Meu querido Nobel
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@confissoesdumlivreiro
15 de maio de 2025
Os autores laureados com o Nobel da Literatura suscitam muita curiosidade por parte dos leitores, mas, em alguns casos, os seus livros parecem de tal forma inacessíveis, seja pelo número de páginas ou pela densidade da escrita, que acabam por ficar perdidos nas nossas estantes, a ganhar pó. Nem todos os grandes autores precisam de ser descobertos pelas suas obras mais longas ou exigentes. Alguns livros mais curtos, menos conhecidos ou mais simples funcionam como excelentes convites à descoberta de universos literários ricos e complexos. John Steinbeck, André Gide, Selma Lagerlöf, Gabriel García Márquez e Kazuo Ishiguro têm bibliografias extensas e muito diversas, e o melhor conselho para começar a lê-los é escolher, com cuidado, a melhor porta de entrada para o universo que construíram.
A Pérola, de John Steinbeck
É do conhecimento geral que As Vinhas da Ira e A Leste do Paraíso são obras-primas da literatura mundial, mas poucos leitores se atreveram a lê-los, por acharem estes dois livros, e muitos outros de John Steinbeck, montanhas difíceis de escalar. Ler A Pérola é um bom ponto de partida para conhecer a obra do escritor norte-americano que venceu do Nobel em 1962. Quando lhe atribuiu o prémio, a Academia Sueca elogiou a «perceção moral afiada» de Steinbeck e, de facto, é fácil encontrar essa característica da sua prosa no livro. Baseada numa lenda popular mexicana, a narrativa acompanha uma família pobre. Kino, um pescador, e a sua mulher Juana são confrontados com a possibilidade de perderem o filho de ambos, Coyotito, quando o menino é picado por um escorpião. Kino encontra uma pérola de valor incalculável que poderá mudar para sempre o destino da família. Mas aquela pérola, ao invés de salvá-los, desencadeia uma série de desgraças que coloca a vida da família em risco. O livro funciona como uma parábola sobre ganância, ambição e desigualdade.
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O Imoralista, de André Gide
André Gide foi um autor polémico durante toda a vida. Mesmo depois da sua morte, em 1951, continuou a ser alvo de críticas e conseguiu espantar o mundo quando o Vaticano decidiu incluir toda a sua obra no Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros proibidos pela Igreja.
Entre os seus títulos, O Imoralista destaca-se por oferecer uma visão clara dos temas que atravessam grande parte da produção literária do escritor francês. Para a escrita desta história, Gide baseou-se em episódios do seu passado e criou Michel, um jovem francês educado segundo princípios religiosos e académicos muito rígidos que, durante a viagem de lua de mel com a sua esposa pela Argélia, adoece gravemente, quase morre, e, a partir desse momento, atravessa um renascimento físico e existencial. Aos poucos, o protagonista deixa de seguir as convenções impostas pela sociedade e adota uma atitude transgressora e provocadora aliada à busca pelo prazer.
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Entre os seus títulos, O Imoralista destaca-se por oferecer uma visão clara dos temas que atravessam grande parte da produção literária do escritor francês. Para a escrita desta história, Gide baseou-se em episódios do seu passado e criou Michel, um jovem francês educado segundo princípios religiosos e académicos muito rígidos que, durante a viagem de lua de mel com a sua esposa pela Argélia, adoece gravemente, quase morre, e, a partir desse momento, atravessa um renascimento físico e existencial. Aos poucos, o protagonista deixa de seguir as convenções impostas pela sociedade e adota uma atitude transgressora e provocadora aliada à busca pelo prazer.
O Tesouro, de Selma Lagerlöf
Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a receber o Nobel da Literatura, em 1909, e a sua obra pode ser considerada, à primeira vista, de difícil acesso tanto pela linguagem utilizada como pelo teor das suas histórias. No entanto, quem quiser aventurar-se nos livros da escritora sueca encontra em O Tesouro um verdadeiro refúgio. A história começa de forma realista, ao retratar uma povoação escandinava fustigada pela neve e pelo gelo. É difícil sair de lá por terra e impossível por mar, que se encontra congelado por tempo indeterminado.
É neste cenário claustrofóbico que ocorre o motor da ação: o assassinato de um pastor e da sua família e consequente roubo de um baú cheio de moedas, o tesouro, levado pelos assassinos. A narrativa adensa-se quando uma das testemunhas do crime se apaixona por um homem misterioso. A partir daí, o realismo perde força e a história ganha contornos sobrenaturais. Os fantasmas dos falecidos ganham voz e poder para alterar a realidade, criando uma atmosfera de culpa e redenção que envolve as restantes personagens. Neste cruzamento entre o místico e o mundano, o livro aproxima-se da tradição latino-americana, em particular de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, em que os mortos coexistem com os vivos numa viagem onde sonho e realidade se misturam.
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É neste cenário claustrofóbico que ocorre o motor da ação: o assassinato de um pastor e da sua família e consequente roubo de um baú cheio de moedas, o tesouro, levado pelos assassinos. A narrativa adensa-se quando uma das testemunhas do crime se apaixona por um homem misterioso. A partir daí, o realismo perde força e a história ganha contornos sobrenaturais. Os fantasmas dos falecidos ganham voz e poder para alterar a realidade, criando uma atmosfera de culpa e redenção que envolve as restantes personagens. Neste cruzamento entre o místico e o mundano, o livro aproxima-se da tradição latino-americana, em particular de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, em que os mortos coexistem com os vivos numa viagem onde sonho e realidade se misturam.
Crónica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez
Crónica de uma Morte Anunciada é a prova de que o virtuosismo de Gabriel García Márquez não se limita a Cem Anos de Solidão ou Amor em Tempos de Cólera. Inspirado em factos verídicos, o livro tem como eixo central o homicídio de Santiago Nasar, cuja morte é anunciada por toda a cidade antes de ocorrer. Todos sabem que os gémeos Vicario planeiam matá-lo para restaurar a honra da irmã, mas ninguém age de forma decisiva para o impedir. A narrativa reconstrói os acontecimentos a partir de várias perspetivas, e o mistério cresce não em torno do "quem" ou do "como", mas do "porquê". Por que é que algo inevitável não foi evitado? No livro são abordados temas como a honra, o destino e a responsabilidade coletiva num estilo que combina o jornalismo, o policial e, claro, o realismo mágico. No final, ficamos com a certeza de que a verdade pode ser fragmentada e subjetiva mas, muitas vezes, é indiferente à justiça.
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Nunca Me Deixes, de Kazuo Ishiguro
Kazuo Ishiguro, vencedor do Nobel em 2017, não consegue escrever um livro igual ao anterior. Em Os Despojos do Dia, combina elementos da ficção histórica com romance psicológico. O Gigante Enterrado tem características que o aproximam do realismo mágico e da fábula. Mas Nunca Me Deixes é talvez a sua maior proeza enquanto escritor, e um bom amuse-bouche para descobrir o resto da sua obra.
O livro, bastante perturbador, começa como uma história de amizade, repleta de nostalgia, em que a protagonista, Kathy H., recorda momentos da sua infância com alguns colegas de colégio, um ambiente aparentemente idílico. À medida que alguns episódios do passado são desvendados, a narrativa ganha uma dimensão distópica. No fim da leitura, é legítimo que nos sintamos compelidos a arrumar o livro na estante de ficção científica da nossa biblioteca. Um livro intrigante, que se lê de um fôlego, sobre o que significa ser humano.
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O livro, bastante perturbador, começa como uma história de amizade, repleta de nostalgia, em que a protagonista, Kathy H., recorda momentos da sua infância com alguns colegas de colégio, um ambiente aparentemente idílico. À medida que alguns episódios do passado são desvendados, a narrativa ganha uma dimensão distópica. No fim da leitura, é legítimo que nos sintamos compelidos a arrumar o livro na estante de ficção científica da nossa biblioteca. Um livro intrigante, que se lê de um fôlego, sobre o que significa ser humano.