O Livro do Deslembramento
SINOPSE
É essa Luanda que nos é aqui apresentada pelos olhos de uma criança. Essa Luanda em que «uma pessoa não sabe passar um dia só sem inventar uma estória». E as histórias seguem-se, numa estudada circularidade, até à última página. Mas aqui chegados tudo muda. Aquele mundo, vivido como uma história de encantar, tem debaixo de si um vulcão prestes a explodir.
O Livro do Deslembramento é certamente uma das mais belas obras de autoficção da literatura em língua portuguesa. E Ondjaki, neste ano de 2020 em que passam precisamente vinte anos sobre a publicação do seu primeiro livro, dá-nos agora um dos seus melhores romances.
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Que se passa na literatura angolana?
Haverá coisa mais bela do que ver formas diferentes de dizer entre quem fala a mesma língua? Há um instrumento em comum e muitos livros para abrir.
PEPETELA
É não só dos maiores de Angola, mas também da lusofonia. Nascido em 1941, Pepetela viria a ganhar o Prémio Camões em 1997. No que escreve, temos acesso à História contemporânea de Angola, de uma forma que livros científicos ou jornais são incapazes de dar. São as artérias que lá estão. Prova disso é o seu romance mais lido, Mayombe, publicado em 1979. Ali, temos a organização dos combatentes do Movimento Popular de Libertação de Angola, ao lado de quem Pepetela lutou pela libertação do seu país. Mais do que um livro de História, que só mostra a vida por fora, aqui temos as vidas e os pensamentos de um grupo de guerrilheiros durante a guerra – ou seja, a parte obscura e profunda em que os historiadores não conseguem mergulhar. Lê-lo, por isso, é entender melhor a vida. Ora, Pepetela conta muito sobre Angola, porque pega na História viva e mostra aos leitores as vísceras. Depois da guerra, continua nas entranhas do país. Por exemplo, em A Geração da Utopia, mostra o capítulo seguinte da vida, com a desilusão que se instalou no país após a independência. E, como a obra de Pepetela é muito mais do que as crónicas da contemporaneidade, também abraça o período pré-colonialismo, como em Lueji, que conta as histórias de Lu e Lueji, que viveram com quatro séculos de permeio, as duas com uma coisa em comum que é comum a todos nós, aqui entrelaçadas na história de Angola.
Pepetela / Foto © Jorge Nogueira
José Eduardo Agualusa / Foto © LaraLongle, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
AGUALUSA
Agualusa, perdoe-se-me a objetificação, é o bonitão da literatura lusófona. Podíamos pô-lo num catálogo de modelos, mas como escreve tão bem também entra nesta lista. O autor, que é multifacetado, acaba de lançar Mestre dos Batuques, um romance com selo da Quetzal. Aqui, a narrativa vai a tudo, tanto pegando num pelotão de soldados europeus encontrado sem vida como numa história de amor, numa sociedade secreta de guerreiros ovimbundo ou num rei-mago, numa mulher que se faz invisível ou num homem que quer captar o que se vê com uma máquina. Há gente real, e gente que só é real nos livros, o que, para o propósito de um romance, não lhe diminui a vida. Sobretudo, há o substrato, que mostra ao leitor coevo como e de que matéria se faz um país. Ora, depois de uma narrativa tão cheia de tudo, e que mostra tanto mundo, dá para ir a O Mais Belo Fim do Mundo. O livro é um compêndio de contos, crónicas e apontamentos reunidos entre 2018 e 2021, publicados na imprensa portuguesa e brasileira. Assim, vira-se para a coetaneidade, e fá-lo naquele misto que a mão de um criador literário permite, tornando híbridas as fronteiras entre os géneros. Findo cada texto, pode haver a dúvida sobre se o que se leu é ficção ou realidade, mas o melhor é nem perder tempo a pensar nisso, até porque, a seguir, e segundo várias entrevistas, se pode ter inveja – mas inveja boa – de uma amizade que parece pertencer à candura da ficção.
O Terrorista Elegante e Outras Histórias foi escrito a quatro mãos com Mia Couto. Este artigo é sobre literatura angolana, mas damos espaço a duas mãos de Moçambique, essas que se voltaram para as três novelas deste livro. Recomenda-se logo a segunda, mais não seja pelo início. «Venho aqui para matar». Gente mórbida como eu gosta destas coisas. O leitor fica logo interessado, e descansado por estar protegido pela distância entre os olhos e o papel. E venha mais distância com Teoria Geral do Esquecimento. No romance, seguimos Ludovica, portuguesa que, na véspera da independência de Angola, está de tal forma amedrontada que se isola no seu apartamento. Chega ao ponto de erguer uma parede, separando-se do resto do mundo, e ali fica durante quase trinta anos, sobrevivendo à míngua. À sua volta, lá longe, Luanda cresce, vive, muda. Só ela fica estática. O leitor lá julgará que se entende que a instabilidade cause insegurança, mas talvez mais valha viver de mãos sujas do que as ter limpas no fim.
ONDJAKI
Sou tão fã de Ondjaki
que um dia hei-de pendurar um poster seu na sala. Se eu pudesse – mas não posso –, roubava-lhe a expressão “vermelho devagarinho”, e dormia abraçada a ela, fingindo que a inventara. Fui buscá-la a Os Transparentes. Há uma coisa irritante em Ondjaki, que é ser capaz de fazer coisas que eu queria ter feito. Este romance está cheio delas, desde expressões tão belas que roçam o escândalo indecente a ginástica com a língua, como se vê com uma personagem chamada SantosPrancha ou um galo mirolho chamado Camões. É a narrativa longa de maior fôlego do autor angolano e cabe lá a vida inteira, metida em Luanda. Lemo-la no papel branco, mas, já se adivinha, nunca deixa de se ver o vermelho devagarinho que é coisa de fim de tarde. O Livro do Deslembramento também me enerva por ser tão bom, começando logo no título. Aqui, o leitor vê a vida em Luanda após a guerra civil, apanhando as primeiras eleições no país. Ora, pouco depois, ressurge a guerra, contada pela voz de uma criança – e mais um elogio a Ondjaki, o maior da lusofonia a criar vozes de pimpolhos. Falando em crianças, não dará para ignorar que também na literatura infantil o autor é o príncipe da pequenada. Em A Estória do Sol e do Rinoceronte, belamente ilustrada por Catalina Vásquez, o autor conta a história, feita fábula, de um rinoceronte que aprendeu uma lição com o sol. Daí nasce uma história sobre empatia, contada em verso. Em Senhor Feroz, ilustrado por Alex Gozblau, temos um conto poético sobre liberdade e laços de família, que se inicia com uma menina triste, a tapar os olhos, e a contar “a coisa mais desalinhada” que alguma vez sentiu acontecer na praia. E a ilustração, convém dizer, é um encanto. Ynari, A Menina das Cinco Tranças tem ilustração de Danuta Wojciechowska, e muito mais texto do que os anteriores, destinando-se a um público um pouco mais velho, embora ainda juvenil. Na história, Ynari depara-se, junto ao rio, com um homem muito menor do que os homens que conhecia. E há ainda o magnífico O Voo do Golfinho: mas não será sobre um pássaro? Não vou dizer. Digo só que, quando se entra nas páginas deste livro, quase todas azuis de mar, parece que se nada.
Ondjaki
«A infância não é nostalgia, é território mesmo» – entrevista a Ondjaki
Há escritores que constroem mundos — Ondjaki organiza o caos. Com uma escrita feita de sons de Luanda, memórias reconstruídas e vozes emprestadas, o autor de livros de contos como Vou Mudar a Cozinha ou Os da Minha Rua e de romances como Os Transparentes, fala-nos da infância como território literário, da literatura como forma de cuidar da memória coletiva e da escuta como matéria-prima essencial. Entre a poesia e o documento, entre o pessoal e o universal, esta conversa percorre as raízes da sua escrita e o presente vibrante da literatura angolana.
Sentiste sempre necessidade de escrever?
Sim. Não me lembro de um tempo em que não escrevesse. Mesmo quando não escrevia literatura — escrevia cartas, diários, coisas pequenas. Sempre foi uma forma de pensar o mundo. De o organizar, talvez. Ou de o desorganizar de maneira mais bonita (risos). Acho que para quem escreve, o mundo é um bocadinho mais suportável.
Ondjaki - Foto © Malba
Ver o mundo a partir de Luanda moldou a tua escrita com um carácter universal?
Há histórias que são muito locais, mas que tocam profundamente — não só o coração, mas também os olhos, o peito, as lágrimas, as memórias de cada um. Mas nunca procurei atingir nada universal. O que procurei foi explorar o universo muito peculiar de Luanda, do lugar específico ao qual eu pertenço. Se esse universo consegue dialogar com o das outras pessoas, fico satisfeito. A literatura tem exatamente essa capacidade.
«Esse processo de reconstrução — com empatia, imaginação e escuta — é também um modo de cuidar da memória coletiva.»
Regressas frequentemente à infância nos teus livros de forma muito vívida. Para o livro Os Da Minha Rua, baseaste te nalgum diário pessoal?
Não, só a partir dos 15 ou 16 anos é que comecei a escrever notas. Os Da Minha Rua surgiu depois de Bom Dia, Camaradas – para escrevê-lo, precisei de ir buscar vários episódios da infância, relacioná-los e explorar a memória — ficou muito vívido. Depois, uma editora suíça pediu me um livro de contos, e eu decidi repartir essa infância em vários contos. Cada livro acabou por originar o seguinte: são quatro livros sobre Luanda, cada um a abrir uma porta nova.
A literatura ajuda-te a resgatar memórias?
Sim, claro. Eu não me lembro de tudo — nem podia. Há coisas que me foram contadas, outras que misturo, outras que reconstruo. É uma memória ficcionada, mas que parte de uma verdade emocional. Esse processo de reconstrução — com empatia, imaginação e escuta — é também um modo de cuidar da memória coletiva.
Preocupas-te em passar essa escuta e empatia para as tuas personagens?
Sim. Antes de escrever, escutei muito. Escutei os mais velhos, escutei as crianças, escutei os sons da rua, os silêncios… E continuo a escutar. Há um trabalho de atenção ao outro que para mim é fundamental.
O papel do escritor passa também por dar voz a quem não a tem?
O escritor é alguém que presta atenção — alguém que escuta com cuidado, que recolhe os fragmentos, que os organiza, que os devolve sob outra forma. Há uma espécie de responsabilidade nisso. Não é só a minha voz que está ali, é a voz de muitos. Mesmo que estejam calados. Mesmo que nunca venham a saber que as suas palavras chegaram a um livro. O escritor, nesse sentido, não é o centro. É um canal. Um mediador. Alguém que organiza o caos em forma de narrativa — mesmo que essa narrativa seja, ela própria, caótica.
Estudaste e usas frequentemente estigas [ditos espirituosos com que se troça de alguém], no contexto dos jogos infantis, nas tuas histórias. Podes explicar porquê?
As estigas, os provérbios e as canções guardam uma sabedoria muito antiga. E num contexto urbano como Luanda, onde a modernidade é muito rápida e caótica, estas formas orais funcionam como uma âncora, uma maneira de dar sentido às coisas. Mesmo quando são brincadeiras, há ali uma verdade, uma crítica, um ensinamento.
«O escritor é um canal, um mediador; alguém que organiza o caos em forma de narrativa — mesmo que essa narrativa seja, ela própria, caótica.»
A infância continua a ser o teu grande território literário?
Sim, sem dúvida. Não é nostalgia — é território mesmo. A infância é onde tudo começa. É ali que se aprende a linguagem, o medo, a alegria, a perda. É uma matéria-prima inesgotável. E é talvez o tempo onde a imaginação é mais livre. Por isso volto lá tantas vezes, para resgatar essa liberdade.
A tua escrita equilibra o registo poético e a crónica do quotidiano, quase documental. Esse equilíbrio surge-te naturalmente?
Sim, não penso muito nisso quando escrevo. Há um lado poético que me é natural — talvez por ter crescido num ambiente onde a oralidade tem muito peso, e onde a metáfora é uma forma de viver e dizer o mundo. Mas também há um lado de observação, de anotar coisas. A vida das pessoas interessa-me. O gesto mais pequeno pode conter uma revelação.
Como vês o panorama literário categorizado em função da língua? A literatura em português, a lusofonia, essas etiquetas…
Eu tenho uma relação um bocado ambígua com essas etiquetas. A palavra “lusofonia” por vezes aparece como uma espécie de armadilha, uma ideia meio colonial, meio protocolar — como se o que temos em comum fosse apenas a língua portuguesa e não a diversidade de experiências, de memórias, de visões do mundo que ela carrega. Prefiro pensar em redes — de afetos, de influências, de escuta mútua, e isso já acontece, felizmente. O contacto entre escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Brasil, Portugal é cada vez maior, mas é preciso que seja também feito de escuta verdadeira, e não apenas de celebrações protocolares. Temos muito a aprender uns com os outros, e maneiras muito diferentes de habitar a língua. A língua é uma espécie de organismo vivo, e cada um de nós fala e escreve com o corpo todo — com as memórias, com os lugares por onde passou, com as vozes que ouviu. Eu escrevo num português contaminado de kimbundu, de gíria de Luanda, de referências locais. E ainda bem. É essa pluralidade que faz com que a literatura em português seja rica.
Disseste há pouco que valorizas muito a memória coletiva. E isso sente-se na tua obra, que mistura tantas vozes, tantas histórias. Vês-te como alguém que arquiva, que preserva essas memórias?
Gosto dessa ideia, sim. Talvez seja isso: um arquivista de histórias. Mas não é um arquivo neutro — eu transformo essas memórias. Ou elas transformam-me a mim. É um processo duplo. Às vezes, nem sei muito bem o que é meu e o que é dos outros. Mas não importa. O que interessa é que essas vozes continuem a circular, a ser ouvidas. Mesmo que mudem de forma. A ficção tem esse poder.
Estás a trabalhar em novos projetos?
Sim, estou sempre a trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo. Às vezes, demoro anos a acabar um livro. Outras vezes, acontece tudo muito depressa. E, claro, há sempre ideias para contos, para crónicas. Tenho uma cabeça muito barulhenta (risos).
E esse barulho é bom?
Às vezes, é. Outras vezes é exaustivo. Mas é o meu barulho, já me habituei. Acho que o mais importante é conseguir transformá-lo nalguma coisa que se possa partilhar. Que faça sentido para os outros também.
Como vês o futuro da literatura angolana?
Com muito optimismo. Há vozes novas muito interessantes, há mais leitores, mais editoras, mais debates. Claro que há muitos desafios — o acesso aos livros, por exemplo, continua a ser difícil. Mas há uma energia, uma vontade de contar, de dizer, de intervir, que é muito forte. E isso é fundamental. A literatura angolana tem um futuro promissor.
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789722130356 |
| Editor: | Editorial Caminho |
| Data de Lançamento: | agosto de 2020 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 135 x 211 x 15 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 208 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Romance
|
| EAN: | 9789722130356 |
OPINIÃO DOS LEITORES
NOSTÁLGICO
Fernando Kawendimba
não foi o melhor romance do autor, em minha opinião: "os transparentes", seus livros de conto e poesia que eu li são mais bem escritos e conseguidos. entretanto, é outro que se revela muito bom e anuncia que o mano ondjaki oferece-nos leituras obrigatórias e recheadas de qualidade estética e poética. recomendo-o vivamente a todos.
Deslumbrante
Luísa B
Já conhecia a escrita de Ondjaki, e este livro mais uma vez me encantou. Que bem que ele descreve Luanda e suas gentes. Recomendo!
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