O estrangeiro
SINOPSE
Romance estranho, desconcertante sob uma aparente singeleza estilística, em O Estrangeiro joga-se o destino de um homem perante o absurdo e questiona-se o sentido da existência. Publicado originalmente em 1942, este primeiro romance de Albert Camus foi traduzido em mais de quarenta línguas e adaptado para o cinema por Luchino Visconti em 1967, sendo indubitavelmente uma das obras-primas da literatura francesa do século XX. Esta edição foi revista de acordo com o texto fixado pelo autor.
CRÍTICAS DE IMPRENSA
Um livro que é um incómodo, um nó na garganta, um delicado soco sobre a existência e o seu absurdo.
Cláudia R. Sampaio
Um pequeno enorme livro que incomoda, perturba, destabiliza. Gosto de livros que me atinjam as emoções e os nervos.
Isabel Rio Novo
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Livros que queimam
Quando pensamos no verão, imaginamos praias, tardes lentas, corpos ao sol, a suspensão momentânea das responsabilidades. Mas a literatura, com a sua vocação para perturbar imagens fixas, costuma retratar o verão de outra forma: não como estação da leveza, mas da vertigem. Há algo na luz excessiva, no calor imóvel, na dilatação do tempo que parece favorecer não o repouso, mas o colapso, como se a própria claridade arrastasse consigo um pressentimento de ruína.
Os quatro livros que aqui se encontram têm em comum esse outro verão: não o que consola, mas o que desvela; não o que relaxa, mas o que desafia e, por vezes, até o que enlouquece.
Luz em Agosto, de William Faulkner
O verão do Sul dos Estados Unidos é espesso, brutal, impiedoso. Faulkner ambienta neste calor quase bíblico uma narrativa de culpa, violência e exclusão, em que a luz parece aumentar a opressão em vez de dissipá-la. Joe Christmas, figura trágica e enigmática, carrega no corpo a ambiguidade racial que o condena socialmente, mesmo que ele próprio não saiba, ou não diga, quem é. A luz não é revelação divina, mas exposição brutal: torna tudo visível demais, insuportavelmente visível. O verão, neste romance, é uma estação da perseguição e do sacrifício.
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Verão, de J.M. Coetzee
Em Verão, Coetzee escolhe descentrar-se: apresenta uma falsa biografia sua, construída a partir de entrevistas com mulheres que teriam marcado a sua vida. O autor aparece como figura esvaziada, pouco admirável, desinteressante até. É um exercício de autocrítica mas também de despersonalização. Aqui, o verão é um tempo posterior: uma espécie de pós-vida, em que o que resta não é a plenitude da estação, mas a sua sombra. O livro, atravessado por um humor seco e melancólico, desmente qualquer ideia romântica da maturidade como tempo de realização. O Verão é o tempo em que tudo está demasiado à vista, e talvez por isso tudo pareça desprovido de encanto.
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O Estrangeiro, de Albert Camus
Poucos livros condensam tanto o peso metafísico do verão quanto este. Desde as primeiras páginas, o calor é um personagem: asfixiante, agressivo, cúmplice de um crime que ocorre, segundo o protagonista, quase por acidente, por excesso de luz.
«Foi no calor do verão. O sol batia-me no rosto». Assim começa o assassinato mais enigmático da literatura moderna. Meursault é um homem que parece não sentir, ou recusa sentir, o que o mundo espera dele. A morte da mãe, o amor, o homicídio, tudo é relatado com a mesma neutralidade solar. Mas por trás dessa indiferença há uma filosofia inteira: a do absurdo. Em Camus, o verão é o cenário perfeito para revelar a ausência de sentido no centro da existência. O céu azul é impenetrável. A luz não responde.
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Férias de Agosto, de Cesare Pavese
O calor do interior italiano serve de pano de fundo para um regresso à terra natal, e, com ele, a um passado irresoluto. Pavese, sempre atento às fissuras da consciência, compõe um romance em que as férias são tudo menos descanso. O tempo parece suspenso, a paisagem é ao mesmo tempo familiar e estranha, e os encontros, em vez de apaziguar, desestabilizam. Há uma nostalgia árida, quase geológica, como se o verão tornasse visíveis não só os contornos da infância, mas também os seus abismos. O narrador move-se num tempo estagnado, onde cada gesto é sombra de outro, mais antigo e mais doloroso.
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Estes livros mostram que o verão pode ser a estação do excesso: de luz, de silêncio, de memória, de desencanto. Quando tudo parece estar à vista, somos confrontados não com a clareza, mas com o vazio. O sol não aquece: consome. O tempo não desacelera: paralisa. Há algo de cruel neste verão literário: é o tempo em que não se pode fugir, em que tudo fica demasiado nítido para ser ignorado.
Talvez por isso esses verões sejam tão inesquecíveis. Porque queimam.
«O Estrangeiro» e «O Mago do Kremlin» [com trailers]
Os filmes mais quentes do momento, que nasceram das páginas dos livros.
O Estrangeiro, de Albert Camus
Chamavam-lhe simplesmente Meursault, mas a sua aparente indiferença perante o mundo transformou-o numa das figuras mais desconcertantes da literatura moderna. Funcionário comum, homem de rotinas silenciosas, vive à margem das emoções que os outros esperam dele — e é precisamente essa distância, quase cruel na sua frieza, que o empurra para o centro de uma história que se tornará inesquecível.
Depois da morte da mãe, Meursault vê-se arrastado por acontecimentos que não procura e que, pouco a pouco, o conduzem a um gesto irreversível. A partir daí, a narrativa mergulha-nos num universo onde a justiça parece menos preocupada com o crime cometido do que com a incapacidade do protagonista de representar o papel social que lhe é exigido. Camus constrói, assim, um retrato implacável da condição humana, onde o absurdo não é uma teoria, mas uma experiência vivida na pele.
No tribunal, Meursault torna-se símbolo de tudo aquilo que a sociedade teme: alguém que não finge, que não dramatiza, que não se molda às convenções. A sua recusa em mentir — mesmo quando isso poderia salvá-lo — transforma-o numa espécie de estrangeiro dentro da própria vida, condenado não apenas pelos seus actos, mas pela sua sinceridade brutal.
O Estrangeiro permanece, décadas depois, um dos romances mais perturbadores do século XX, uma reflexão poderosa sobre liberdade, moralidade e o peso das expectativas sociais. E a mais recente adaptação ao cinema reacendeu o debate em torno da figura de Meursault, trazendo para o grande ecrã a mesma inquietação que Camus imprimiu às páginas do livro.
Onde ver?: Num cinema perto de si
Data de estreia: 12 de março de 2026
QUERO LER!»
O Mago do Kremlin, de Giuliano da Empoli
Conhecido como o “mago do Kremlin”, Vadim Baranov (inspirado no político e empresário Vladislav Surkov, principal ideólogo das políticas de Vladimir Putin) sempre foi uma figura envolta em mistério. Antes de ascender ao círculo íntimo do líder russo — tratado por muitos como o Czar — dedicara-se à realização e produção de reality shows. Quando abandonou o cargo de conselheiro, em vez de desaparecer do imaginário público, tornou-se ainda mais lendário, e ninguém parecia capaz de distinguir mito de realidade. Até que, numa noite, decidiu confiar o seu percurso ao narrador deste romance.
O relato conduz-nos ao núcleo duro do poder russo, um território onde bajuladores, oligarcas e estrategas disputam influência sem tréguas. É nesse ambiente que Vadim se transforma no grande artífice da propaganda estatal, convertendo o país num vasto palco político onde apenas uma verdade pode ser representada: a concretização da vontade do Czar. Diferente de tantos outros movidos apenas pela ambição, Vadim vê-se gradualmente aprisionado pelos mecanismos sombrios que ajudou a erguer — e fará o possível para escapar.
Da guerra na Chechénia à crise ucraniana, O Mago do Kremlin é um romance imprescindível para conhecer a Rússia contemporânea, vencedor do Prémio Honoré de Balzac e do Grande Prémio do Romance da Academia Francesa. A adaptação ao cinema com argumento do realizador Olivier Assayas e do premiado escritor Emmanuel Carrère tem merecido as melhores críticas e merece também ser vista.
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DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 978-972-38-2923-5 |
| Editor: | Livros do Brasil |
| Data de Lançamento: | julho de 2015 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 152 x 235 x 9 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 88 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Coleção: | Dois Mundos |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Romance
|
| EAN: | 978972382923527 |
| Idade Mínima Recomendada: | Não aplicável |
OPINIÃO DOS LEITORES
Um clássico que continua a provocar reflexão muito depois da última página
Vasco Almeida Fernandes
O Estrangeiro é daqueles livros curtos que deixam uma marca longa. Albert Camus oferece-nos uma narrativa aparentemente simples, mas profundamente inquietante, que nos obriga a questionar a forma como julgamos os outros e o próprio sentido da existência. Meursault, com a sua frieza emocional e honestidade desconcertante, torna-se um espelho incómodo de uma sociedade que exige emoções formatadas e comportamentos previsíveis. Não é uma leitura leve, mas é uma obra poderosa, filosófica e intemporal.
Surpreendente
H. Miranda
Um escritor que cria uma personagem como o protagonista desta história, tem que ter uma profundidade e um conhecimento sobre a mente humana extraordinário. Não pode haver spoilers nos comentários, por isso, só posso recomendar o livro.
Genial
Luciana Ramos
Meursault vive com grande indiferenciação ao mundo que o rodeia, é um ser vazio, como se não tivesse emoções, encara a morte da mãe como algo natural e leve e o possível casamento com Marie é algo que tanto lhe faz, poderia ser com ela ou com outra. Não sente remorsos do crime que comete, e encara a sentença que lhe é atribuída como algo que lhe é indiferente e nada demais, sentença esta que mais parece ser atribuída às atitudes do personagem perante o funeral/morte da mãe do que propriamente ao homicídio que cometeu. Recusa-se a ajudar o seu advogado, nega a existência de Deus, não acredita em Jesus e mais uma vez não demonstra remorso algum, tudo lhe é indiferente e apenas lhe resta aceitar o seu destino. Todos morremos e somos esquecidos, Marie poderia estar morta e assim pensou Meursault, não valeria a pena pensar nela, o mesmo aconteceria com ele, morreria e todos se esqueceriam dele, nada importa. No último momento, redescobre-se feliz, entende as razões da sua mãe, e prepara-se para começar a viver. Espera que no dia da sua execução uma grande multidão o receba com gritos. Dos melhores livros que li, sensacional.
O meu livro favorito
Lara Cardoso
Percebe-se, claramente, que o personagem principal não sente as emoções, dando-nos a sensação que anda no mundo sem grandes ambições e com um nível de apatia extremo, tal como se fosse um estrangeiro de si mesmo. E quantas vezes já não nos sentimos assim? Estranhos a nós mesmos? Este livro sem dúvida, consegue dar-nos uma visão sobre a vida, através do absurdismo. É capaz de adicionar leveza para quem tanto questiona o seu lugar no mundo.
Marcante
Carolina
Um livro que visito mentalmente inúmeras vezes; somos todos estrangeiros se não conseguirmos traduzir o mecanismo da nossa mente.
Somos todos estrangeiros
Ana
Que livro maravilhoso! Este livro passa a lição que todos nós podemos ser vistos como estrangeiros, basta não vivermos de acordo com o que a sociedade espera de nós. Quem ousa ser diferente causa estranheza e é alvo de julgamentos, o que ainda é bastante atual. Este é o melhor livro para entrar no universo de Camus.
O absurdo
Rui
Um romance de cariz ensaístico cujo tema é o absurdo. Camus, expoente do existencialismo e do absurdismo, utiliza a personagem Meursault para nos falar sobre o absurdismo. Não será de estranhar que os leitores considerem Meursault uma personagem excêntrica e estranha, mas trata-se, tão só, da conclusão de um dos raciocínios silogísticos do absurdo: se não há um sentido e uma finalidade na vida, então tanto faz aquilo que fazemos.
complexamente simples
Pedro
romance com uma mensagem intemporal
Enigmático
Pedro Sério Cardoso
As decisões pouco assertivas ou decididas, que não tomamos nos diferentes momentos das nossas vidas, resultam em acontecimentos, por vezes, tenebrosos. De fácil leitura, transporta-nos para o que deve ser a essência da vida, no que concerne à postura e relacionamento com os outros. Envolve-nos no enredo, de uma personagem enigmática.
Magistral
Carla
A partir do conceito do Absurdismo, em que o acto de existir é absurdo pois a vida não tem um sentido prévio, Camus leva-nos a reflectir no sentido e no valor da vida. Obra essencial na estante de toda a gente!
O absurdo e o estranho!
Carlos Lourenço
Albert Camus leva-nos de uma forma simples e direta a entrar no mundo do Absurdo. O desenlace, o caminho até ao desenlace, todo ele é absurdo é estranho. A personagem principal vive de forma despropositada e sem objetivos e intenções, contudo o desfecho não é favorável. Que conclusões tirar? Não existe uma conclusão fixa e única talvez. Tudo é possível!
Uma obra prima
Miguel Marques
De um relevo imenso para a literatura um excelente ensaio sobre a liberdade que toda a gente tem que ler pelo menos uma vez na vida!
Como tudo muda...
Sara Rodrigues
Depois de ler este livro, a interpretação que dei foi a de que nós podemos viver uma vida banal e sermos inocente relativamente a determinada situação mas, as pessoas conseguem sempre pegar em algum momento da nossa vida e interpretá-lo de forma errada e condenar-nos. Passando de inocentes a culpados. Mesmo que sejamos inocentes.
A monstruosidade de Meursault
João Oliveira
"O Estrangeiro" apresenta-nos os perigos do egoísmo e da falta de bússola moral, características que condenam Meursault à desgraça. Meursault é um monstro, não nos enganemos. É um ser vazio, cujas acções são condicionadas apenas pela sua vontade e pela insana lógica do "porque não?". Assim, nada o impede de cometer atrocidades, de agir sem princípios, sem ponderar os consequências para os outros. Não obstante, quando a sociedade o condena a morrer entra num paradoxo. É aceitável condenar alguém que mata a morrer? O acto punitivo e o acto punido podem coincidir? Mas pelo menos a sociedade age por convicção, Meursault está-se simplesmente marimbando. Um livro notável. Que nos obriga a pensar sobre muitas coisas.
Um estranho entre iguais
Rita Oliveira
O «estrangeiro» de Camus é Mersault, uma personagem que parece vazia de sentimentos. Encara a morte da mãe como algo leve, e o seu prévio internamento numa casa de repouso como algo que lhe faria bem a ela. Encara um possível casamento com a amante esporádica como algo que tanto lhe faz, que tanto podia ser com ela como com qualquer outra pessoa. E encara o crime que comete como outro ato qualquer. crime esse, aliás, que pratica sem grande motivo aparente. No julgamento que se segue, onde quase se condena mais a atitude leviana perante a morte da mãe do que o assassínio que cometeu, Mersault não mostra sentimentos de culpa, revelando-se como um estrangeiro entre os restantes seres humanos. Pessoa estranha, este Mersault. Descrito, no entanto, numa escrita limpa, como eu gosto.
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