«A infância não é nostalgia, é território mesmo» – entrevista a Ondjaki
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14 de julho de 2025
Há escritores que constroem mundos — Ondjaki organiza o caos. Com uma escrita feita de sons de Luanda, memórias reconstruídas e vozes emprestadas, o autor de livros de contos como Vou Mudar a Cozinha ou Os da Minha Rua e de romances como Os Transparentes, fala-nos da infância como território literário, da literatura como forma de cuidar da memória coletiva e da escuta como matéria-prima essencial. Entre a poesia e o documento, entre o pessoal e o universal, esta conversa percorre as raízes da sua escrita e o presente vibrante da literatura angolana.
Sentiste sempre necessidade de escrever?
Sim. Não me lembro de um tempo em que não escrevesse. Mesmo quando não escrevia literatura — escrevia cartas, diários, coisas pequenas. Sempre foi uma forma de pensar o mundo. De o organizar, talvez. Ou de o desorganizar de maneira mais bonita (risos). Acho que para quem escreve, o mundo é um bocadinho mais suportável.
Sentiste sempre necessidade de escrever?
Sim. Não me lembro de um tempo em que não escrevesse. Mesmo quando não escrevia literatura — escrevia cartas, diários, coisas pequenas. Sempre foi uma forma de pensar o mundo. De o organizar, talvez. Ou de o desorganizar de maneira mais bonita (risos). Acho que para quem escreve, o mundo é um bocadinho mais suportável.
Ondjaki - Foto © Malba
Ver o mundo a partir de Luanda moldou a tua escrita com um carácter universal?
Há histórias que são muito locais, mas que tocam profundamente — não só o coração, mas também os olhos, o peito, as lágrimas, as memórias de cada um. Mas nunca procurei atingir nada universal. O que procurei foi explorar o universo muito peculiar de Luanda, do lugar específico ao qual eu pertenço. Se esse universo consegue dialogar com o das outras pessoas, fico satisfeito. A literatura tem exatamente essa capacidade.
Há histórias que são muito locais, mas que tocam profundamente — não só o coração, mas também os olhos, o peito, as lágrimas, as memórias de cada um. Mas nunca procurei atingir nada universal. O que procurei foi explorar o universo muito peculiar de Luanda, do lugar específico ao qual eu pertenço. Se esse universo consegue dialogar com o das outras pessoas, fico satisfeito. A literatura tem exatamente essa capacidade.
«Esse processo de reconstrução — com empatia, imaginação e escuta — é também um modo de cuidar da memória coletiva.»
Regressas frequentemente à infância nos teus livros de forma muito vívida. Para o livro Os Da Minha Rua, baseaste te nalgum diário pessoal?
Não, só a partir dos 15 ou 16 anos é que comecei a escrever notas. Os Da Minha Rua surgiu depois de Bom Dia, Camaradas – para escrevê-lo, precisei de ir buscar vários episódios da infância, relacioná-los e explorar a memória — ficou muito vívido. Depois, uma editora suíça pediu me um livro de contos, e eu decidi repartir essa infância em vários contos. Cada livro acabou por originar o seguinte: são quatro livros sobre Luanda, cada um a abrir uma porta nova.
A literatura ajuda-te a resgatar memórias?
Sim, claro. Eu não me lembro de tudo — nem podia. Há coisas que me foram contadas, outras que misturo, outras que reconstruo. É uma memória ficcionada, mas que parte de uma verdade emocional. Esse processo de reconstrução — com empatia, imaginação e escuta — é também um modo de cuidar da memória coletiva.
Preocupas-te em passar essa escuta e empatia para as tuas personagens?
Sim. Antes de escrever, escutei muito. Escutei os mais velhos, escutei as crianças, escutei os sons da rua, os silêncios… E continuo a escutar. Há um trabalho de atenção ao outro que para mim é fundamental.
O papel do escritor passa também por dar voz a quem não a tem?
O escritor é alguém que presta atenção — alguém que escuta com cuidado, que recolhe os fragmentos, que os organiza, que os devolve sob outra forma. Há uma espécie de responsabilidade nisso. Não é só a minha voz que está ali, é a voz de muitos. Mesmo que estejam calados. Mesmo que nunca venham a saber que as suas palavras chegaram a um livro. O escritor, nesse sentido, não é o centro. É um canal. Um mediador. Alguém que organiza o caos em forma de narrativa — mesmo que essa narrativa seja, ela própria, caótica.
Não, só a partir dos 15 ou 16 anos é que comecei a escrever notas. Os Da Minha Rua surgiu depois de Bom Dia, Camaradas – para escrevê-lo, precisei de ir buscar vários episódios da infância, relacioná-los e explorar a memória — ficou muito vívido. Depois, uma editora suíça pediu me um livro de contos, e eu decidi repartir essa infância em vários contos. Cada livro acabou por originar o seguinte: são quatro livros sobre Luanda, cada um a abrir uma porta nova.
A literatura ajuda-te a resgatar memórias?
Sim, claro. Eu não me lembro de tudo — nem podia. Há coisas que me foram contadas, outras que misturo, outras que reconstruo. É uma memória ficcionada, mas que parte de uma verdade emocional. Esse processo de reconstrução — com empatia, imaginação e escuta — é também um modo de cuidar da memória coletiva.
Preocupas-te em passar essa escuta e empatia para as tuas personagens?
Sim. Antes de escrever, escutei muito. Escutei os mais velhos, escutei as crianças, escutei os sons da rua, os silêncios… E continuo a escutar. Há um trabalho de atenção ao outro que para mim é fundamental.
O papel do escritor passa também por dar voz a quem não a tem?
O escritor é alguém que presta atenção — alguém que escuta com cuidado, que recolhe os fragmentos, que os organiza, que os devolve sob outra forma. Há uma espécie de responsabilidade nisso. Não é só a minha voz que está ali, é a voz de muitos. Mesmo que estejam calados. Mesmo que nunca venham a saber que as suas palavras chegaram a um livro. O escritor, nesse sentido, não é o centro. É um canal. Um mediador. Alguém que organiza o caos em forma de narrativa — mesmo que essa narrativa seja, ela própria, caótica.
Estudaste e usas frequentemente estigas [ditos espirituosos com que se troça de alguém], no contexto dos jogos infantis, nas tuas histórias. Podes explicar porquê?
As estigas, os provérbios e as canções guardam uma sabedoria muito antiga. E num contexto urbano como Luanda, onde a modernidade é muito rápida e caótica, estas formas orais funcionam como uma âncora, uma maneira de dar sentido às coisas. Mesmo quando são brincadeiras, há ali uma verdade, uma crítica, um ensinamento.
As estigas, os provérbios e as canções guardam uma sabedoria muito antiga. E num contexto urbano como Luanda, onde a modernidade é muito rápida e caótica, estas formas orais funcionam como uma âncora, uma maneira de dar sentido às coisas. Mesmo quando são brincadeiras, há ali uma verdade, uma crítica, um ensinamento.
«O escritor é um canal, um mediador; alguém que organiza o caos em forma de narrativa — mesmo que essa narrativa seja, ela própria, caótica.»
A infância continua a ser o teu grande território literário?
Sim, sem dúvida. Não é nostalgia — é território mesmo. A infância é onde tudo começa. É ali que se aprende a linguagem, o medo, a alegria, a perda. É uma matéria-prima inesgotável. E é talvez o tempo onde a imaginação é mais livre. Por isso volto lá tantas vezes, para resgatar essa liberdade.
A tua escrita equilibra o registo poético e a crónica do quotidiano, quase documental. Esse equilíbrio surge-te naturalmente?
Sim, não penso muito nisso quando escrevo. Há um lado poético que me é natural — talvez por ter crescido num ambiente onde a oralidade tem muito peso, e onde a metáfora é uma forma de viver e dizer o mundo. Mas também há um lado de observação, de anotar coisas. A vida das pessoas interessa-me. O gesto mais pequeno pode conter uma revelação.
Como vês o panorama literário categorizado em função da língua? A literatura em português, a lusofonia, essas etiquetas…
Eu tenho uma relação um bocado ambígua com essas etiquetas. A palavra “lusofonia” por vezes aparece como uma espécie de armadilha, uma ideia meio colonial, meio protocolar — como se o que temos em comum fosse apenas a língua portuguesa e não a diversidade de experiências, de memórias, de visões do mundo que ela carrega. Prefiro pensar em redes — de afetos, de influências, de escuta mútua, e isso já acontece, felizmente. O contacto entre escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Brasil, Portugal é cada vez maior, mas é preciso que seja também feito de escuta verdadeira, e não apenas de celebrações protocolares. Temos muito a aprender uns com os outros, e maneiras muito diferentes de habitar a língua. A língua é uma espécie de organismo vivo, e cada um de nós fala e escreve com o corpo todo — com as memórias, com os lugares por onde passou, com as vozes que ouviu. Eu escrevo num português contaminado de kimbundu, de gíria de Luanda, de referências locais. E ainda bem. É essa pluralidade que faz com que a literatura em português seja rica.
Disseste há pouco que valorizas muito a memória coletiva. E isso sente-se na tua obra, que mistura tantas vozes, tantas histórias. Vês-te como alguém que arquiva, que preserva essas memórias?
Gosto dessa ideia, sim. Talvez seja isso: um arquivista de histórias. Mas não é um arquivo neutro — eu transformo essas memórias. Ou elas transformam-me a mim. É um processo duplo. Às vezes, nem sei muito bem o que é meu e o que é dos outros. Mas não importa. O que interessa é que essas vozes continuem a circular, a ser ouvidas. Mesmo que mudem de forma. A ficção tem esse poder.
Estás a trabalhar em novos projetos?
Sim, estou sempre a trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo. Às vezes, demoro anos a acabar um livro. Outras vezes, acontece tudo muito depressa. E, claro, há sempre ideias para contos, para crónicas. Tenho uma cabeça muito barulhenta (risos).
E esse barulho é bom?
Às vezes, é. Outras vezes é exaustivo. Mas é o meu barulho, já me habituei. Acho que o mais importante é conseguir transformá-lo nalguma coisa que se possa partilhar. Que faça sentido para os outros também.
Como vês o futuro da literatura angolana?
Com muito optimismo. Há vozes novas muito interessantes, há mais leitores, mais editoras, mais debates. Claro que há muitos desafios — o acesso aos livros, por exemplo, continua a ser difícil. Mas há uma energia, uma vontade de contar, de dizer, de intervir, que é muito forte. E isso é fundamental. A literatura angolana tem um futuro promissor.
Sim, sem dúvida. Não é nostalgia — é território mesmo. A infância é onde tudo começa. É ali que se aprende a linguagem, o medo, a alegria, a perda. É uma matéria-prima inesgotável. E é talvez o tempo onde a imaginação é mais livre. Por isso volto lá tantas vezes, para resgatar essa liberdade.
A tua escrita equilibra o registo poético e a crónica do quotidiano, quase documental. Esse equilíbrio surge-te naturalmente?
Sim, não penso muito nisso quando escrevo. Há um lado poético que me é natural — talvez por ter crescido num ambiente onde a oralidade tem muito peso, e onde a metáfora é uma forma de viver e dizer o mundo. Mas também há um lado de observação, de anotar coisas. A vida das pessoas interessa-me. O gesto mais pequeno pode conter uma revelação.
Como vês o panorama literário categorizado em função da língua? A literatura em português, a lusofonia, essas etiquetas…
Eu tenho uma relação um bocado ambígua com essas etiquetas. A palavra “lusofonia” por vezes aparece como uma espécie de armadilha, uma ideia meio colonial, meio protocolar — como se o que temos em comum fosse apenas a língua portuguesa e não a diversidade de experiências, de memórias, de visões do mundo que ela carrega. Prefiro pensar em redes — de afetos, de influências, de escuta mútua, e isso já acontece, felizmente. O contacto entre escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Brasil, Portugal é cada vez maior, mas é preciso que seja também feito de escuta verdadeira, e não apenas de celebrações protocolares. Temos muito a aprender uns com os outros, e maneiras muito diferentes de habitar a língua. A língua é uma espécie de organismo vivo, e cada um de nós fala e escreve com o corpo todo — com as memórias, com os lugares por onde passou, com as vozes que ouviu. Eu escrevo num português contaminado de kimbundu, de gíria de Luanda, de referências locais. E ainda bem. É essa pluralidade que faz com que a literatura em português seja rica.
Disseste há pouco que valorizas muito a memória coletiva. E isso sente-se na tua obra, que mistura tantas vozes, tantas histórias. Vês-te como alguém que arquiva, que preserva essas memórias?
Gosto dessa ideia, sim. Talvez seja isso: um arquivista de histórias. Mas não é um arquivo neutro — eu transformo essas memórias. Ou elas transformam-me a mim. É um processo duplo. Às vezes, nem sei muito bem o que é meu e o que é dos outros. Mas não importa. O que interessa é que essas vozes continuem a circular, a ser ouvidas. Mesmo que mudem de forma. A ficção tem esse poder.
Estás a trabalhar em novos projetos?
Sim, estou sempre a trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo. Às vezes, demoro anos a acabar um livro. Outras vezes, acontece tudo muito depressa. E, claro, há sempre ideias para contos, para crónicas. Tenho uma cabeça muito barulhenta (risos).
E esse barulho é bom?
Às vezes, é. Outras vezes é exaustivo. Mas é o meu barulho, já me habituei. Acho que o mais importante é conseguir transformá-lo nalguma coisa que se possa partilhar. Que faça sentido para os outros também.
Como vês o futuro da literatura angolana?
Com muito optimismo. Há vozes novas muito interessantes, há mais leitores, mais editoras, mais debates. Claro que há muitos desafios — o acesso aos livros, por exemplo, continua a ser difícil. Mas há uma energia, uma vontade de contar, de dizer, de intervir, que é muito forte. E isso é fundamental. A literatura angolana tem um futuro promissor.