Vidas que dão livros

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades

17 de novembro de 2022
Seguindo a mais recente iniciativa no Bookstagram, vamos ler biografias em novembro. O hashtag #novembrobiografico, criado pelo perfil @na.cama.com.os.livros, desafia-nos a ler vidas contadas por alguém. São trabalhos que demoram anos a ser levados a cabo, muitas vezes ocupando a vida de quem é biografado, a própria vida de quem escreve. Aqui estão quatro biografias de quatro portugueses marcantes.
O Poço e a Estrada
Alguns de nós fomos praticamente intimados a ler A Sibilia, de Agustina Bessa Luís, no final do décimo segundo ano do ensino secundário. Para alguns (é o caso de um de nós!), a parte do exame de acesso à faculdade que contemplava o estudo dessa obra era de tal forma importante que, não é exagero dizê-lo, condicionava o acesso ao curso pretendido. É natural que, para esses tais alguns, a figura de Agustina Bessa Luís tenha ficado associada a algum sentimento algures entre o respeito e o pânico.
Mas regressemos ao presente. Isabel Rio Novo proporciona-nos uma forma de nos apaziguarmos com a autora, e que é lendo a sua vida. Está certo que Agustina é uma figura controversa, mas a diversidade do seu olhar sobre a realidade ultrapassa algumas das formas mais dicotómicas de as encarar, para nos levar para um mundo onde mulher e obra se misturam. Esta narrativa a diversas vozes permite inclusivamente ao leitor entrar no debate, misturando-se entre as interpretações e as opções possíveis para dar continuidade à história de uma pessoa que não se esgota no seu desaparecimento. A dimensão humana de Agustina e da sua família é-nos apresentada sem rodeios. E assim sabemos que é uma justa homenagem ao seu caráter.
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As 7 Vidas de José Saramago
Filomena Oliveira e Miguel Real, autores desta biografia do único Prémio Nobel da Literatura português, viajam até Josephville, a cidade ideal de Saramago, referida pelo autor numa crónica de 1968. É a partir daí que nos contam a história da vida de José, um menino oriundo de uma família pobre, que foi serralheiro e jornalista, mas é sobretudo como escritor que o vamos conhecer. São sete os capítulos por onde esta biografia nos leva e ao longo dos quais vamos tornando a figura de José Saramago ainda mais nossa, mais íntima. A ideia que mais perpassa ao longo destas páginas é a de um homem que se reinventa, que cresce para todos os lados, tornando-se uma personalidade central da cultura portuguesa. É certo que são várias as polémicas em que se envolveu e em que se viu envolvido, mas a ideia de um homem que se desafia, que reflete em si e nos outros imagens e ideias que vingam e ficam para sempre, é a nota dominante desta vida.
O trabalho de investigação concentrou-se nos arquivos da Fundação José Saramago mas também na obtenção de testemunhos e entrevistas com pessoas que conheceram o autor. Não nos queremos atrever a entrar na pele do autor de Ensaio Sobre a Cegueira , mas parece-nos que Saramago gostaria deste trabalho. O constante deambular entre o real e a interpretação era algo que, estamos certos, lhe agradava bastante.
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Pessoa – Uma Biografia
Para começar, temos um finalista do Prémio Pulitzer 2022 na categoria de biografias. «Monumental», «sublime», «definitivo», «obra-prima», «rico e revelador» são alguns dos adjetivos com que os principais órgãos de imprensa internacionais qualificam este livro de Richard Zenith, que nos apresenta a vida de Fernando Pessoa, ícone incontornável da cultura portuguesa contemporânea.
O rigor da investigação de Zenith não compromete, de forma nenhuma, a fluidez da narrativa e a forma como prende o leitor desde a primeira página, numa escrita que é uma conversa com quem lê. Há que referir que Richard Zenith é um dos mais reconhecidos estudiosos da obra pessoana, dedicando-lhe uma vida de pesquisa, que se expressa não apenas nos estudos biográficos, mas também na tradução de algumas obras de Fernando Pessoa para inglês. Quando à pessoa que esta biografia retrata, misto de génio e homem consciente das suas fragilidades e dos seus temores, é incrível como, passados tantos anos, ainda há tanto a dizer e a descobrir. O nosso conselho é que não se deixe assustar pelo tamanho desta biografia. Não levará, decerto, o tempo de uma vida a lê-la. A forma como está organizada, a clareza da linguagem, o interesse que desperta a vida de Fernando Pessoa e a forma respeitosa e dedicada como Richard Zenith a trata são motivos mais do que suficientes para que este seja um livro que o acompanhará neste Inverno.
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Amália Nas Suas Palavras
Se todos temos Amália na voz, Manuel da Fonseca teve-a um pouco mais do que todos nós. O escritor, conhecido militante comunista, teve no início dos anos 70 a tarefa de escrever uma biografia sobre aquela que é a nossa cantora de fado mais internacional. Ambos conversaram ao longo de muitas horas, descobrindo, porventura, que muito mais era o que os unia do que aquilo que os separava.
A edição da biografia de Amália Rodrigues não foi avante, contudo. A editora Arcádia, que incumbiu Manuel da Fonseca de traçar a vida até então da rainha do fado, encerrou e com ela as muitas horas de conversa que ambos tiveram. A Porto Editora decidiu, na data do aniversário da fadista, homenageá-la, e em parte também a Manuel da Fonseca, trazendo à luz do dia uma biografia em que a própria fala de si, contando-nos muito do que foi o seu percurso e de como vivia a vida. As conversas da Rua de São Bento ganharam uma roupagem moderna e é isso mesmo que encontramos neste livro. Amália revisitada por ela própria.
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