Venha conhecer a Noruega

Por Ana Bárbara Pedrosa
1 de setembro de 2022
Nas férias, uns andam com livros leves, outros aproveitam o tempo para irem aos mais pesados. Não digo que estes sejam bons para levar para as férias, digo que pelo menos dão vontade de as tirar.

 
A morte do pai
Começamos logo em grande, e grande quer dizer que tem tamanho. A morte do pai é o primeiro volume de uma série de seis. Aqui, Knausgård expõe tudo o que há para expor. A longa série é a tentativa mais coesa e ambiciosa de esmiuçar a própria vida numa estratégia que ficou conhecida como auto-ficção. Knausgård é tão intenso e detalhado que não há como o leitor se desligar da cabeça que está a seguir. Aliás, por vezes, parece que é o desinteresse que atrai, o pequeno tédio quotidiano, a chatice com a vida, o fingimento diário para se viver em comunidade. E, ao mesmo tempo, há incursões não necessariamente no passado, mas na memória, e é aqui que a memória aparece também na forma auto-ficcional. O autor norueguês pareceu esquecer-se do pudor ao escrever esta obra e, mais do que dar a imagem da vida de um homem na Noruega, dá apenas a imagem de um homem. No primeiro volume, o leitor é apanhado sem grande hipótese, embora seja preciso ter um palato preparado para digerir o que aí vem. Na memória sobre o pai, há violência e pouco encantamento. Tudo é intenso, duro, desconfortável. Da parte do leitor, também a violência encanta, no sentido em que, depois de a ver, é difícil olhar para o lado.
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Trilogia
Jon Fosse é um dos mais importantes autores da Noruega atual. Basta ver a crítica maluca com ele para já ir de pé à frente. Enquanto Knausgård nos dá um norueguês particular por dentro, ramificando-o para fora nas suas relações familiares e sociais, aqui temos as personagens contra o gelo escandinavo. Logo de início, ali estão Asle e Alida, exaustos, no frio e na escuridão. Na Noruega, o frio é gelo, o escuro é preto. Grávida, Alida precisa de uma porta que se abra, de um calor que a acolha, mas pelas ruas de Bjørgvin ninguém liga nenhuma. A cidade é hostil, a condição precária, tudo sabe a desespero. Antes desta cena, temos o passado que forma as personagens. O livro, que se compõe por três novelas, tem incisão sem pretensões, e os três textos fundem-se num todo orgânico. O que parece nunca escapar é a vontade que Fosse tem de esventrar a vida toda.
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Herança
Depois de Knausgård, mais um para tentarmos perceber até onde vai a realidade. Como acontecera com o que fizera Karl Ove, também este romance trouxe controvérsia. Aqui, temos um conflito familiar no epicentro, e eis um testamento a irritar os filhos. Os pais ainda estão vivos e decidiram deixar o património às filhas. O romance espoletou um debate sobre a legitimidade e a moralidade de se levar ao terreno da ficção elementos de verdade confessada sem a autorização dos visados. Bem construído, encara segredos, desfia-os, abre-os ao mundo. O território da família, que nunca deixou de encantar escritores, encontra aqui mais uma face.
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O código Katharina
Mais do que funcional, Horst é divertido. Diverte olhar para um esquema, tentar perceber as pistas, perceber de onde veio o que está mesmo à frente. O autor, um dos mais proeminentes de policiais da Noruega, criou personagens que conquistaram fãs, em especial William Wisting, o inspector-chefe da polícia de Larvik. Aqui o temos, 24 anos depois de um crime, obcecado com o desaparecimento de Katharina Haugen. Para trás, esta deixara o marido mas também um conjunto de elementos que poderiam ter sido pistas ou provas ou explicações, mas que nunca chegaram a ser nada. Eram números, linhas e uma cruz desenhada, mas nunca ninguém conseguiu tirar daí sentido. Com décadas de permeio, Wisting continua apostado em tentar montar o puzzle. Horst é bom manipulador, e o leitor vai tendo pistas aqui e ali, com tudo sempre de forma bem doseada para garantir que fica a ler até ao fim, seja em tensão permanente ou apenas em confusão.
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Fome
Ter fome neste frio aperta mais o estômago. Um jovem escritor deambula por Kristiania. À sua volta, há uma carência de graus Celsius. Ao seu lado, ninguém, embora nunca esteja sozinho porque a fome o acompanha. O romance, que pega nos delírios solitários de quem não enche o estômago, mostra de que forma a privação dá cabo da cabeça. O sofrimento físico está agarrado às páginas, e com ele está a destruição psicológica, a incapacidade de se ir além do que está em falta. Importantíssimo na história da literatura moderna, o romance Fome viria a influenciar Kafka, Camus, Fante. Já Dostoievski havia pegado na desumanização que o não-cumprimento das necessidades humanas cria, e Hamsun foi na mesma linha. No fim, temos o humano desfeito pela mera falta de pão.
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