Livros sobre livros

Por Ana Bárbara Pedrosa
13 de abril de 2023
Há tanta coisa dentro dos livros que até os livros lá cabem. Aliás, só uma coisa tão ampla como os livros poderia fazer com que os livros coubessem lá. Eis alguns exemplos de papel que dá a conhecer papel.

 
Viagem ao país do futuro
Sou fã número 1, e número 2 também. Partindo da literatura, Isabel Lucas quis dar-nos o Brasil. Ei-lo então chapado neste livro, que mostra não só as grandes obras, mas também o país. Ao ler, tudo é surpresa, cada parágrafo tem toque de viagem. O conforto com que a autora maneja a língua agarra o leitor, os horizontes que abre impedem-no de querer sair dali. Num volume ímpar na produção portuguesa, a autora mostra as construções literárias como forma de dar sentido. A prosa é fluída, e também o conteúdo flui. O leitor, sem outro remédio, escorrega por ali com ele. Sem nunca dar lições, mostra-se a literatura como coisa viva que não respira às margens da vida, antes dentro dela. Por estar tão longe de querer ser um manual sobre literatura brasileira, Viagem ao País do Futuro transforma-se no melhor dos manuais. Em todo o lado, há o que interessa: a dúvida. E, no meio das dúvidas, Isabel Lucas vai tocando aqui e ali, como quem não escrutina conscientemente, mas mostra as entranhas sem querer.
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Nadar num lago à chuva
Aqui ninguém vai ao engano. George Saunders passou vinte anos a dar aulas sobre contistas russos aos seus alunos, na Universidade de Syracuse. A literatura russa encanta metade do mundo, assusta a outra. Aqui, temo-la dissecada em ensaios clarividentes, íntegros, que vão diretos ao osso e mostram a vida como coisa que pulsa dentro da literatura. Os contos de Tchékhov, Turguénev, Tolstóie Gogol, os autores aqui visados, aparecem como a manipulação que são, o que significa que o autor, mais do que fazer análises de arcos narrativos, desmonta a ficção, escrutina-a, mostrando como funciona. De interesse para apaixonados pela literatura em geral e pela escrita em particular, o livro também põe no seu cerne a relação de prazer que o percurso escrita-leitura permite e potencia.
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Dicionário de lugares imaginários
Quem lê bem sabe que serem inventados não os torna menos reais. Que o digam todos os nascidos na década de 90, que o diga a crucial espera pela coruja que traria a carta com um convite para Hogwarts. Dicionário, compêndio, mapa, qualquer coisa. Seja qual for o nome que lhe é dado, o denominador comum do livro é o da ideia de viagem: são mais de mil páginas num belo rácio, uma vez que há mais de 1200 lugares. É uma maravilha, até porque de repente o leitor está no País das Maravilhas com um coelho antropomórfico ou em Atlântida a ouvir sussurros de Platão ou em Oz a curtir um espantalho ou em Nárnia a entrar para um armário. O livro abre portas para dois lugares em simultâneo: a literatura e a vida. Depois de as abrir, o leitor lá entende que anda às voltas, que um e outro são a mesma coisa.
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Pessoa, uma biografia
Foi finalista do prémio Pulitzer na categoria Biografia em 2022, o que em geral já costuma dizer alguma coisa. Eis 1184 páginas sobre a vida de um homem que nos deu tantos livros, e ainda de um homem que nos deu tantos homens como agentes. O leitor incauto talvez não se apercebesse de que eram todos o mesmo, até porque foram feitos para serem gente diferente. Aqui, o biógrafo de Pessoa tenta mostrar quem é o homem atrás da capa do mito, lançando-se a uma das mais complexas obras literárias que temos em discussão na coetaneidade. E, mesmo assim, mesmo com as palavras de Reis, Campos e Caeiro na memória, pouco tem o leitor comum a dizer sobre a figura de Pessoa, para além da sua produção literária – o que, convenhamos, já não será coisa pouca. Eis um estudo longo e coeso sobre uma figura que é um monumento, o maior desde que João Gaspar Simões publicou a sua biografia, corria 1950, quando Pessoa ainda não tinha a dimensão de mito.
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