As histórias da vida real

Por Álvaro Curia/Ludgero Cardoso
@literacidades
17 de janeiro de 2020
Ler a vida dos outros comporta sempre uma dose de verdade e ficção. Será que aquelas pessoas são mesmo assim, como retratadas nas páginas das suas biografias? Quando se trata de figuras que passaram por cá há alguns séculos, ou outras, mais misteriosas, o fio condutor desse trabalho minucioso que é a escrita de uma biografia é ainda mais desafiante. Aqui estão algumas vidas que vale a pena ler.
 
Leonardo da Vinci
Talvez seja o homem que reúne mais consenso quanto à sua genialidade. A sua criatividade e a forma como conseguiu unir os mundos da arte e da ciência levam a que ainda hoje a sua obra seja estudada e os académicos atuais não se cansem de surpreender com o grau de inovação que ela comporta. Das ciências naturais ao mundo das artes plásticas, o autor de Mona Lisa foi também um matemático, físico e desenhista excecional, entre tantas outras competências. Neste livro conhecemos o homem por trás do génio, a pessoa real e os seus interesses, e a forma como um filho bastardo, bastante distraído, que não teve uma educação formal, granjeou o título de um dos mais geniais de sempre. Um dos pontos mais interessantes do livro é a forma como mostra que, por trás de todas as atribuições quase divinas que a história lhe sagrou, Leonardo apoiava a sua genialidade em factos concretos e uma excecional capacidade de estudo e concentração.
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Madame Curie
O facto de uma mulher, no início do séc. XX, receber a aclamação internacional por parte da comunidade científica já devia, por si só, dar para ter uma ideia sobre a singularidade desta cientista. Esta biografia, escrita pela sua filha, Ève Curie, traz à luz uma importante reflexão sobre a cientista e a sua vida, as suas opções e como teve de ir contra os padrões da época para se afirmar como uma das mais importantes mulheres da ciência. Vencedora de dois prémios Nobel, da Física em 1903 e da Química em 1911, o trabalho de Curie destacou-se na abordagem à radioatividade e à forma como esta poderia ser utilizada no diagnóstico de doenças. Encontramos, pela mão da sua filha, páginas que nos revelam dos primeiros anos da sua infância até à sua morte, causada precisamente pelo elemento que estudou a vida toda. O relato é intimista, ou não se tratasse de uma filha a falar sobre a sua mãe.
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Saramago, os seus nomes
Não faltarão nunca as palavras para falar da vida do escritor português. Uma vida que se confunde com as letras das páginas dos seus livros, feita de determinação, de grandes resoluções e maiores decisões, mas também de uma tranquilidade tão complacente, uma quase placidez que nos faz acreditar que por Saramago os anos corriam, demoravam-se, à medida do seu próprio tempo. E se palavras não faltam para escrever sobre a vida de José Saramago, imagens muito menos. Este álbum fotográfico é um tesouro em papel. Nele, vemos as pessoas, os lugares, as expressões e os livros de Saramago. Como se abríssemos um documento a que queremos muitas vezes regressar. Sentirmo-nos intrigados por um nome que descobrimos, quase como a personagem principal de Todos os Nomes. Ficar com uma última foto no olhar, perseguir este homem que a cultura portuguesa transforma em mito mas onde, tão terra, tão mar, não há nada nele que não esteja ao nosso alcance tocar. Agora, num livro/rio por cujas margens voltamos tantas vezes a passear.
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Mais Pesado do que o Céu
Há vidas que por si só são letras de músicas. Ou de livros. O movimento grunge, nascido em Seattle no final da década de 80, veio revolucionar a música, a moda e, enfim, a forma de estar na vida dos jovens ocidentais, profundamente angustiados com a falta de liberdade, desejosos de se livrarem das amarras da vida quotidiana. Profundamente sarcásticos, os jovens grunge eram também vistos como alienados sociais, num constante isolamento, lidando com o trauma e com a frustração através de um estilo de vida que os remetia para a solidão, contrastando com a feérica geração de jovens dos anos oitenta. Kurt Cobain foi, sem dúvida, a figura de proa deste estilo musical, que veio dar voz à ansiedade de uma geração em dúvida. A sua própria vida e a forma como terminou, é o retrato mais fiel de uma mente obsessiva e preocupada com temas como a fama, a exploração e a perda da genuinidade das sensações. Nesta biografia «definitiva», o jornalista Charles R. Cross faz um notável trabalho de investigação sobre a vida daquele que é considerado como sendo um dos últimos grandes mitos do mundo da música.
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