Jon Fosse, Nobel da Literatura 2023
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6 de outubro de 2023
Aos 64 anos, e após 10 anos em que esteve entre os favoritos, a Academia Sueca atribuiu ontem a Jon Fosse o mais prestigiado Prémio Nobel da Literatura, pelas «suas peças e prosa inovadoras que dão voz ao indizível». Em reação, o poeta, romancista e dramaturgo norueguês disse estar «emocionado e grato», vendo esta distinção como «um prémio para a literatura que, em primeiro lugar e acima de tudo, pretende ser literatura, sem outras considerações». E isso diz muito sobre Fosse, autor independente, alheio a modas, e glória das letras da Noruega.
Na obra de Fosse, traduzida para mais de 50 línguas e adaptada para mais de 1000 peças de teatro em todo o mundo, o indizível manifesta-se nas muitas formas de explorar as questões do ser, da consciência e da prática artística: os seus protagonistas na primeira pessoa estão sempre a tentar dizer algo e a sua escrita procura o eterno. Conheça, connosco, este brilhante escritor, entre o minimalista e a prosa lenta.
Na obra de Fosse, traduzida para mais de 50 línguas e adaptada para mais de 1000 peças de teatro em todo o mundo, o indizível manifesta-se nas muitas formas de explorar as questões do ser, da consciência e da prática artística: os seus protagonistas na primeira pessoa estão sempre a tentar dizer algo e a sua escrita procura o eterno. Conheça, connosco, este brilhante escritor, entre o minimalista e a prosa lenta.
Jon Fosse, Foto: © Tom Kolstad
DA INFÂNCIA NOS FIORDES DA NORUEGA AOS PALCOS DO MUNDO
Jon Fosse nasceu em Haugesund, na Noruega, a 29 de setembro de 1959, e cresceu em Strandebarm, onde teve uma infância tranquila, rodeado pela natureza e passando longas horas a ler num barco em plenos fiordes. Mas, com apenas sete anos, teve um grave acidente, em que quase morreu. Foi uma experiência de tal modo marcante e formativa enquanto pessoa, tanto no bom como no mau sentido, que, segundo o autor, foi definidora para o criar enquanto artista e escritor.
Fosse começou a escrever muito jovem, quando tinha 12 anos – pequenos poemas, pequenas histórias. «Criei o meu próprio espaço no mundo, um sítio onde me sentia seguro. É uma espécie de fuga», disse em entrevista ao The Guardian em 2014. Era também um apaixonado por música. Em jovem, tocava violino, e grande parte da sua prática de escrita na adolescência envolvia a criação das suas próprias letras para peças musicais. O ritmo continua a ser uma das chaves da sua força enquanto escritor, e uma das explicações para o facto de não usar vírgulas. Diz que, para ele, «escrever é ouvir, é um ato musical mais do que intelectual».
Em 1979, com vinte anos, mudou-se para Bergen, em cuja universidade estudou sociologia, filosofia e literatura. Trabalhou também como jornalista freelancer. Não gostava de falar com as pessoas, mas adorava escrever e, desde então, tem-se dedicado à escrita.
«Assistimos com orgulho (…) ao desenvolvimento de um autor que, depois de se ter afirmado como romancista, poeta e escritor infantil, se dedicou à dramaturgia e teve uma projeção internacional sem paralelo na literatura contemporânea.»
Det Norske Samlaget, editora de Jon Fosse
Jon Fosse divide o seu tempo entre uma aldeia perto da capital austríaca, que o atrai pelas suas tradições culturais profundas e vivas, uma casa num fiorde em Hainburg, e Oslo. Tem seis filhos, um deles ainda pequeno.
Fosse começou a escrever muito jovem, quando tinha 12 anos – pequenos poemas, pequenas histórias. «Criei o meu próprio espaço no mundo, um sítio onde me sentia seguro. É uma espécie de fuga», disse em entrevista ao The Guardian em 2014. Era também um apaixonado por música. Em jovem, tocava violino, e grande parte da sua prática de escrita na adolescência envolvia a criação das suas próprias letras para peças musicais. O ritmo continua a ser uma das chaves da sua força enquanto escritor, e uma das explicações para o facto de não usar vírgulas. Diz que, para ele, «escrever é ouvir, é um ato musical mais do que intelectual».
Em 1979, com vinte anos, mudou-se para Bergen, em cuja universidade estudou sociologia, filosofia e literatura. Trabalhou também como jornalista freelancer. Não gostava de falar com as pessoas, mas adorava escrever e, desde então, tem-se dedicado à escrita.
«Assistimos com orgulho (…) ao desenvolvimento de um autor que, depois de se ter afirmado como romancista, poeta e escritor infantil, se dedicou à dramaturgia e teve uma projeção internacional sem paralelo na literatura contemporânea.»
Det Norske Samlaget, editora de Jon Fosse
Jon Fosse divide o seu tempo entre uma aldeia perto da capital austríaca, que o atrai pelas suas tradições culturais profundas e vivas, uma casa num fiorde em Hainburg, e Oslo. Tem seis filhos, um deles ainda pequeno.
A OBRA E O ESTILO LITERÁRIO DE JON FOSSE
Ao olharmos para a escrita de Jon Fosse, poderemos concordar que esta se define mais pela forma do que pelo conteúdo: o que não é dito é muitas vezes mais revelador do que aquilo que é dito. Despojada de adornos, prefere a linguagem simples e enredos mínimos, privilegiando a musicalidade e as inerentes pausas, e criando personagens que tentam transcender as suas vidas mundanas.
Fosse publicou o seu primeiro romance, Raudt, Svart (Vermelho, Preto), em 1983, uma história que se move para trás e para a frente no tempo e entre perspetivas. Desde o início, optou por escrever em Nynorsk, ou Novo norueguês, uma das duas variedades escritas distintas do norueguês, utilizada sobretudo na Noruega ocidental.
«A sua ficção é encantatória, mística e enraizada na paisagem dos fiordes ocidentais onde cresceu. (…) É muito importante lembrar que [Fosse] escreve em nynorsk ou novo norueguês, uma língua minoritária na Noruega, um ato político em si mesmo».
Jacques Testard, editor de ficção de Jon Fosse
Ao longo dos 30 anos seguintes, Fosse escreveu romances, contos, poesia, livros infantis, ensaios e peças de teatro, destacando-se obras como Melancolia I e Melancolia II e A Shining. Depois de um período de grande sucesso durante o qual trabalhou quase exclusivamente como dramaturgo, Fosse converteu-se ao catolicismo em 2012, deixou de beber e voltou a casar. É nessa altura que começa a escrever Septologia, um romance de sete volumes escrito numa única frase e que exemplifica o que ele descreveu como a sua viragem para a “prosa lenta”. O narrador de Septologia é um pintor chamado Asle, convertido ao catolicismo, de luto pela morte da sua mulher, Ales. Na noite anterior à véspera de Natal, Asle encontra o seu amigo, também ele pintor, inconsciente num beco de Bergen, a morrer de intoxicação alcoólica. As suas memórias duplicam-se, repetem-se e gradualmente misturam-se numa única voz, uma consciência difusa capaz de existir em muitos tempos e lugares ao mesmo tempo – um monólogo que se desenrola de forma aparentemente interminável e sem uma única paragem completa ao longo de sete dias. A obra é composta por sete partes reunidas em três volumes: O Outro Nome, Eu Sou Outro e Um Novo Nome.
Em Portugal, foram recentemente publicados, pela Cavalo de Ferro, os livros O Outro Nome – Septologia I-II, Trilogia e Manhã e Noite
Fosse publicou o seu primeiro romance, Raudt, Svart (Vermelho, Preto), em 1983, uma história que se move para trás e para a frente no tempo e entre perspetivas. Desde o início, optou por escrever em Nynorsk, ou Novo norueguês, uma das duas variedades escritas distintas do norueguês, utilizada sobretudo na Noruega ocidental.
«A sua ficção é encantatória, mística e enraizada na paisagem dos fiordes ocidentais onde cresceu. (…) É muito importante lembrar que [Fosse] escreve em nynorsk ou novo norueguês, uma língua minoritária na Noruega, um ato político em si mesmo».
Jacques Testard, editor de ficção de Jon Fosse
Ao longo dos 30 anos seguintes, Fosse escreveu romances, contos, poesia, livros infantis, ensaios e peças de teatro, destacando-se obras como Melancolia I e Melancolia II e A Shining. Depois de um período de grande sucesso durante o qual trabalhou quase exclusivamente como dramaturgo, Fosse converteu-se ao catolicismo em 2012, deixou de beber e voltou a casar. É nessa altura que começa a escrever Septologia, um romance de sete volumes escrito numa única frase e que exemplifica o que ele descreveu como a sua viragem para a “prosa lenta”. O narrador de Septologia é um pintor chamado Asle, convertido ao catolicismo, de luto pela morte da sua mulher, Ales. Na noite anterior à véspera de Natal, Asle encontra o seu amigo, também ele pintor, inconsciente num beco de Bergen, a morrer de intoxicação alcoólica. As suas memórias duplicam-se, repetem-se e gradualmente misturam-se numa única voz, uma consciência difusa capaz de existir em muitos tempos e lugares ao mesmo tempo – um monólogo que se desenrola de forma aparentemente interminável e sem uma única paragem completa ao longo de sete dias. A obra é composta por sete partes reunidas em três volumes: O Outro Nome, Eu Sou Outro e Um Novo Nome.
Em Portugal, foram recentemente publicados, pela Cavalo de Ferro, os livros O Outro Nome – Septologia I-II, Trilogia e Manhã e Noite
JON FOSSE, O DRAMATURGO
Para o jovem Jon Fosse, o teatro parecia ser mais uma questão de afetação do que de arte e ele não tinha qualquer interesse em entrar no mundo do teatro Mas acabaria por fazê-lo em 1993, porque estava falido. Surpreendentemente, tal acabou por ser, segundo o próprio, por ser «a maior revelação» da sua carreira de escritor. Três décadas depois, Fosse é o dramaturgo norueguês mais representado depois de Henrik Ibsen, tendo assinado 30 peças. Embora muitos consideram que as suas peças representam uma continuação moderna da tradição dramática estabelecida por Ibsen no século XIX, Fosse assume-se diferente deste escritor, o mais destrutivo que conhece, e sente que, pelo contrário, na sua escrita «há uma espécie de reconciliação, Ou, para usar a palavra católica ou cristã, paz.»
As peças de Fosse são intrinsecamente poéticas. Ao escrever teatro, o autor descobriu que podia usar o silêncio, as pausas, o que está entre as palavras. A sua primeira peça a ser representada, Og aldri skal vi skiljast (E nunca nos separaremos), foi encenada no Teatro Nacional de Bergen em 1994. Mas foi a primeira peça que escreveu, Nokon kjem til å komme (Alguém vai chegar), que viria a ser a sua grande revelação em 1999, quando o encenador francês Claude Régy a encenou em Nanterre. Era o seu quadragésimo aniversário e Fosse apercebeu-se de que a produção de Régy assinalava o início da sua carreira internacional como dramaturgo.
As peças de Jon Fosse, cujas personagens têm geralmente nomes genéricos como «o Homem», «a Mulher», «a Mãe» ou «a Criança», focam a intensidade das nossas relações primordiais e são, por vezes, sombrias e cómicas. Quando fez cinquenta anos, o escritor estava exausto. Não gostava das luzes da ribalta, e, após 30 peças teatrais e oito peças curtas, tomou a decisão de se afastar delas. Ele não queria viajar ou escrever peças, pelo menos por um tempo.
As peças de Fosse são intrinsecamente poéticas. Ao escrever teatro, o autor descobriu que podia usar o silêncio, as pausas, o que está entre as palavras. A sua primeira peça a ser representada, Og aldri skal vi skiljast (E nunca nos separaremos), foi encenada no Teatro Nacional de Bergen em 1994. Mas foi a primeira peça que escreveu, Nokon kjem til å komme (Alguém vai chegar), que viria a ser a sua grande revelação em 1999, quando o encenador francês Claude Régy a encenou em Nanterre. Era o seu quadragésimo aniversário e Fosse apercebeu-se de que a produção de Régy assinalava o início da sua carreira internacional como dramaturgo.
As peças de Jon Fosse, cujas personagens têm geralmente nomes genéricos como «o Homem», «a Mulher», «a Mãe» ou «a Criança», focam a intensidade das nossas relações primordiais e são, por vezes, sombrias e cómicas. Quando fez cinquenta anos, o escritor estava exausto. Não gostava das luzes da ribalta, e, após 30 peças teatrais e oito peças curtas, tomou a decisão de se afastar delas. Ele não queria viajar ou escrever peças, pelo menos por um tempo.
UM AUTOR ACLAMADO NA NORUEGA E ALÉM DELA
A atribuição do Nobel a Jon Fosse coincide com os seus 40 anos carreira literária, e Fosse não tenciona parar já que escrever, para ele, é um modo de vida. É reconhecido internacionalmente como um grande autor, mas a Noruega acarinha-o especialmente: em 2011, o rei Harald V atribuiu-lhe uma das maiores honras nacionais: o usufruto da Grotten, uma residência honorária nas instalações do palácio real, em Oslo, pelo seu contributo para a arte e a cultura do país; e, a cada dois anos, há um festival dedicado à sua obra. Além disso, foi criada a Fundação Fosse (em Strandebarm, onde o escritor nasceu), dedicada ao autor e às suas obras.
Estes são os principais prémios e distinções que recebeu:
1997 Prémio Aschehoug
1998 Prémio de Literatura Nynorsk
1999 Prémio Dobloug
2003 Prémio Norsk kulturråds ærespris
2003 Prémio Nynorsk de Literatura
2003 Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito de França (2003)
2005 Prémio Brage
2005 Comandante da Ordem Real Norueguesa de St. Olav
2007 Prémio Nórdico da Academia Sueca
2007 Prémio Alemão de Literatura para Jovens, do Ministério Federal da Família
2010 Prémio Internaciona Ibsen
2014 Prémio Europeu de Literatura
2015 Prémio de Literatura do Conselho Nórdico
2017 Prémio Europeu de Poesia da cidade de Münster, Alemanha
2022 Nomeação para o International Booker Prize, pelo seu romance Um Novo Nome: Septologia VI-VII
2023 Prémio Nobel da Literatura
Estes são os principais prémios e distinções que recebeu:
1997 Prémio Aschehoug
1998 Prémio de Literatura Nynorsk
1999 Prémio Dobloug
2003 Prémio Norsk kulturråds ærespris
2003 Prémio Nynorsk de Literatura
2003 Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito de França (2003)
2005 Prémio Brage
2005 Comandante da Ordem Real Norueguesa de St. Olav
2007 Prémio Nórdico da Academia Sueca
2007 Prémio Alemão de Literatura para Jovens, do Ministério Federal da Família
2010 Prémio Internaciona Ibsen
2014 Prémio Europeu de Literatura
2015 Prémio de Literatura do Conselho Nórdico
2017 Prémio Europeu de Poesia da cidade de Münster, Alemanha
2022 Nomeação para o International Booker Prize, pelo seu romance Um Novo Nome: Septologia VI-VII
2023 Prémio Nobel da Literatura