Como os livros me ensinaram a dizer adeus

Dizem que todas as respostas estão nos livros. Esta semana fiz uma pequena pesquisa pela minha estante e tentei montar um esquema que, talvez, nos possa ajudar a dizer "adeus com jeito".
Como os livros me ensinaram a dizer adeus
Conheço uma menina de quatro anos que não gosta de despedidas e conta já no currículo com uma série de estratégias bem estruturadas para evitar essas situações: ora esconde os sapatos da pessoa que não quer ver partir – porque lhe disseram que se andar sem sapatos fica doente e ela assume que ninguém quer ficar doente; ora esconde as chaves de casa, porque é a última coisa que vê os adultos colocarem no saco quando saem porta fora.
Acredito que é aceitável, aos quatro anos, esta incapacidade emocional para dizer essa palavra de cinco letras. Mas, à medida que vamos crescendo, percebemos que o olá é o melhor amigo do adeus, que a despedida é o braço direito do encontro, e que o fim e o era uma vez são peças indissociáveis na história de vida de uma pessoa, de uma personagem ou até de uma menina de quatro anos que não gosta de despedidas.
Agora: como é que eu a ensino a dizer adeus? Como é que eu lhe explico que, à semelhança do que escreveu a poetisa Filipa Leal, é preciso “ser digna na partida, na despedida”, é preciso dizer “adeus com jeito”?
Como dizem que todas as respostas estão nos livros, esta semana fiz uma pequena pesquisa pela minha estante e tentei montar um esquema que, talvez, a possa ajudar a ela – e, se for o caso, a si também. Vamos lá?
 
Dica #1: “As despedidas curtas são as melhores!”
Pessoalmente não vejo sentido em prolongar situações que nos causam dor, por isso esta primeira dica parece-me ótima para o arranque. Já não me lembro onde a li, mas tenho-a como uma pérola de sabedoria digna de um grande escritor.
 
Dica #2: “Nunca contes nada a ninguém.”
“Nunca contes nada a ninguém. Se o fizeres, vais começar a sentir falta de toda a gente." Encontrei esta dica no livro de J.D. Salinger, À Espera no Centeio.
Considero este conselho um pouco mais complexo do que o anterior, pois não leva só em conta o momento do adeus, mas o sentimento que predomina na pós-despedida. Sabe a que me refiro, certo? Aquela sensação de que algo profundamente nosso nos foi amputado e seguiu viagem no corpo de outra pessoa que não somos nós.
Ela só tem quatro anos, por isso vou deixar esta dica para quando ela for estudar para fora. Até porque eu quero que ela me conte sempre tudo.

Dica #3: “Amanhã é outro dia!”
Sim, mas e se for um dia mais cinzento e triste, oh Margaret Mitchell, autora da frase (e do livro onde encontrei a frase: E tudo o vento levou)?
Na rádio está a tocar The star-crossed lovers, de Duke Ellington, que me transporta quase instintivamente para o universo literário de Haruki Murakami, esse grande nome da literatura universal, que antes de escrever tinha um bar de jazz e, agora que escreve, preenche os seus romances com as melodias e harmonias dos seus músicos de jazz preferidos. Temos todos muito a aprender com as personagens de Murakami que sabem dizer adeus daquele jeito estoico que carateriza os japoneses.
De Murakami a Banana Yoshimoto vai um passo. Estico o braço, procuro a capa cor de rosa na estante de madeira, abro o livro Kitchen (edição inglesa) na última página, e leio:
  • Hitoshi:
  • I'll never be able to be here again. As the minutes slide by, I move on. The flow of time is something I cannot stop. I haven't a choice. I go.
  • One caravan has stopped, another starts up. There are people I've yet to meet, others I'll never see again. People who are gone before you know it, people who are just passing through. Even as we exchange hellos, they seem to grow transparent. I must keep living with the flowing river before my eyes.
  • I earnestly pray that a trace of my girl-child self will always be with you.
  • For waving good-bye, I thank you.
 
Não sei bem por que motivo, mas sempre me comoveu até às lágrimas a parte em que ela diz: “rezo para que um vestígio da criança que há em mim fique contigo para sempre”.
Mas afinal “amanhã é outro dia” e há que terminar de escrever a próxima dica antes disso.
 
Dica #4: “Nem todas as lágrimas são más.”
E, por falar em lágrimas, esta dica é das minhas preferidas e devo-a a Gandalf, o feiticeiro branco de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien: “Não vos direi que não chorem, pois nem todas as lágrimas são más.” Apesar da conotação negativa que, socialmente, é conferida às palavras “chorão” e “choramingas”, aprendi com o Tolkien, com o Samwise Gamgee e com o Frodo Baggins que não vale a pena prestar muita atenção a isso, porque o Gandalf, o Branco, é que tem razão!
 
Dica #5: Usar quando todas as outras falharem!
Se as dicas anteriores falharem, lembre-se que a culpa não é sua - só ainda não foi inventada uma fórmula suficientemente boa para dizer adeus a essa pessoa, explica Raymond Chandler no romance que publicou em 1953, O Imenso Adeus . Chegados aqui, a única alternativa é, parece-me, fingir que somos valentes como o Harry Potter e aprender a lidar com o facto de existir uma cicatriz em nós que, de tempos a tempos, vai dando sinais de si e doendo um bocadinho mais.
Esta semana tenho de dizer adeus a uma amiga e sinto-me tão tentada a usar truques fáceis como se fosse eu a menina de quatro anos. É uma pena que os adultos não possam roubar os sapatos uns dos outros; e que tenham de aprender a dizer “adeus com jeito”. 
Por isso, um último pedido, se não se importa: a próxima vez que vir alguém na rua, lembre-se que houve uma menina de quatro anos que lhe tentou roubar os sapatos, que houve um adulto que não lhe soube dizer adeus com jeito e seja simpático e diga-lhe olá por mim. Como na canção.
If You See Her, Say Hello | Jeff Buckley


Tânia Azevedo, gestora de conteúdos culturais

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