Annie Ernaux, Prémio Nobel da Literatura 2022

Por Vera Dantas

6 de outubro de 2022
Premio nobel literatura

A escritora francesa Annie Ernaux, de 82 anos, foi hoje galardoada com o Prémio Nobel da Literatura. Sucede a Patrick Modiano, o último francês a receber o prémio da Academia Sueca, em 2009, brindando a França pela 16ª vez com o mais importante prémio literário do mundo.

Ao escolher Ernaux, o júri Nobel quis recompensar «a coragem e a acuidade clínica com que ela revela as raízes, as distâncias e os constrangimentos colectivos da memória pessoal». A Academia Sueca coroou uma escritora que «examina constantemente, de diferentes ângulos, vidas marcadas por disparidades, nomeadamente: género, língua e classe social». Reagindo ao prémio em entrevista à televisão sueca, a romancista considera esta distinção uma «grande honra» e uma «responsabilidade: «Testemunhar (...) uma forma de justiça, do justo, em relação ao mundo».
 
UMA CORAGEM E ACUIDADE CLÍNICA QUE REVELAM AS RAÍZES, AS DISTÂNCIAS E OS CONSTRANGIMENTOS COLECTIVOS DA MEMÓRIA PESSOAL.
Annie Ernaux, Foto Catherine Hélie © Editions Gallimard


Annie Ernaux escreveu cerca de 20 histórias nas quais explora o peso do domínio da classe e a paixão aarrebatadora, dois temas que marcaram a sua viagem como mulher dilacerada pelas suas origens na classe trabalhadora.

Segundo o Le Monde, o que é assim celebrado mundialmente é «uma obra que utiliza a autobiografia apenas de forma a contar uma história, sensações e emoções comuns», que é «admirável pela sua constância», num esforço contínuo para «tentar elucidar a realidade, para alcançar a compreensão e expressão de uma verdade sobre a existência, de outra forma inacessível».

Nascida em Seine-Maritime, França, Annie Ernaux cresceu na mercearia dos seus pais em Yvetot e produziu um trabalho largamente autobiográfico. Desde a década de 1970, tem recontado o mundo à sua volta através da sua própria experiência como «uma rapariga que se deparou com o desprezo social e o domínio masculino». Atualmente professora de literatura na Universidade de Cergy-Pontoise, ela é sobretudo uma das referências do feminismo francês e o seu trabalho tem inspirado numerosos trabalhos académicos.

Nos últimos anos, o Comité Nobel tem procurado incluir entre os galardoados mais mulheres, que raramente eram contempladas, atribuindo o Nobel da Literatura a uma mulher de dois em dois anos desde 2013, ano em que a canadiana Alice Munro foi distinguida. Desde a estreia dos Prémios Nobel, um total de 17 mulheres recebeu o prestigioso prémio literário, tendo a primeira sido a escritora sueca Selma Lagerlöf, em 1909.

Por outro lado, há também uma aposta em nomes menos conhecidos. Com a poetisa americana Louise Glück em 2020 e o romancista britânico nascido na Tanzânia Abdulrazak Gurnah, a Academia Sueca optou por destacar autores que não são amplamente traduzidos e que não são bem conhecidos, mesmo nos círculos editoriais.

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