A vida é uma festa

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades
17 de agosto de 2022
Quem não gosta de comemorar? Celebrar datas especiais, momentos únicos, histórias ou eventos. Estes livros têm em comum a particularidade de conterem nas suas páginas um momento em que as personagens estão juntas para fazer a festa. Para algumas, gostaríamos de ser convidados. Para outras… talvez seja melhor ler com os seus próprios olhos.
 
Golden Boys
Heath está aflito porque não consegue decorar todos nomes das primas de Reese antes de começar a festa que reunirá praticamente toda a família do seu companheiro. A adicionar mais stress ao fator pânico, Sal e Gabriel parecem estar novamente atrasados. «Se chegarem mais de quinze minutos atrasados, será a última vez para eles. Vou certificar-me disso.», intervém Reese. «Claro, somos todos amigos desde o infantário, mas hoje é o dia em que bates o pé», riposta Heath. Aproveitamos então a deixa dos dois para explicar o que se passa. Neste romance de Phil Stamper, autor considerado uma relevação na literatura LGBTQIA+ para jovens adultos, temos quatro melhores amigos que terminam a escola secundária e estão prestes a seguir quatro caminhos distintos. A festa de Reese será a última ocasião em que estão todos juntos. Mas o que determina essa separação?
Cada um segue diferentes planos para os meses seguintes: Heath vai conhecer uma prima na Florida e aí trabalhar no seu salão de jogos, Reese vai para Paris estudar desenho gráfico numa escola americana, Sal vai para a capital estagiar no Capitólio e Gabriel para Boston, onde trabalhará como voluntário numa associação ecologista. Entre Sal e Gabriel, há uma relação sem compromisso e entre Heath e Reese um amor por confessar. O que acontecerá a estes quatro depois do verão? Que mudanças é que esses meses implicarão nas suas vidas? Golden Boys é uma história de transformação, um livro sobre opções e como podemos lidar com elas. Imperdível para todas as idades.
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Rebecca
Um dos melhores thrillers de sempre merece uma festa digna deste título. E a que acontece nas páginas deste romance não defrauda as expectativas. Adaptado por duas vezes ao cinema, uma delas por Alfred Hitchcock, Rebecca deixa-nos na imaginação aquela cena em que a despreparada Mrs. de Winter desce a grande escadaria de Mandarley na sua melhor fantasia para o baile de Carnaval organizado pelo marido e, sem entrar em spoilers, as coisas não correm nada bem para ela. Parece que sentimos por um momento o mundo a parar, tal como ela, perante a reação dos convidados, do marido, dos familiares deste e, sobretudo, dos empregados e da enigmática governanta Mrs. Danvers.
O romance de Maurier é impossível de parar de ler. Uma história onde cada página nos põe nos corredores de Manderley, um casarão cheio de quartos, salas e alas proibidas. A personagem principal tem um percurso fascinante, na sua intensa devoção pelo marido, que ultrapassa qualquer limite, alternando entre a jovem rapariga que vive atormentada sob a sombra de Rebecca, a primeira esposa de Mr. De Winter, e uma mulher nas rédeas da sua vida. Um sentimento tempestuoso, pelo marido, que lhe causa mais angústia do que prazer, e se apazigua num momento em que o seu limite é testado. Poderemos amar alguém ao ponto de nos anularmos e relevarmos tudo? Rebecca é um livro de tirar o fôlego, capaz de nos fazer sair da nossa própria verdade e refletir até que ponto idealizamos a verdade e o amor.
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Saturnália
As festas deste livro não são para os mais impressionáveis, nem para os que procuram verosimilhança no que leem. Talvez haja hoje, recorrendo à tradução brasileira do famoso filme protagonizado por James Dean, uma «juventude transviada», que perdeu qualquer réstia de inibição e moral, e se entregue a celebrações onde o sexo e as drogas são o prato da casa. Ou, por outro lado, talvez seja tudo um imenso devaneio do autor. Com mais ou menos grafismo, a narração escatológica vem sendo comum em autores como Bukowski, Nelson Rodrigues, Auster ou Miller. Não é, por isso, o traço mais original de Saturnália o facto de o autor usar esse recurso.
A novidade do romance de André Fontes está no facto de abordar de forma totalmente descomplexada a rotina de um grupo de jovens portugueses cuja vida gira em torno de droga, sexo, álcool, tabaco e empregos degradantes. A escrita do autor coloca-nos em cena, faz-nos sentir o desconforto de pertencer a um grupo de amigos totalmente alheados e em apuros, que não estão preparados, ou interessados, em passar da adolescência à vida adulta. André Fontes estreou-se com um livro que prende, que incomoda pelas suas descrições gráficas e pelo galope dos quadros retratados, mas que não deve ser extrapolado para toda uma geração. Para quem gosta de uma história disruptiva, em que os nossos limites estão a ser constantemente testados, estas páginas prometem emoções fortes.
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Alice no País das Maravilhas
Para acalmarmos os ânimos, sugerimos agora um clássico. Mas… pensando bem… Alice no País das Maravilhas talvez não seja a história ideal para uma pausa sossegada das emoções anteriores. No entanto, como a festa é o tema, não podemos passar ao largo de um dos chás mais famosos do universo. Numa mesa posta debaixo de uma árvore em frente a casa, encontramos personagens nossas conhecidas desde sempre. O Coelho Branco, o Chapeleiro Louco e o Arganaz, que dormia entre eles, servindo-lhes de almofada, afirmavam que não havia espaço para Alice se juntar à festa, quando a viram aproximar-se. «Há espaço de sobra!», afirma a nossa protagonista, sentando-se numa das extremidades da mesa. A partir daí, já sabemos que o ambiente vai ficar ainda mais surreal, terminando com Alice a olhar para a árvore que tem ao lado e a ver lá uma porta pela qual, obviamente, vai querer passar.
Nada nesta história é para ser levado à letra. Ou então é, dependendo talvez da idade com que se lê o clássico de Lewis Carroll. Falar de Alice no País das Maravilhas, hoje em dia, é falar de uma das obras literárias mais conhecidas do mundo e que foi imensamente produzida e adaptada. Quem não se lembra deste chá servido no cinema por um irrepreensível Johnny Depp? Única no seu género, ao leitor cabe-lhe a missão de mergulhar nesta leitura disposto a tudo. Deixar-se contagiar pela loucura da história e aceitar o inusitado de ânimo leve. Nesta edição que aqui sugerimos, a história tem a apresentação de Peter Pan. Quem melhor nos poderia abrir a cortina para o mundo de Alice?
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