Saramago. Passaram 20 anos depois do Nobel

8 de outubro de 1998, quinta-feira.
José Saramago estava no aeroporto de Frankfurt, a embarcar para Madrid, quando recebeu a notícia: fora-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura, o maior e mais almejado prémio literário do mundo.

- «Senhor Saramago?» - perguntou a hospedeira. - «É o senhor?» - e prosseguiu: - O senhor ganhou o Nobel!

Estava sozinho.
José Saramago na cerimónia oficial em 1998

A Academia Sueca distinguiu o primeiro e único Nobel da Literatura em Língua Portuguesa fundamentando que «as parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia tornam constantemente compreensível uma realidade fugidia.»

Saramago publicou mais de 40 títulos e a sua obra está traduzida em 42 idiomas. Nasceu numa família de origens humildes e para ser serralheiro mecânico, disse-o muitas vezes em entrevistas, mas quis ser escritor. Nada prometia a mais alta distinção das Letras e, no entanto, ganhou-a.

20 anos volvidos, a Porto Editora publica agora o Último Caderno de Lanzarote, um diário inédito de 272 páginas com relatos do escritor precisamente no ano em que venceu o Nobel, e Um País Levantado em Alegria, de Ricardo Viel, uma investigação do diretor de comunicação da Fundação José Saramago sobre os bastidores da atribuição do Prémio Nobel.
EXCERTO – ÚLTIMO CADERNO DE LANZAROTE
7 de dezembro de 1998
«O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos da morte certa. (…)»

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