Han Kang, NOBEL DA LITERATURA 2024

Por Vera Dantas
10 de outubro de 2024
O Prémio Nobel da Literatura de 2024 foi atribuído à escritora sul-coreana Han Kang, cuja obra já se encontra publicada em mais de 30 línguas. O Comité Nobel distinguiu Han Kang «pela sua prosa poética intensa que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana» e pela sua «consciência única das ligações entre o corpo e a alma, os vivos e os mortos», inovadora na prosa contemporânea, através do seu «estilo poético e experimental».
Na entrevista telefónica que deu à organização do Nobel após o anúncio do prémio, a escritora disse estar surpresa e grata pela distinção, tendo refletido sobre o facto de ter sido a primeira laureada sul-coreana de literatura e sobre a forma como os escritores, coletivamente, a influenciaram. «Todos os seus esforços e forças têm sido a minha inspiração».

Han Kang nasceu em 1970 em Gwangju, na Coreia do Sul, no seio de um meio familiar literário, sendo o seu pai um conhecido romancista de renome. Desde muito cedo, paralelamente à escrita, dedicou-se à música e à arte, sensibilidade que transparece no seu estilo literário. Publicou os seus primeiros poemas numa revista literária em 1993 e, dois anos mais tarde, estreou-se na prosa com uma série de contos. O seu grande lançamento internacional dar-se-ia com o romance A Vegetariana, de 2007 – publicado por cá pela Dom Quixote – com que ganhou o Man Booker International Prize de ficção, levando ao encantamento global com a literatura coreana.
 Han Kang
Han Kang, foto © Paik Dahuim
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A Vegetariana explora a fricção entre paixão e distanciamento, entre os desejos que são alimentados e os que são negados. As coisas começam a falhar no dia em que Yeong-hye, uma jovem e comum dona de casa, decide deitar fora toda a carne do congelador e anuncia que vai ser vegetariana, depois de ter tido um pesadelo. Decidida a perder a massa corporal necessária à existência humana, Yeong-hye desafia as expectativas dos que a rodeiam, recusando-se a continuar a viver apenas para cozinhar para o marido e deitar-se com ele. Ela quer deixar de ser humana, e tenta transformar-se na própria vegetação. Dividida em três partes, a história oscila entre uma atmosfera surrealmente serena e o thriller doméstico, e é contada a partir dos pontos de vista do péssimo marido de Yeong-hye, do seu obsessivo cunhado e da sua sobrecarregada irmã mais velha. Erótico, violento, poético, este livro deu origem a uma sublime adaptação cinematográfica.
Como referiu Anders Olsson, presidente do Comité Nobel, no seu discurso após o anúncio do prémio, «a empatia de Han Kang pelas vidas vulneráveis, frequentemente de mulheres, é palpável e reforçada pela sua prosa cheia de força metafórica». Além do famoso A Vegetariana, deixamos aqui um breve relance, partindo das palavras de Olsson, aos outros romances de Han Kang:

A OBRA DE HAN KANG
LIÇÕES DE GREGO
No romance Lições de Grego, de 2011, assistimos ao terno desenrolar do amor entre uma mulher, que perdeu o poder da fala, e um professor de grego antigo, que está a perder a visão, numa bonita meditação sobre perda, intimidade.
«Uma espécie de história de amor delicada, o romance traça a sua tentativa de, se não superar, pelo menos tentar encontrar um ponto em comum no seu luto partilhado. É também um livro sobre a linguagem, sobre como as palavras podem ajudar-nos a dar forma e significado ao nosso mundo exterior e interior, mas também a rasgar e destruir o que há de mais delicado em todos nós: a nossa identidade.», segundo a Fundação Nobel.
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ATOS HUMANOS
Em Atos Humanos (2014), a escritora emprega, como fundamento político, o massacre de 1980 ocorrido na cidade de Gwangju, onde cresceu, em que centenas de estudantes e civis desarmados foram assassinados pelos militares sul-coreanos. Dando voz às vítimas deste ato cruel, e confrontando este episódio com uma atualização brutal, escreve de uma forma que remete para a literatura de testemunho. Atos Humanos venceu o Prémio Manhae na Coreia do Sul e o Prémio Malaparte em Itália.
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O Livro Branco
N’O Livro Branco (2016), o seu estilo poético volta a dominar, numa elegia a uma pessoa que poderia ter sido a irmã mais velha do narrador, mas que morreu apenas horas após ter nascido. O conjunto da obra constrói-se numa sequência de notas curtas, todas relativas a objectos brancos, cor do luto, remetendo para uma espécie de «livro de orações secular». O Livro Branco foi, em 2018, finalista do Man Booker International Prize.
Para o início de 2025 está já prevista a publicação de We do Not Part, que venceu na edição francesa o Prémio Médicis Étranger 2023.
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CONHEÇA AINDA OUTROS PRÉMIOS NOBEL DA LITERATURA
No ano passado, o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído ao escritor norueguês Jon Fosse, que escreve em Nynorsk, uma das duas versões escritas oficiais da língua norueguesa, que, segundo os organizadores do prémio, «dá voz ao indizível». Leia aqui o nosso artigo sobre o escritor
Além do prestígio e reconhecimento internacional que confere aos laureados, o Prémio Nobel da Literatura inclui um prémio em dinheiro de cerca de 1 milhão de dólares, proveniente de um legado deixado pelo criador do prémio, o inventor sueco Alfred Nobel. Os laureados são convidados a receberem os seus prémios numa cerimónia em Estocolmo a 10 de dezembro, dia do aniversário da morte de Alfred Nobel.
Conheça também outros grandes escritores laureados com o Nobel nos últimos anos.

Prémios Nobel da Literatura desde 2010:

2023 – Jon Fosse
2022 – Annie Ernaux
2021 – Abdulrazak Gurnah
2020 – Louise Glück
2019 – Peter Handke
2018 – Olga Tokarczuk
2017 – Kazuo Ishiguro
2016 – Bob Dylan
2015 – Svetlana Alexievich
2014 – Patrick Modiano
2013 – Alice Munro
2012 – Mo Yan
2011 – Tomas Tranströmer
2010 – Mario Vargas Llosa

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