Entrevista a Orna Donath

Pela mão de Orna Donath, dá-se início à discussão pública sobre um tema quase inteiramente silenciado: mães que se arrependeram de ter filhos. «Mães Arrependidas», a obra de estreia internacional da escritora israelita, debruça-se, como se pode ler na sinopse, sobre "a vasta quantidade de mulheres que, depois de serem mães, não encontraram a profetizada "plenitude" na maternidade e, muito embora amem os seus filhos, desejariam não ser mães de ninguém". «Mães Arrependidas», um ensaio que a socióloga Orna Donath, da universidade Bem-Gurion, elaborou para uma publicação académica, é o livro que nos traz à conversa de hoje. Leia já a entrevista com a autora.
Como apresentaria o seu novo livro, Mães Arrependidas, a um leitor que nunca ouviu falar sobre o assunto?
As mulheres que decidem não ser mães são frequentemente alertadas para o facto de se irem arrepender no futuro, no entanto raramente se fala sobre a possibilidade de acontecer o reverso da moeda - uma mulher torna-se mãe e arrepende-se. Mães Arrependidas levanta o véu sobre este tema tabu e é fruto dos meus anos de pesquisa entrevistando mulheres que desejavam não ter abraçado a maternidade. É um livro que sugere que devemos colocar perguntas honestas e difíceis sobre como a sociedade empurra as mulheres para a maternidade e por que motivo aquelas que não escolhem essa opção são consideradas um perigo para o status quo. Acredito que este livro é necessário no atual clima político em que os direitos de reprodução das mulheres estão na ordem do dia.
Entrevista a Orna Donath
Orna Donath | Fotografia: Tami Aven
Publicou um estudo baseado nas entrevistas que fez a 23 mulheres israelitas que se arrependem de ter tido filhos. Acredita que este é um fenómeno global?
O estudo baseia-se em entrevistas a 23 mulheres israelitas que se arrependem da decisão de tornar-se mães. No entanto, desde que o estudo foi publicado em mais de dez países, tenho recebido imensas mensagens de mulheres de todos os cantos do planeta que partilham o mesmo arrependimento. Não interpreto a sua postura emocional como um fenómeno, mas como uma emoção humana que pode surgir na transição para a maternidade. Mulheres de diferentes culturas e grupos sociais podem perceber, em retrospetiva, que a maternidade não é para elas. Só porque a sociedade nos diz que se tivermos os mesmos órgãos biológicos partilhamos os mesmos sonhos, necessidades, habilidade e vontades, isso não significa que esta seja a experiência real das mulheres de carne e osso.

Algumas pessoas dizem que desembrulhou um tema tabu. Como surgiu a ideia para este livro?
No final do meu primeiro estudo (realizado entre 2003-2007, sobre mulheres e homens judeus israelitas que não querem ser pais), fiquei com uma frase na cabeça que não parava de me incomodar e que é dirigida sobretudo às mulheres: "vais arrepender-te. Vais arrepender-te de não ser mãe." Foi difícil para mim deixar o assunto na determinação dicotómica de que decisivamente uma não mãe irá arrepender-se da sua decisão - as mulheres estão a ser ameaçadas e arrependimento está a ser usado como arma de arremesso contra elas; simultaneamente, qualquer possibilidade de arrependimento após a maternidade é simplesmente excluída. Como eu tinha a certeza de que HÁ mulheres que se arrependem de tornar-se mães, decidi dedicar o meu doutoramento a esse tema. Mas a mim não me interessava "apenas" estudar o arrependimento na transição para a maternidade, eu queria estudar a relação entre a sociedade e as emoções, assim como o uso político que é feito das emoções.

Quanto tempo demorou a escrever Mães Arrependidas?
Cinco anos (entre 2008 e 2013).

Como mudou a sua vida desde a publicação deste livro?
Este livro não mudou a minha vida de forma concreta. Ainda vivo em Israel e ensino com prazer em várias universidade e faculdades. Sinto-me abençoada por ter tido a oportunidade de falar e chegar a tantas mulheres em todo o mundo - através do livro e das dezenas de palestras e eventos em que participei em diferentes países.

Escrever: dá ou tira energia?
Depende se estou a conseguir passar para o papel os meus pensamentos ou não. Nos dias em que os pensamento estão a jogar às escondidas comigo, a escrita pode ser bastante cansativa; contudo, quando sinto que capturei com precisão o que queria dizer, é como tocar nas nuvens.

Quais são as desvantagens de ser escritora?
A principal desvantagem surge quando anseias escrever e não consegues dedicar todo o teu tempo a essa tarefa. Pessoalmente, preciso de uma sensação de continuidade quando estou a escrever e é muito difícil criar e manter essa continuidade quando tenho tantas outras coisas em que estou profundamente envolvida.

À luz da sua pesquisa, o instinto maternal existe ou é uma invenção social?
Do meu ponto de vista, não há dúvida de que muitas mulheres sentem uma profunda vontade de ser mães e muitas mulheres estão satisfeitas com essa decisão, mesmo que enfrentem dificuldades ao longo do caminho. No entanto, as sociedades divulgam a mensagem de que TODAS as mulheres têm a mesma vontade e tiram a mesma satisfação da maternidade. Esta mensagem é política. É perigoso para as sociedades repensar muitas das ordens sociais que são altamente benéficas para as nações, para a economia, para as lógicas capitalistas, para os interesses patriarcais, etc. Portanto, muitas sociedades nunca param de tentar transmitir a mensagem de que a maternidade é apenas uma questão de natureza: que é natural que as mulheres desejem ser mães porque são mulheres; que é natural que qualquer mulher que seja considerada fisicamente e emocionalmente saudável saberá o que fazer depois de a criança nascer ("o instinto maternal"), porque ela é uma mulher; e que é natural que qualquer mulher avalie a maternidade como uma mudança valiosa na sua vida, uma vez que esta é a essência da sua existência porque ela é uma mulher.

Qual é o seu propósito com este livro? Está a lutar pela liberdade de escolha ou o seu objetivo vai para lá disso?
Tanto quanto sei, o meu livro é uma carta de amor para as mães de diferentes grupos sociais. Eu queria que as suas vozes fossem ouvidas e que o mundo não esquecesse por um minuto que elas devem ser apreciadas e não negligenciadas e abandonadas pelas sociedades.
Além disso, falar sobre mães arrependidas pode permitir que mais e mais mulheres decidam se querem ou não ser mães. Sem falar em arrependimento na maternidade, continuaremos a ter uma visão limitada, parcial e falaciosa que não permite que as mulheres percebam o que querem, o que podem, o que desejam para si ou o que as assusta.
Ser capaz de imaginar mais do que um tipo de cenário (segundo o qual as mulheres que não são mães irão certamente arrepender-se ao passo que as mães nunca irão arrepender-se de terem decidido sê-lo) pode ampliar a nossa margem de manobra e, por isso, tem o potencial de minar as manipulações da sociedades e, na mesma linha, reduzir o sofrimento e cuidar melhor das mulheres e das crianças.
Adicionalmente, eu realmente esperava que este estudo permitisse discutir mais uma vez o facto de que nós, mulheres, somos donas dos nossos corpos, pensamentos, emoções, (in) capacidades, desejos e sonhos. Nós somos as únicas que têm o direito de decidir se queremos ou não ser mães e como; e nós somos as únicas que têm o direito de decidir se a maternidade vale ou não vale a pena para nós.

Lê as críticas dos seus livros? Como lida com as boas e com as más?
Se encontrar uma crítica, leio-a, mas geralmente não leio os comentários online. Do que li, parece que as reações variam entre a raiva em relação ao estudo/negação da existência de arrependimento em relação à maternidade e o reconhecimento de que é importante refletir sobre o conceito da maternidade e os seus significados sociais. As reações de raiva e negação são como que um lembrete pessoal que me recorda por que motivo decidi conduzir este estudo.

Wook tem na sua mesa de cabeceira?
Talking Back: Thinking Feminist-Thinking Black, de bell hooks.

Se pudesse jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria e porquê?
bell hooks, Sara Ahmed and Shelly Park. Três mulheres que me fazem pensar e sentir e me enchem de vontade de nunca parar de olhar a realidade social diretamente nos olhos - e agir.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
Gostaria de ter o poder de mudar as atitudes das pessoas, com o objetivo de reduzir o sofrimento na vida dos seres humanos que não estão a ser tratados como seres humanos por causa do racismo, da fobia LGBTQ, do sexismo e do nacionalismo.

Em que está a trabalhar neste momento?
Estou a moderar dois grupos de mulheres que não têm a certeza se querem ser mães ou não. Após 14 anos de estudo sobre não maternidade e maternidade, percebi que muitas mulheres se sentem perdidas em relação ao que lhes é dito que devem sentir e fazer e o que realmente sentem e querem fazer. Nesses grupos não tenho uma resposta para elas, mas providencio um espaço onde podemos falar sobre o assunto.

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!