Entrevista a Vigdis Hjorth

17 de janeiro de 2020
Agora que o ano se aproxima do fim, já podemos dizê-lo com propriedade: Herança é um dos melhores romances de 2021.
Primeiro livro da escritora norueguesa Vigdis Hjorth publicado em Portugal, é uma história sublime e inquietante sobre famílias, sobre a forma como a infância nos marca e sobre o facto de cada um de nós ter a sua própria versão do que aconteceu.
Construído de forma magnífica, Herança não é um romance fácil, confrontando-nos com verdades dilacerantes, como tantas vezes fazem os livros destinados a tornar-se grandes clássicos, mas sempre de forma bela e subtil.
Leia a entrevista com a autora para saber mais.


Vigdis Hjorth
Vigdis Hjorth, autora bestseller na Noruega, publica o seu primeiro romance em Portugal, Herança


Herança é o primeiro romance que publica em Portugal, mas na Noruega já editou mais de uma dezena de livros. Quando é que começou a escrever e porquê?
Quando tinha dez anos, apaixonei-me perdidamente por um rapaz da minha idade e durante algum tempo estivemos juntos. Mas depois, subitamente, ele deixou de querer ser meu namorado. Fiquei tão infeliz! O meu primeiro livro é acerca da tristeza que senti nessa altura. Escrevi-o aos vinte e dois anos e é uma história para crianças.



Em Herança, tudo começa quando os pais da personagem principal, Bergljot, decidem fazer partilhas ainda em vida e dividem a herança de forma desigual entre os seus quatro filhos. Mas, à medida que a história se desenrola, percebemos que o problema é bem mais fundo: na verdade, Herança é um romance sobre famílias disfuncionais e a forma como a nossa memória preserva versões diferentes dos acontecimentos. Nunca seremos recompensados pelas experiências negativas que tivemos na infância e não nos resta nada senão aceitar os nossos pais tal como são?
Sim e não! Somos tão dependentes dos nossos pais e da nossa família quando somos pequenos… É difícil mudarmos a forma como olhamos para as nossas experiências de infância, para os nossos pais e para a nossa família.
Muitas vezes mentimos a nós próprios acerca da nossa infância. Inventamos uma história que se adapte às necessidades da vida que temos enquanto adultos. Mas é possível mudarmos a relação que temos com os nossos pais. É difícil, mas possível!



O romance é sobre o trauma que Bergljot sofre na infância, mas é também sobre o facto de a sua própria família não acreditar nela. Isso é tão prejudicial para as vítimas como o trauma em si mesmo?
Sem dúvida! O facto de a família não acreditar nela é absolutamente terrível. É como uma traição dos que lhe são mais próximos. Depois disso, Bergljot fica completamente sozinha, isolada.



Ao longo do livro, a repetição é usada na forma caraterística de quem está a processar um trauma. Por vezes, a própria Bergljot recorda o que aconteceu de forma difusa: em alguns momentos diz-nos que já se passaram vinte anos desde que cortou relações com a família; noutros, passaram quinze e ela ainda interage com eles esporadicamente. Em vez de tentar mascarar esses «buracos» do seu testemunho, Bergljot permite que eles existam, como caraterísticas naturais da sua turbulenta paisagem emocional. Isso fez-nos pensar em O Amante, de Marguerite Duras. Esta autora é uma referência para si?
Não pensei em Duras enquanto escrevia este livro, mas admiro muito o seu trabalho. Tem uma voz literária muito particular e poderosa. Mas a forma como estrutura os seus romances é muito diferente da minha.



A Herança força-nos a olhar para feridas abertas, mas de uma forma extremamente sutil, que requer grande mestria narrativa, onde o que é sugerido é muito mais poderoso do que o que é dito. Há um ditado sueco segundo o qual as coisas mais importantes são deixadas nas entrelinhas. Concorda com isso ou essa estratégia foi usada para mostrar o quão difícil é para a vítima enfrentar o trauma e colocá-lo em palavras?
As duas coisas. Concordo com o ditado sueco. Mas, ainda assim, é muito difícil para a vítima enfrentar o trauma verbalizando-o. A cura começa quando finalmente começamos a conseguir pôr em palavras o que vivemos. Mas teria sido fundamental para Bergljot que família a tivesse ouvido. Em vez disso, fazem-se de surdos ou abandonam a sala. É-lhe negado o direito de tentar articular a sua experiência em palavras. De certa, todo o romance é sobre a dinâmica entre o que é dito e o que não é.



Herança
Herança é o primeiro livro da autora publicado em Portugal.
Uma vez que este é também um livro acerca da infância e da memória, qual foi o primeiro livro de que se lembra de ter gostado muito em criança?
Foi o livro autobiográfico Barndom (Childhood), da escritora dinamarquesa Tove Ditlevsen (1917-1976). É sobre o facto de ela crescer numa família pobre em Copenhaga, no período entre as duas Grandes Guerras. É um romance tremendo, muito comovente, interessante e divertido.
Li todos os seus livros e admiro-a muito também enquanto figura pública. Era uma lutadora, muito divertida e imprevisível.


Qual foi o melhor conselho que lhe deram relativamente à escrita?
Confia na tua experiência.


E qual é o cenário ideal para escrever?
Sozinha numa casa junto à praia. Com o meu cão E vinho E as obras de Søren Kierkegaard. Mais nada!




Qual é o seu hobby mais surpreendente?
Gosto de bordar.


E qual foi o último livro que leu e de que gostou mesmo muito?
The Moment, de Søren Kierkegaard.

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