Saramago numa tarde
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@literacidades
17 de janeiro de 2020
José Saramago deixou uma obra singular. Mas sabemos como a vida é corrida e às vezes o tempo para mergulhar de cabeça no nosso Nobel escasseia. Por isso, sugerimos três livros curtos e perfeitos para conhecer o autor em três áreas diferentes: narrativa, teatro e memórias. Não se deixe levar pelo tamanho: os temas e a escrita de Saramago estão aqui em pleno.
A NOITE
Como seria estar na redação de um jornal na noite de 24 para 25 de abril de 1974? O que parecia ser uma noite como as outras, vivida na tranquilidade bafienta de um regime em putrefação, transforma-se num agitar de águas que desemboca na liberdade. Só que, por enquanto, ainda ninguém sabe disso.
A Noite é uma peça de teatro onde o autor retrata factos históricos, mas em que há também outra dimensão de fidelidade à realidade, que é a da tensão existente entre as diversas personagens. A oposição intelectual ao regime (será Torres o próprio Saramago?); os trabalhadores da tipografia, força da revolução; os outros jornalistas e secretárias - um conjunto quase indiferenciado de pessoas que obedecem sem a questionar; e, por fim, a chefia, no topo da hierarquia, atónita perante a hipótese de perder o estatuto.
Os momentos de tensão e o escalar da perceção da realidade surgem em crescendo: entendemos como a dinâmica entre as relações naquele jornal se altera, partindo de uma total negação até ao medo, por parte da direção, que contrasta com a certeza que têm os opositores ao regime de que aquele era o dia em que iria brotar a liberdade.
Um dos temas caros a Saramago – a expressão da luta contra a opressão – a florescer livre nesta peça de teatro.
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A Noite é uma peça de teatro onde o autor retrata factos históricos, mas em que há também outra dimensão de fidelidade à realidade, que é a da tensão existente entre as diversas personagens. A oposição intelectual ao regime (será Torres o próprio Saramago?); os trabalhadores da tipografia, força da revolução; os outros jornalistas e secretárias - um conjunto quase indiferenciado de pessoas que obedecem sem a questionar; e, por fim, a chefia, no topo da hierarquia, atónita perante a hipótese de perder o estatuto.
Os momentos de tensão e o escalar da perceção da realidade surgem em crescendo: entendemos como a dinâmica entre as relações naquele jornal se altera, partindo de uma total negação até ao medo, por parte da direção, que contrasta com a certeza que têm os opositores ao regime de que aquele era o dia em que iria brotar a liberdade.
Um dos temas caros a Saramago – a expressão da luta contra a opressão – a florescer livre nesta peça de teatro.
CAIM
Em Caim, Saramago escreve, de forma sagaz e irónica, sobre algumas das mais conhecidas personagens bíblicas. Acompanhamos principalmente a vida de Caim, um protagonista que nos faz questionar o caráter do Senhor. Antes disso, porém, são-nos apresentados Adão e Eva. E é a partir da criação do casal que a ação se desenrola.
O foco da maioria dos capítulos recai sobre as personagens que rodeiam Caim. O protagonista é usado sobretudo como a entidade que põe em causa as atitudes de Deus, ao contrário dos outros, que seguem à risca as ordens Dele.
É durante esses pensamentos e reflexões que o narrador nos fala do caráter de Deus. Saramago transforma-o numa espécie de criança amuada que só faz o que quer porque assim o deseja e, quando reconhece que faz asneira, esconde-se. É Saramago e a crítica à Igreja no seu máximo esplendor.
Trata-se de um livro curto, mas que que demonstra de forma exemplar alguns dos principais vetores da obra do Prémio Nobel português: aliado a um brilhante sentido de humor, encontramos o sentido crítico, provocador, que leva o leitor a humanizar figuras, neste caso bíblicas, passando a conviver com elas como se fossem seus conhecidos.
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O foco da maioria dos capítulos recai sobre as personagens que rodeiam Caim. O protagonista é usado sobretudo como a entidade que põe em causa as atitudes de Deus, ao contrário dos outros, que seguem à risca as ordens Dele.
É durante esses pensamentos e reflexões que o narrador nos fala do caráter de Deus. Saramago transforma-o numa espécie de criança amuada que só faz o que quer porque assim o deseja e, quando reconhece que faz asneira, esconde-se. É Saramago e a crítica à Igreja no seu máximo esplendor.
Trata-se de um livro curto, mas que que demonstra de forma exemplar alguns dos principais vetores da obra do Prémio Nobel português: aliado a um brilhante sentido de humor, encontramos o sentido crítico, provocador, que leva o leitor a humanizar figuras, neste caso bíblicas, passando a conviver com elas como se fossem seus conhecidos.
AS PEQUENAS MEMÓRIAS
Quatro anos antes da sua morte, José Saramago publicou As Pequenas Memórias. É um mergulhar na sua infância e adolescência, entre os quatro e os quinze anos. O autor descreve-nos as suas férias em Azinhaga, os avós maternos com carinho e cheios de afeto pelos animais, as brincadeiras um tanto ou quanto atrevidas com as meninas, quando ainda jovem, a sua ascendência árabe, as amizades e rivalidades nas escolas...
Da mesma forma que Saramago saltou de casa em casa em Lisboa, o leitor vivencia pequenas memórias dispersas carregadas de ternura e saudade. O autor também nos elucida sobre possíveis origens e inspirações para os seus livros, como o Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes e Evangelho Segundo Jesus Cristo. Aceder a estas informações, depois de ter lido estes livros, torna-os ainda mais especiais porque partiram da memória não só visual, mas também olfativa, e da busca incessante por respostas.
Atrevemo-nos a dizer que a curiosidade, essa curiosidade pela vida e por aquilo de que é feita a Humanidade, foi o que tornou José de Sousa Saramago numa das maiores referências da lusofonia. E, neste livro, vemo-lo a crescer e acompanhamos o brotar do génio.
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Da mesma forma que Saramago saltou de casa em casa em Lisboa, o leitor vivencia pequenas memórias dispersas carregadas de ternura e saudade. O autor também nos elucida sobre possíveis origens e inspirações para os seus livros, como o Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes e Evangelho Segundo Jesus Cristo. Aceder a estas informações, depois de ter lido estes livros, torna-os ainda mais especiais porque partiram da memória não só visual, mas também olfativa, e da busca incessante por respostas.
Atrevemo-nos a dizer que a curiosidade, essa curiosidade pela vida e por aquilo de que é feita a Humanidade, foi o que tornou José de Sousa Saramago numa das maiores referências da lusofonia. E, neste livro, vemo-lo a crescer e acompanhamos o brotar do génio.