Espanha: o que se escreve aqui ao lado
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Aqui ao lado, a literatura de um país tem sabor de mundo. A produção literária contemporânea é densa e vasta. Qualquer amante de literatura tem de lhe pôr a mão.
JAVIER MARÍAS
Javier Marías tem sido apontado ao Nobel da Literatura. Nascido em 1951 em Madrid, o autor é um dos mais proeminentes romancistas da coetaneidade. Marías apresenta sempre personagens desconcertantes e ações que criam uma estranheza que depressa se torna familiar. As frases são longas, a prosa é explicativa, os longos parágrafos afundam. Enquanto escreve, Marías parece querer preencher todos os vazios, levar a hipótese da ficção aos últimos limites. Nos romances, em que podemos destacar Os Enamoramentos (2011), não apenas temos uma hipótese de vida, mas também, e principalmente, um conflito moral. Debatê-lo é o papel do leitor.
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ROSA MONTERO
O ano de 1951 foi profícuo na literatura em Espanha, já que também nos deu Rosa Montero, que é hoje uma das figuras mais proeminentes da produção literária em castelhano, tendo já sido traduzida para várias línguas. Em A Louca da Casa (2003), temos uma espécie de autobiografia romanceada, em que a autora repensa a criação artística ao mesmo tempo que faz uma incursão na memória. O que nos dá, contudo, deve encontrar sempre ceticismo, já que as memórias também enganam. Em A ridícula ideia de não voltar a ver-te (2013), Montero partiu do diário que Marie Curie começou a escrever após a morte do marido para encarar o próprio luto, resultante da sua viuvez. Aqui, temos mais uma narrativa em que a memória pessoal se mistura com as memórias coletivas. Entre a superação da dor, aparece ainda a literatura como força de salvação.
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O INFINITO NUM JUNCO
Nascida em 1979, Irene Vallejo escreveu um piscar de olhos a quem ama o registo escrito. Em O Infinito num Junco (2019), a autora traça a história dos livros. Partindo dessa história física, do artefacto que acompanhou os tempos, ainda criou um livro de viagens, passando pelos campos de batalha de Alexandre, o Grande, pelas primeiras livrarias conhecidas ou pelas fogueiras onde arderam livros proibidos. Assim, a história do livro vem de braço dado com a história do mundo, e esta vai mais a fundo se não esquecer a literatura.
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O MUNDO
A cabeça de Millás é fascinante. O autor tem uma obra múltipla, sempre com personagens e fios de ação surpreendentes. Não há como lê-lo sem se sentir a frescura. Em O Mundo (2007), o autor parte do cenário da sua infância, que mete o leitor no ambiente do pós-guerra, para mostrar a vida: o primeiro amor, a família, os sonhos de infância. Ao mesmo tempo, um vizinho espião e um amigo condenado a morrer. Não se entende bem onde é que a ficção se desliga da memória, mas fica o registo de uma impressão do mundo com maturidade literária. Em O Que Sei dos Homenzinhos (2010), o autor cria um cenário a la Millás, dando ao leitor um cenário surrealista: um professor universitário vê a sua rotina perturbada pelo aparecimento de pequenas réplicas humanas. Uma delas irá ser o espelho dos seus desenhos vergonhosos. Deixando difusa a fronteira entre loucura e realidade, o romance absorve pela originalidade da ação e pela necessidade que o leitor passa a ter de também se confrontar consigo.
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