágica história de amor e a forma como a colonização europeia corrompe os padrões tradicionais africanos.
Aos doze anos Yusuf é vendido pelo pai para pagar uma dívida. Da vida simples da África rural, o rapaz muda-se então para uma grande cidade: um mundo fascinante em que africanos negros muçulmanos, missionários cristãos e indianos coexistem numa hierarquia social frágil, que os colonos europeus vêm pôr em causa.
imagem BY THE SEA
Numa tarde do final de novembro, Saleh Omar chega a Londres vindo de Zanzibar, uma ilha distante no Oceano Índico. Com ele traz o seu bem mais precioso: uma caixa de mogno contendo incenso. Na sua terra Saleh era dono de uma loja de móveis, tinha uma casa, mulher, filhos. Agora pede asilo político e o silêncio é a única forma que encontra para se manter vivo.
Mas numa cidade inglesa junto ao mar, Saleh vai reencontrar um fantasma do seu passado: Latif. Começa então uma história de amor, traição, sedução e possessão, que é também a história de um povo que tenta desesperadamente encontrar estabilidade no turbilhão do tempo.
 

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