A Felicidade chegou - e veio pela mão de João Tordo
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17 de janeiro de 2020
Felicidade, de João Tordo
A Felicidade chegou – e bem precisamos dela.
Após um thriller e um ensaio, João Tordo regressa ao romance com uma história de amor e assombração nas décadas que transformaram Portugal.
Estamos em Lisboa, 1973.
Felicidade, Angélica e Esperança são as protagonistas desta espécie de tragédia grega escrita em três atos na qual o herói – no caso, o narrador - se encontra subjugado por forças indomáveis e preso entre dois mundos.
Uma obra enfeitiçante, repleta de ironia e humor, de remorso e melancolia, em que o autor aborda os temas do amor e da morte, e das pulsões humanas que os unem.
Como sempre, as expetativas estão elevadas – especialmente depois de sabermos que este foi o livro que João Tordo mais gostou de escrever.
Após um thriller e um ensaio, João Tordo regressa ao romance com uma história de amor e assombração nas décadas que transformaram Portugal.
Estamos em Lisboa, 1973.
Felicidade, Angélica e Esperança são as protagonistas desta espécie de tragédia grega escrita em três atos na qual o herói – no caso, o narrador - se encontra subjugado por forças indomáveis e preso entre dois mundos.
Uma obra enfeitiçante, repleta de ironia e humor, de remorso e melancolia, em que o autor aborda os temas do amor e da morte, e das pulsões humanas que os unem.
Como sempre, as expetativas estão elevadas – especialmente depois de sabermos que este foi o livro que João Tordo mais gostou de escrever.
PRIMEIRO ACTO
«Talvez eu devesse contar-vos o que me aconteceu aos dezassete anos para que a minha presença neste cemitério faça sentido. As pessoas não frequentam cemitérios por gosto, e eu não sou excepção. Quero dizer, existirão alguns que se divertem em lugares destes, mas decerto sofrem de estranhas patologias. Ouvi falar de gente que gosta de fazer amor com cadáveres – se é que se pode chamar amor a uma coisa tão horrível: chama-se necrofilia, o desejo de reunião com um parceiro romântico morto. Veja-se, por exemplo, Periandro, o segundo tirano dos Coríntios, que assassinou a mulher num acesso de raiva e depois teve relações sexuais com o seu cadáver; ou os marinheiros que, em tempos remotos, transportavam defuntos de regresso a casa e, na viagem, se aproveitavam das carcaças inertes e cinzentas, o brilho da alma há muito sonegado aos olhos apagados. Li algures que, nas guerras entre os russos e o Império Otomano, os soldados violavam os cadáveres do inimigo; fiquei sem saber se eram os turcos ou os russos que mais contemplavam esta prática, mas aposto que eram os russos.
Seja como for. Não sou necrófilo, nem nada que se pareça. Há outras razões para a minha presença aqui, junto das campas de Felicidade, Esperança e Angélica. Mas não serão também essas razões a expressão de uma doença? A primeira das trigémeas foi o meu grande amor; a segunda, a minha mulher; a terceira, participante involuntária da minha ruína. Juntas, elas destruíram a minha vida de maneira lenta e insidiosa, como uma matilha de cadelas que rodeia, dia após dia, um passarinho esfomeado, até este jazer morto no chão da sua gaiola.
Finalmente, encontram-se saciadas.
A vida começou com Felicidade.»
(…)
Seja como for. Não sou necrófilo, nem nada que se pareça. Há outras razões para a minha presença aqui, junto das campas de Felicidade, Esperança e Angélica. Mas não serão também essas razões a expressão de uma doença? A primeira das trigémeas foi o meu grande amor; a segunda, a minha mulher; a terceira, participante involuntária da minha ruína. Juntas, elas destruíram a minha vida de maneira lenta e insidiosa, como uma matilha de cadelas que rodeia, dia após dia, um passarinho esfomeado, até este jazer morto no chão da sua gaiola.
Finalmente, encontram-se saciadas.
A vida começou com Felicidade.»
(…)
João Tordo fala aos leitores da Wook sobre o novo livro