Entrevista a Johanna Mo
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17 de janeiro de 2020
Já alguma vez se perguntou o que levará os autores a escrever policiais? E porque será que nós, leitores, sentimos tanto fascínio por esse género? Johanna Mo, autora best-seller sueca que publicou este ano o seu primeiro livro entre nós, O Pássaro Noturno, tem uma resposta no mínimo interessante para esta pergunta. Leia a nossa entrevista com ela e descubra qual.
Johanna Mo. Foto de Eckerblad
O Pássaro Noturno é a sua estreia em Portugal, mas, antes deste livro, já tinha publicado na Suécia cinco policiais e dois livros de ficção literária. Além disso, nos últimos vinte anos, tem trabalhado como crítica literária, tradutora e editora. Quando é que começou a escrever?
Era ainda muito jovem, quando comecei a escrever, tinha mais ou menos dez anos. Desde essa altura que quero ser escritora.
E quando é que publicou o seu primeiro livro?
Em 2007, tinha eu trinta anos. Se levarmos em conta que comecei a escrever aos dez, precisei de muito tempo para conseguir publicar alguma coisa! [Risos]
Na badana de O Pássaro Noturno, há um texto seu muito interessante acerca do que a levou a escrever policiais. Pode partilhar essa história connosco? O que a levou a querer escrever este tipo de livros?
Diria que essa é uma resposta com duas partes. Por um lado, sempre li muitos policiais, desde pequena. Lia muito Agatha Christie e Stephen King, e gosto muito do género, esse tipo de histórias sempre me atraiu.
A outra parte da resposta tem a ver com algo que aconteceu quando eu tinha quinze anos. Em 1991, houve um homicídio em Kalmar, uma pequena cidade do Sul da Suécia, justamente na comunidade onde cresci e vivia na época. Um taxista foi raptado e assassinado, e isso, para nós, foi como uma bomba! Depois, três rapazes locais, de cerca de vinte anos e sem qualquer antecedente, foram presos por envolvimento no crime. Mais tarde descobriu-se que tinham sido pagos pela mulher do taxista para matá-lo. E um desses rapazes, a quem a comunicação social chamava o «cérebro» do crime, era o namorado da minha irmã. Mantiveram uma relação durante bastante tempo, as nossas famílias eram amigas e convivíamos muito. Foi um choque tremendo! Para a família dele, claro, mas também para a minha. Fez-me perceber que praticamente qualquer pessoa pode tornar-se num assassino, sem que ninguém saiba como nem porquê.
Isso fez com que desenvolvesse ainda mais interesse por escrever policiais. Quero escrever sobre como esses crimes afetam profundamente todos os envolvidos: a vítima, a família da vítima, o criminoso, a família do criminoso, os agentes responsáveis pela investigação, etc.
Isso está presente também em O Pássaro Noturno, porque as relações familiares e próximas são importantes para o enredo. O chefe de Hanna, a detetive que investiga o crime, foi responsável pela prisão do pai dela, dezasseis anos antes; e Joel, o rapaz assassinado, é filho de uma amiga de infância de Hannah. Acha que as relações familiares ou muito próximas tendem a ser problemáticas e são um bom contexto para questões de vida ou morte?
Sim, acho que é exatamente isso. Tento tornar as coisas o mais complicadas possível para as minhas personagens. O pai da Hannah foi preso por homicídio e por isso ela mudou-se, saiu da cidade. Mas regressa dezasseis anos depois, porque sente a falta da ilha onde cresceu e é atraída para esta investigação. O filho da sua amiga de infância aparece morto e o chefe dela é o homem que prendeu o seu pai, por isso Hannah está numa posição difícil. É sobre isso que gosto de escrever, gosto de aprofundar emoções e situações complicadas.
O Pássaro Noturno é o primeiro livro de uma série ambientada na ilha de Öland, intitulada Os Crimes de Öland, precisamente. Por que é que escolheu Öland como cenário?
Os meus livros anteriores passavam-se em Estocolmo, mas neste caso isso não faria sentido. A história tinha de passar-se numa comunidade pequena, onde toda a gente conhece e sabe tudo sobre toda a gente. Isso faz parte da bagagem de Hannah. Em Öland, todos sabem quem ela é e quem é o seu pai. O nome de família dela, Duncker, não é muito comum na Suécia, por isso todos sabem que ela é filha de um assassino.
Os protagonistas do livro são uma dupla irresistível de detetives muito diferentes entre si: Hanna Duncker e Erik Lindgren. Hannah luta contra os demónios do seu passado, enquanto Eric tem uma família e uma vida bastante estável. Acha que as pessoas com histórias de vida complexas são mais interessantes ou dão melhores detetives?
Não sei se serão melhores detetives, mas, no caso de Hannah, o facto de ter passado por algo similar, por causa do pai, ajuda, faz com que conheça o outro lado, torna-a uma boa detetive.
Mas, acima de tudo, como disse antes, acho que é mais interessante escrever acerca de personagens assim, perturbadas. Foi bastante mais difícil para mim escrever sobre Eric porque ele é feliz, digamos, tem uma família, etc.
Também decidi juntá-los precisamente por isso, porque são muito diferentes. É interessante pô-los a trabalhar juntos, ver como interagem.
Como é que planeia os seus policiais? Já sabe desde o início quem será o assassino?
Normalmente, sim, mas na sequela de O Pássaro Noturno, que acaba de ser publicada na Suécia, mudei o assassino três vezes! [Risos] Nem sempre me restrinjo ao plano inicial, mas ainda assim gosto de começar com um plano. Antes de deitar mãos ao trabalho decido que personagens farão parte da história, quem são, o que vai acontecer e quem é o assassino.
Preciso de ter um plano como ponto de partida para poder escrever, mas depois acabo sempre por ter ideias muito melhores ao longo do processo de escrita.
Atualmente vive em Estocolmo. Viajou até Öland para escrever O Pássaro Noturno?
Tenho família e amigos em Öland, mas já não vivo lá há mais de vinte anos, por isso tive mesmo de regressar, para preparar este livro. Precisava de sentir como é a cidade agora e também queria pesquisar locais, como o sítio onde o corpo da vítima, Joel, é encontrado.
E relativamente aos detalhes do crime, falou com a polícia ou fez pesquisa?
Fiz pesquisa e falei com dois detetives da Polícia de Kalmar. Fizeram-me uma visita guiada à esquadra onde Hannah trabalha e acompanharam-me durante todo o processo de escrita. Fui-lhes fazendo perguntas e um deles leu o manuscrito e fez algumas correções, a um nível mais técnico.
Já alguma vez ficou assustada com as coisas que escreve?
Não, não me assusto facilmente! [Risos]
É terrível ver filmes de terror comigo, precisamente porque nada me assusta. Sei que nada daquilo é real, e o mesmo acontece com os livros, incluindo os de outros autores. Por mais assustadora que seja a história, nunca sinto medo.
Existe a ideia de que os países escandinavos em geral são sociedades muito pacíficas, onde há poucos crimes, mas nas últimas décadas assistimos a um verdadeiro boom do policial nórdico. Por que é que será que nestes países, que parecem tão tranquilos à superfície, como a Suécia, se escrevem policiais tão bons?
Hum… acho que não tenho uma reposta para isso… É claro que também há crimes na Suécia, mas não tantos como nos nossos policiais! [Risos] Mas a ficção e a realidade são coisas diferentes. Tento ser o mais fiel à realidade possível, mas sobretudo no que diz respeito ao contexto e às personagens.
Por outro lado, a minha própria experiência familiar, de que já falámos, ensinou-me que os crimes acontecem. Talvez a nossa necessidade nórdica de escrever sobre isso tenha também a ver com o facto de não haver muita criminalidade. Não há muitos homicídios, por isso, sempre que sucede algo do género, assume grandes proporções.
Além disso, os policiais são o género ideal para escrever acerca de temas difíceis, como morte, castigo, pessoas com um passado problemático, e é acerca disso que gosto de escrever.
Qual foi o último livro que leu e de que gostou muito?
Um livro do escritor sueco Christoffer Carlsson que ainda não está traduzido. O título em inglês seria algo como Burn Me a Sun.
É um policial, mas com um ritmo mais lento. É muito centrado nas personagens, também se passa numa cidade pequena e a história é ambientada em 1986, na altura em que o nosso primeiro-ministro Olof Palme foi assassinado. É um livro muito bom e vai ser traduzido para inglês em breve.
Também gosta de filmes e séries policiais?
Sim, vejo imensas séries policiais! A última de que gostei muito foi O Cardinal. Vivi durante um ano no Canadá e essa série, não sei se da HBO ou da Netflix, é canadiana. É acerca de um crime numa pequena comunidade do norte do país. Ultimamente interessam-me mais policiais desse género, ambientados em cidades pequenas.
Era ainda muito jovem, quando comecei a escrever, tinha mais ou menos dez anos. Desde essa altura que quero ser escritora.
E quando é que publicou o seu primeiro livro?
Em 2007, tinha eu trinta anos. Se levarmos em conta que comecei a escrever aos dez, precisei de muito tempo para conseguir publicar alguma coisa! [Risos]
Na badana de O Pássaro Noturno, há um texto seu muito interessante acerca do que a levou a escrever policiais. Pode partilhar essa história connosco? O que a levou a querer escrever este tipo de livros?
Diria que essa é uma resposta com duas partes. Por um lado, sempre li muitos policiais, desde pequena. Lia muito Agatha Christie e Stephen King, e gosto muito do género, esse tipo de histórias sempre me atraiu.
A outra parte da resposta tem a ver com algo que aconteceu quando eu tinha quinze anos. Em 1991, houve um homicídio em Kalmar, uma pequena cidade do Sul da Suécia, justamente na comunidade onde cresci e vivia na época. Um taxista foi raptado e assassinado, e isso, para nós, foi como uma bomba! Depois, três rapazes locais, de cerca de vinte anos e sem qualquer antecedente, foram presos por envolvimento no crime. Mais tarde descobriu-se que tinham sido pagos pela mulher do taxista para matá-lo. E um desses rapazes, a quem a comunicação social chamava o «cérebro» do crime, era o namorado da minha irmã. Mantiveram uma relação durante bastante tempo, as nossas famílias eram amigas e convivíamos muito. Foi um choque tremendo! Para a família dele, claro, mas também para a minha. Fez-me perceber que praticamente qualquer pessoa pode tornar-se num assassino, sem que ninguém saiba como nem porquê.
Isso fez com que desenvolvesse ainda mais interesse por escrever policiais. Quero escrever sobre como esses crimes afetam profundamente todos os envolvidos: a vítima, a família da vítima, o criminoso, a família do criminoso, os agentes responsáveis pela investigação, etc.
O Pássaro Noturno é o primeiro policial da autora publicado em Portugal.
Isso está presente também em O Pássaro Noturno, porque as relações familiares e próximas são importantes para o enredo. O chefe de Hanna, a detetive que investiga o crime, foi responsável pela prisão do pai dela, dezasseis anos antes; e Joel, o rapaz assassinado, é filho de uma amiga de infância de Hannah. Acha que as relações familiares ou muito próximas tendem a ser problemáticas e são um bom contexto para questões de vida ou morte?
Sim, acho que é exatamente isso. Tento tornar as coisas o mais complicadas possível para as minhas personagens. O pai da Hannah foi preso por homicídio e por isso ela mudou-se, saiu da cidade. Mas regressa dezasseis anos depois, porque sente a falta da ilha onde cresceu e é atraída para esta investigação. O filho da sua amiga de infância aparece morto e o chefe dela é o homem que prendeu o seu pai, por isso Hannah está numa posição difícil. É sobre isso que gosto de escrever, gosto de aprofundar emoções e situações complicadas.
O Pássaro Noturno é o primeiro livro de uma série ambientada na ilha de Öland, intitulada Os Crimes de Öland, precisamente. Por que é que escolheu Öland como cenário?
Os meus livros anteriores passavam-se em Estocolmo, mas neste caso isso não faria sentido. A história tinha de passar-se numa comunidade pequena, onde toda a gente conhece e sabe tudo sobre toda a gente. Isso faz parte da bagagem de Hannah. Em Öland, todos sabem quem ela é e quem é o seu pai. O nome de família dela, Duncker, não é muito comum na Suécia, por isso todos sabem que ela é filha de um assassino.
Os protagonistas do livro são uma dupla irresistível de detetives muito diferentes entre si: Hanna Duncker e Erik Lindgren. Hannah luta contra os demónios do seu passado, enquanto Eric tem uma família e uma vida bastante estável. Acha que as pessoas com histórias de vida complexas são mais interessantes ou dão melhores detetives?
Não sei se serão melhores detetives, mas, no caso de Hannah, o facto de ter passado por algo similar, por causa do pai, ajuda, faz com que conheça o outro lado, torna-a uma boa detetive.
Mas, acima de tudo, como disse antes, acho que é mais interessante escrever acerca de personagens assim, perturbadas. Foi bastante mais difícil para mim escrever sobre Eric porque ele é feliz, digamos, tem uma família, etc.
Também decidi juntá-los precisamente por isso, porque são muito diferentes. É interessante pô-los a trabalhar juntos, ver como interagem.
Como é que planeia os seus policiais? Já sabe desde o início quem será o assassino?
Normalmente, sim, mas na sequela de O Pássaro Noturno, que acaba de ser publicada na Suécia, mudei o assassino três vezes! [Risos] Nem sempre me restrinjo ao plano inicial, mas ainda assim gosto de começar com um plano. Antes de deitar mãos ao trabalho decido que personagens farão parte da história, quem são, o que vai acontecer e quem é o assassino.
Preciso de ter um plano como ponto de partida para poder escrever, mas depois acabo sempre por ter ideias muito melhores ao longo do processo de escrita.
Atualmente vive em Estocolmo. Viajou até Öland para escrever O Pássaro Noturno?
Tenho família e amigos em Öland, mas já não vivo lá há mais de vinte anos, por isso tive mesmo de regressar, para preparar este livro. Precisava de sentir como é a cidade agora e também queria pesquisar locais, como o sítio onde o corpo da vítima, Joel, é encontrado.
E relativamente aos detalhes do crime, falou com a polícia ou fez pesquisa?
Fiz pesquisa e falei com dois detetives da Polícia de Kalmar. Fizeram-me uma visita guiada à esquadra onde Hannah trabalha e acompanharam-me durante todo o processo de escrita. Fui-lhes fazendo perguntas e um deles leu o manuscrito e fez algumas correções, a um nível mais técnico.
Já alguma vez ficou assustada com as coisas que escreve?
Não, não me assusto facilmente! [Risos]
É terrível ver filmes de terror comigo, precisamente porque nada me assusta. Sei que nada daquilo é real, e o mesmo acontece com os livros, incluindo os de outros autores. Por mais assustadora que seja a história, nunca sinto medo.
Existe a ideia de que os países escandinavos em geral são sociedades muito pacíficas, onde há poucos crimes, mas nas últimas décadas assistimos a um verdadeiro boom do policial nórdico. Por que é que será que nestes países, que parecem tão tranquilos à superfície, como a Suécia, se escrevem policiais tão bons?
Hum… acho que não tenho uma reposta para isso… É claro que também há crimes na Suécia, mas não tantos como nos nossos policiais! [Risos] Mas a ficção e a realidade são coisas diferentes. Tento ser o mais fiel à realidade possível, mas sobretudo no que diz respeito ao contexto e às personagens.
Por outro lado, a minha própria experiência familiar, de que já falámos, ensinou-me que os crimes acontecem. Talvez a nossa necessidade nórdica de escrever sobre isso tenha também a ver com o facto de não haver muita criminalidade. Não há muitos homicídios, por isso, sempre que sucede algo do género, assume grandes proporções.
Além disso, os policiais são o género ideal para escrever acerca de temas difíceis, como morte, castigo, pessoas com um passado problemático, e é acerca disso que gosto de escrever.
Qual foi o último livro que leu e de que gostou muito?
Um livro do escritor sueco Christoffer Carlsson que ainda não está traduzido. O título em inglês seria algo como Burn Me a Sun.
É um policial, mas com um ritmo mais lento. É muito centrado nas personagens, também se passa numa cidade pequena e a história é ambientada em 1986, na altura em que o nosso primeiro-ministro Olof Palme foi assassinado. É um livro muito bom e vai ser traduzido para inglês em breve.
Também gosta de filmes e séries policiais?
Sim, vejo imensas séries policiais! A última de que gostei muito foi O Cardinal. Vivi durante um ano no Canadá e essa série, não sei se da HBO ou da Netflix, é canadiana. É acerca de um crime numa pequena comunidade do norte do país. Ultimamente interessam-me mais policiais desse género, ambientados em cidades pequenas.