Entrevista a Miqui Otero
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13 de outubro de 2022
Miqui Otero é uma das vozes mais vibrantes, criativas e ricas da nova geração de escritores espanhóis. O seu livro de estreia, Hilo Musical, foi distinguido com o Prémio Novo Talento Fnac. Os seguintes, La Capsula del Tiempo e Rayos, consagram-lhe o reconhecimento como romancista excecional, a voz amadurecida da jovem geração barcelonense.
Miqui Otero, Foto © Elena Blanco
Simón, recentemente lançado em Portugal, conquistou os leitores e a crítica, que lhe reconhece a criação de um universo próprio. A obra é uma homenagem ao romance clássico, aos livros e à amizade. A história acompanha a jornada do protagonista Simón, desde a infância até à idade adulta, do encantamento à desilusão, da perda à esperança. Em pano de fundo, a Barcelona desde o deslumbramento dos Olímpicos de 1992 ao rescaldo do atentado terrorista de 1997. Nesta história, que é a história de uma vida, tudo se transforma, mas os livros permanecem uma boia de salvação.
Por altura da sua visita à Feira do Livro de Lisboa para promover Simón, fomos falar com o escritor. Contou-nos que conhece bem Portugal e que «o tom melancólico do livro, de alguém que está um pouco mal e triste, mas que ainda assim tenta sorrir, tem a ver com a imagem e a música» que associa ao nosso país. E que, para ele, ler e escrever livros é como respirar.
Por altura da sua visita à Feira do Livro de Lisboa para promover Simón, fomos falar com o escritor. Contou-nos que conhece bem Portugal e que «o tom melancólico do livro, de alguém que está um pouco mal e triste, mas que ainda assim tenta sorrir, tem a ver com a imagem e a música» que associa ao nosso país. E que, para ele, ler e escrever livros é como respirar.
A literatura dá-te a capacidade de entender o mundo e de fugir do que não gostas nele. A mim sempre me deu muitíssimo, desde criança. É como respirar.
Sempre se imaginou como escritor?
Eu era um miúdo que se sentia escritor quanto tinha 5 ou 6 anos. Tinha uma vocação muito precoce e obrigava-me a mim mesmo, quando ia da escola a casa almoçar, a escrever um pequeno conto. Impunha-me essa disciplina. Escrevia inclusive pequenos romances e encadernava-os como se fossem livros a sério.
Tinha já uma rotina de escrita…
Sim, tinha uma rotina que depois perdi passado algum tempo. Mas quando era pequeno tinha essa prática de escrever sobre coisas que aconteciam à minha volta e também sobre fantasias. Lembro-me que uma das histórias andava à volta de um diálogo, muito dramático, entre dois ursos antes de irem hibernar; como se iam separar durante muitos meses, discutiam e faziam planos. Na adolescência estive um tempo mais afastado e até aos meus 18,19 anos voltei a ler mais, até que comecei a escrever histórias maiores. Entreguei o meu primeiro romance aos 27 anos.
Em Simón refere muitos escritores. Os escritores espanhóis estão entre os seus favoritos?
Há esta questão de o meu livro [Simón] ter esta «etiqueta» de «romance de Barcelona», que é muito comum quando um livro tem algum êxito e boas críticas, relacionam-no com outros escritores que escrevem livros sobre a cidade, como Mercè Rodoreda, Eduardo Mendoza, que são mestres e são escritores muito importantes para mim, mas há muitos mais. O romance Simón está cheio de escritores franceses que foram muito importantes para mim em leituras pós-adolescentes. Gosto muito de clássicos como Dickens e contemporâneos como Alejandro Zambra e Junot Díaz. Estes escritores mostraram-me como queria escrever.
Conheça e gosta de escritores portugueses?
Este verão, um dos livros que me acompanharam numa viagem que fiz por Portugal foi Viagem a Portugal, de Saramago e deu-me muito prazer porque toda a família da minha mulher, onde passo parte do verão, é de uma aldeia junto à fronteira de Miranda do Douro, sobre a qual Saramago escreve o primeiro e maior capítulo do livro. Li também António Lobo Antunes, Fernando Pessoa. Da minha geração, li Valter Hugo Mãe e gostei.
Tendo vivido em Portugal, sente que portugueses e espanhóis ainda se conhecem mal? E por que acha que isso acontece?
Sim, certamente. Eu e muitos amigos meus defendemos uma união ibérica, que seria incrível. O meu avô paterno é galego e sempre tive Portugal muito presente. Vive-se de costas voltadas porque há um desconhecimento mútuo total, da cultura, da forma se ser. Mas para os que conhecem, a relação é de amor.
Considera a hipótese de escrever um romance passado em Portugal?
Teria de vir mais vezes cá para escrever um romance. Mas poderia escrever um relato trágico-cómico sobre a minha experiência de viver em Lisboa, quando era estudante Erasmus. Não sei ainda como será o meu impacto enquanto escritor cá, onde o meu livro acaba de ser lançado, mas tenho a honra de ter sido o pior empregado que Portugal já viu. Isto porque trabalhei uns meses numa loja de roupa e era péssimo [risos]. Enganava-me sempre, levava a camisola errada, e isso daria para um relato engraçado.
O que lhe dá a literatura?
Dá-me vidas extra. Tens a tua vida e ganhas uma série de vidas extra nas quais podes pegar, como num casaco que está no armário. Dá-te a possibilidade de viver muitas vidas no tempo da tua, dá-te a capacidade de entender o mundo e de fugir do que não gostas nele. A mim sempre me deu muitíssimo, desde criança. É como respirar. Não compreendo como se pode viver sem isso. Dá-me pena saber que há gente que não desfruta disso.
Acredita que o livro, esse «objeto mágico» como lhe chama, vai subsistir, a médio/longo prazo, em papel?
Até há pouco vaticinava-se que, com o EBook, o livro em papel iria acabar, mas isso não sucedeu, tal como a proliferação dos formatos digitais na música não impede que o formato físico esteja a ressurgir, o que é algo parecido com o fetichismo do livro. Mas há que ter algo em mente. Muitas das pessoas que são leitores passam o seu dia em frente a um ecrã e o livro em papel permite descansar desses estímulos. Eu leio de forma diferente um livro em papel; este inspira-me outro respeito. E eu acredito que sobrevirá.
Simón é um romance muito completo e extenso, com uma história comparada à de A Sombra do Vento e um protagonista reminiscente de Dom Quixote. Está disposto a escrever mais romances desta complexidade, em que várias vidas se cruzam em cenários e épocas diferentes?
Sim. Agora estou a escrever o meu romance seguinte e incomodava-me que, pelo êxito que teve em Espanha, a ideia de ter de fazer uma história mais difícil ou mais extensa ainda, como se fora um atleta. O meu novo livro será muito mais breve, um outro tipo de romance. No futuro, tenderei a voltar ao tipo de romances como Simón. Se este emociona, é porque segue o protagonista desde criança até se tornar um adulto, envolvendo lentamente, dando tempo de ganharmos carinho pelas personagens.
Barcelona é uma cidade que vive muito de livros. Se não tivesse nascido nesta cidade, seria escritor?
É uma cidade que teve muito bons escritores, tem a maioria das editoras e é uma cidade literária. Barcelona interessa-me muito e está em alguns dos meus romances até agora. Mas eu teria sido escritor em qualquer outro lugar, também.
Além de ensinar jornalismo, ainda faz trabalhos jornalísticos?
Já deixei de fazer entrevistas e reportagens há anos. Colabora nalgumas rádios e escrevo uma coluna semanal. Ensino numa pós-graduação de jornalismo narrativo, em que ensino a relação entre os romances e o jornalismo, na sua forma mais longa. Durante muitos séculos o jornalismo e a literatura influenciaram-se mutuamente e exploramos essa interação.
As pessoas estão a perder o interesse em conhecer os assuntos com maior profundidade, em questionar-se?
É algo estranho porque, por um lado, vivemos numa sociedade muito musculada na informação, em que as pessoas estão constantemente a informar-se, mas leem apenas os títulos das notícias, ou os posts nas redes sociais. Há uma falta de leituras mais extensas, mas estamos num mundo em transição e a imprensa escrita tem de aprender a financiar-se para permitir criar conteúdos de qualidade e que explicam às pessoas claramente [os assuntos pertinentes].
Ser escritor e escrever romances é o que o faz feliz?
Sim, é algo que me permite gerir melhor o meu tempo, dedicar-me a diferentes projetos conforme os meus interesses e isso é um privilégio enorme.
Que mensagem gostaria de deixar aos seus leitores portugueses para que leiam Simón?
Quero dizer-lhes que, embora não os conhecendo, conheço-os, porque tenho um vínculo muito forte com Portugal – desde o laço de sangue herdado do meu avô a alguns dos momentos mais importantes da minha vida [enquanto jovem estudante]. Fiquei muito contente por saber que o meu livro [Simón] ia ser publicado cá e quando pude conhecer o tradutor, que é muito bom, gostei da forma como o romance soava. Quando cheguei a Lisboa anteontem, a primeira coisa que fiz foi levar este livro à porta do edifício em que vivia, no Largo da Graça, 17. Era um edifício de 3 andares e eu «via» à janela um pirralho de 23 anos que estava sempre a escrever e queria ser escritor.
Ficaria muito feliz que lessem o meu romance, que falassem dele e que entendam que tenta explicar a vida por detrás dos livros e os livros através da vida de uma personagem; que sintam o tom melancólico de alguém que está mal, triste, mas que tenta sorrir. E esse tom tem a ver com a imagem e a música que eu associo a Portugal.
Eu era um miúdo que se sentia escritor quanto tinha 5 ou 6 anos. Tinha uma vocação muito precoce e obrigava-me a mim mesmo, quando ia da escola a casa almoçar, a escrever um pequeno conto. Impunha-me essa disciplina. Escrevia inclusive pequenos romances e encadernava-os como se fossem livros a sério.
Tinha já uma rotina de escrita…
Sim, tinha uma rotina que depois perdi passado algum tempo. Mas quando era pequeno tinha essa prática de escrever sobre coisas que aconteciam à minha volta e também sobre fantasias. Lembro-me que uma das histórias andava à volta de um diálogo, muito dramático, entre dois ursos antes de irem hibernar; como se iam separar durante muitos meses, discutiam e faziam planos. Na adolescência estive um tempo mais afastado e até aos meus 18,19 anos voltei a ler mais, até que comecei a escrever histórias maiores. Entreguei o meu primeiro romance aos 27 anos.
Simón , de Miqui Otero
Há esta questão de o meu livro [Simón] ter esta «etiqueta» de «romance de Barcelona», que é muito comum quando um livro tem algum êxito e boas críticas, relacionam-no com outros escritores que escrevem livros sobre a cidade, como Mercè Rodoreda, Eduardo Mendoza, que são mestres e são escritores muito importantes para mim, mas há muitos mais. O romance Simón está cheio de escritores franceses que foram muito importantes para mim em leituras pós-adolescentes. Gosto muito de clássicos como Dickens e contemporâneos como Alejandro Zambra e Junot Díaz. Estes escritores mostraram-me como queria escrever.
Conheça e gosta de escritores portugueses?
Este verão, um dos livros que me acompanharam numa viagem que fiz por Portugal foi Viagem a Portugal, de Saramago e deu-me muito prazer porque toda a família da minha mulher, onde passo parte do verão, é de uma aldeia junto à fronteira de Miranda do Douro, sobre a qual Saramago escreve o primeiro e maior capítulo do livro. Li também António Lobo Antunes, Fernando Pessoa. Da minha geração, li Valter Hugo Mãe e gostei.
Tendo vivido em Portugal, sente que portugueses e espanhóis ainda se conhecem mal? E por que acha que isso acontece?
Sim, certamente. Eu e muitos amigos meus defendemos uma união ibérica, que seria incrível. O meu avô paterno é galego e sempre tive Portugal muito presente. Vive-se de costas voltadas porque há um desconhecimento mútuo total, da cultura, da forma se ser. Mas para os que conhecem, a relação é de amor.
Considera a hipótese de escrever um romance passado em Portugal?
Teria de vir mais vezes cá para escrever um romance. Mas poderia escrever um relato trágico-cómico sobre a minha experiência de viver em Lisboa, quando era estudante Erasmus. Não sei ainda como será o meu impacto enquanto escritor cá, onde o meu livro acaba de ser lançado, mas tenho a honra de ter sido o pior empregado que Portugal já viu. Isto porque trabalhei uns meses numa loja de roupa e era péssimo [risos]. Enganava-me sempre, levava a camisola errada, e isso daria para um relato engraçado.
O que lhe dá a literatura?
Dá-me vidas extra. Tens a tua vida e ganhas uma série de vidas extra nas quais podes pegar, como num casaco que está no armário. Dá-te a possibilidade de viver muitas vidas no tempo da tua, dá-te a capacidade de entender o mundo e de fugir do que não gostas nele. A mim sempre me deu muitíssimo, desde criança. É como respirar. Não compreendo como se pode viver sem isso. Dá-me pena saber que há gente que não desfruta disso.
Acredita que o livro, esse «objeto mágico» como lhe chama, vai subsistir, a médio/longo prazo, em papel?
Até há pouco vaticinava-se que, com o EBook, o livro em papel iria acabar, mas isso não sucedeu, tal como a proliferação dos formatos digitais na música não impede que o formato físico esteja a ressurgir, o que é algo parecido com o fetichismo do livro. Mas há que ter algo em mente. Muitas das pessoas que são leitores passam o seu dia em frente a um ecrã e o livro em papel permite descansar desses estímulos. Eu leio de forma diferente um livro em papel; este inspira-me outro respeito. E eu acredito que sobrevirá.
O romance Simón tem um tom melancólico, que tem a ver com a imagem e a música que eu associo a Portugal.
Simón é um romance muito completo e extenso, com uma história comparada à de A Sombra do Vento e um protagonista reminiscente de Dom Quixote. Está disposto a escrever mais romances desta complexidade, em que várias vidas se cruzam em cenários e épocas diferentes?
Sim. Agora estou a escrever o meu romance seguinte e incomodava-me que, pelo êxito que teve em Espanha, a ideia de ter de fazer uma história mais difícil ou mais extensa ainda, como se fora um atleta. O meu novo livro será muito mais breve, um outro tipo de romance. No futuro, tenderei a voltar ao tipo de romances como Simón. Se este emociona, é porque segue o protagonista desde criança até se tornar um adulto, envolvendo lentamente, dando tempo de ganharmos carinho pelas personagens.
Barcelona é uma cidade que vive muito de livros. Se não tivesse nascido nesta cidade, seria escritor?
É uma cidade que teve muito bons escritores, tem a maioria das editoras e é uma cidade literária. Barcelona interessa-me muito e está em alguns dos meus romances até agora. Mas eu teria sido escritor em qualquer outro lugar, também.
Além de ensinar jornalismo, ainda faz trabalhos jornalísticos?
Já deixei de fazer entrevistas e reportagens há anos. Colabora nalgumas rádios e escrevo uma coluna semanal. Ensino numa pós-graduação de jornalismo narrativo, em que ensino a relação entre os romances e o jornalismo, na sua forma mais longa. Durante muitos séculos o jornalismo e a literatura influenciaram-se mutuamente e exploramos essa interação.
As pessoas estão a perder o interesse em conhecer os assuntos com maior profundidade, em questionar-se?
É algo estranho porque, por um lado, vivemos numa sociedade muito musculada na informação, em que as pessoas estão constantemente a informar-se, mas leem apenas os títulos das notícias, ou os posts nas redes sociais. Há uma falta de leituras mais extensas, mas estamos num mundo em transição e a imprensa escrita tem de aprender a financiar-se para permitir criar conteúdos de qualidade e que explicam às pessoas claramente [os assuntos pertinentes].
Ser escritor e escrever romances é o que o faz feliz?
Sim, é algo que me permite gerir melhor o meu tempo, dedicar-me a diferentes projetos conforme os meus interesses e isso é um privilégio enorme.
Que mensagem gostaria de deixar aos seus leitores portugueses para que leiam Simón?
Quero dizer-lhes que, embora não os conhecendo, conheço-os, porque tenho um vínculo muito forte com Portugal – desde o laço de sangue herdado do meu avô a alguns dos momentos mais importantes da minha vida [enquanto jovem estudante]. Fiquei muito contente por saber que o meu livro [Simón] ia ser publicado cá e quando pude conhecer o tradutor, que é muito bom, gostei da forma como o romance soava. Quando cheguei a Lisboa anteontem, a primeira coisa que fiz foi levar este livro à porta do edifício em que vivia, no Largo da Graça, 17. Era um edifício de 3 andares e eu «via» à janela um pirralho de 23 anos que estava sempre a escrever e queria ser escritor.
Ficaria muito feliz que lessem o meu romance, que falassem dele e que entendam que tenta explicar a vida por detrás dos livros e os livros através da vida de uma personagem; que sintam o tom melancólico de alguém que está mal, triste, mas que tenta sorrir. E esse tom tem a ver com a imagem e a música que eu associo a Portugal.