Entrevista a José Rodrigues dos Santos

Por Vera Dantas
2 de novembro de 2023
Quase todos os portugueses lhe conhecem o rosto e a voz como jornalista, e muitos são leitores fiéis dos seus romances de amor e espionagem. Estas duas facetas de José Rodrigues dos Santos complementam-se: na ficção literária, encontra um espaço mais pessoal e livre para exprimir a verdade de uma maneira mais poderosa, desconstruindo mitos, dogmas e tabus. Defende que é esse o verdadeiro papel de um escritor.
Em O Segredo de Espinosa, o seu mais recente livro, inspirou-se na vida de Bento de Espinosa, considerado o maior filósofo português de sempre, para escrever uma aventura épica em que este parte em busca de um segredo oculto: quem escreveu os textos sagrados e o que é, afinal, a Natureza?
Nos seus romances bestsellers, a atualidade entretece-se no enredo, quase sempre protagonizado pelo temerário professor de História, Tomás de Noronha. Em A Mulher do Dragão Vermelho, lançado no ano passado, José Rodrigues dos Santos expôs o atual regime ditatorial chinês e os seus planos de dominação mundial, que ameaçam a ordem e a liberdade a nível global.
Karina Sainz Borgo
José Rodrigues dos Santos © Pau Storch
Neste excerto da entrevista que fizemos a José Rodrigues dos Santos, publicada na íntegra no último número da revista Wookacontece, falamos sobre a sua vida e obra antecipamos a série televisiva Codex 632, baseada no livro homónimo do escritor, cuja estreia se deu a 2 de outubro passado.
O autor considera que o impacto dos seus romances em países como a França, o Canadá, a Hungria ou a Turquia é talvez o maior prémio de todos, já que a sua literatura, ao chegar ao público, ganha vida própria. Já escreveu sobre tantos temas que por vezes tem a sensação de se esgotar, mas quando lhe perguntámos o que lhe falta fazer, a resposta é inequívoca da sua sede de viver: «Tudo».
 
O verdadeiro papel de um escritor é desmontar dogmas, derrubar mitos, violar tabus.


Nunca eventuais receios o impediram de usar a sua escrita como veículo da verdade, mesmo sabendo que corre riscos?

Sim, tenho muitos receios. Mas não há escrita sem verdade. Faz-me impressão ver romances que se limitam a reproduzir lugares-comuns, a repetir o que o establishment quer que eles digam. São livros de regime e, por isso, irrelevantes. Não concebo a literatura dessa maneira. A escrita não existe para servir um regime, mas para o desafiar. O verdadeiro papel de um escritor é desmontar dogmas, derrubar mitos, violar tabus. Foi isso o que fizeram Eça de Queiroz, Flaubert, D. H. Lawrence, Orwell, Conrad, Dickens, Camus, as irmãs Brontë, Roth... na verdade todos os grandes escritores. A grande literatura é sobre a verdade, sobretudo quando ela é inconveniente.


Sente, após 25 anos enquanto escritor e 4 décadas enquanto jornalista, que a literatura permite explorar assuntos que no jornalismo nem sempre é possível aprofundar, e com mais liberdade?

Sem dúvida. A literatura é um espaço mais pessoal. Como se trata de uma área onde o acesso público é limitado, geralmente apenas a pessoas cultas, inteligentes e curiosas, pois são essas quem sobretudo lê livros, não estamos submetidos ao mesmo tipo de vigilância que os guardiães dos mitos, dogmas e tabus reservam aos espaços mais mediáticos, abertos ao público em geral e, por isso, politicamente mais sensíveis. Isso dá maior liberdade aos escritores. Mas não quer dizer que estes não sejam vigiados e perseguidos pelos seus livros. Veja-se o recente atentado contra Salman Rushdie.

Trailer da série televisiva Codex 632


Considera que a televisão portuguesa deveria (ou poderia) ter um papel mais ativo na análise de assuntos – relacionados com a História, as identidades e as políticas internacionais – que, apesar da sua relevância, são mal conhecidos?

Deveria, claro. Mas poderia? O espaço televisivo é muito vigiado pelos guardiães dos mitos, dogmas e tabus. É mais fácil começar num espaço mais fechado, como o literário, e partir daí para a generalização do conhecimento. Para enfrentar os dogmas, mitos e tabus impostos pela Igreja, por exemplo, Descartes e Espinosa não publicaram as suas obras em espaços acessíveis ao grande público, mas em espaços mais restritos, apenas acessíveis a públicos cultos, inteligentes e curiosos. Foram estes que depois se encarregaram de, com o tempo, levar ao grande público o conhecimento proibido. A literatura desempenha esse papel. Orwell, por exemplo, não conseguia fazer passar a sua mensagem sobre o totalitarismo comunista soviético na imprensa ocidental. Só o conseguiu fazer através de uma obra literária, 1984, e foi esta, dirigida a um público restrito, que fez alastrar gradualmente a informação para o público em geral.
 
«O espaço televisivo é muito vigiado pelos guardiães dos mitos, dogmas e tabus».
 
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O Segredo de Espinosa, o novo romance de José Rodrigues dos Santos.
Antes de começar a escrever um novo romance, tem um plano do enredo a desenvolver?

Sim. Quando começo a escrever um romance, já tenho toda a história arquitetada.
Dado que faz a pesquisa para os seus livros em poucos meses e «trabalha depressa», como é a sua rotina de escrita?

Tenho uma rotina, pois não é possível produzir um romance por ano sem uma rotina, mas é uma rotina sem segredos. Assenta em três conceitos fundamentais: trabalho, trabalho, trabalho.


Contou numa entrevista à rádio Observador que, na Bulgária, o interesse pelos seus livros levou à criação de um curso de língua portuguesa. O que mais o orgulha de ter alcançado enquanto escritor?

As obras artísticas, neste caso as literárias, ganham vida própria quando chegam ao público. A Universidade de Varna abriu um curso de português e o vice-reitor da universidade disse-me que isso aconteceu porque os meus romances se tornaram muito populares na Bulgária e despertaram interesse na cultura portuguesa. Há muitas histórias desconcertantes sobre o impacto dos meus romances em França, no Canadá, na Hungria, na Turquia... em tantos sítios. Esse é talvez o maior prémio de todos.

Afirma que foi muito duro para si escrever O Mágico de Auschwitz. Qual foi o romance que mais lhe custou escrever – porquê?

A Chave de Salomão foi o que achei mais difícil de trabalhar, dada a complexidade do tema. «O que acontece quando morremos?» é o tema principal. A resposta leva-nos às descobertas sobre a consciência e sobre a mecânica quântica, questões científicas de enorme complexidade. A grande dificuldade estava em dominá-las, primeiro, para depois as explicar de uma forma clara e interessante. As dificuldades na escrita de O Mágico de Auschwitz e O Manuscrito de Birkenau relacionam-se sobretudo com as emoções suscitadas pelo tema, não com questões técnicas. Aliás, os temas da história são mais fáceis de abordar do que os temas científicos, em especial a física ou a biologia.
 
«Acabo sempre por encontrar coisas novas, pois o universo está realmente cheio de mistérios».


E qual foi o livro que mais prazer lhe deu escrever?

Sem querer fugir à pergunta, a verdade é que todos me deram gozo escrever. Se não temos prazer na escrita, como pode o leitor ter prazer na leitura?


Passadas mais de duas décadas como escritor, continua a sentir o mesmo entusiasmo para criar histórias e falar sobre os seus livros?

Sim e não. Já abordei tantos temas e tão variados que, por vezes, tenho a sensação de me esgotar. Mas acabo sempre por encontrar coisas novas, pois o universo está realmente cheio de mistérios.


Que escritores mais o inspiram (ou inspiraram) enquanto escritor e enquanto pessoa? O que lhe deram eles?

Os meus favoritos são Somerset Maugham e Amin Maalouf. Na essência, deram-me o prazer da leitura, o prazer de ler uma boa história bem contada e com ela aprender algo sobre o mundo.


Este é o ano de estreia da série televisiva Codex 632 baseada no seu romance homónimo. Como avalia o resultado e o que sente ao ver as suas personagens fictícias ganharem vida, nomeadamente Tomás Noronha, interpretado por Paulo Pires?

Os livros e a televisão são meios muito diferentes e a adaptação de Codex 632 vai refletir essas diferenças. Há coisas que funcionam nos livros e não funcionam no ecrã, e vice-versa. Portanto, acho as alterações naturais. Já o Paulo Pires foi uma questão de destino. Sempre disse, quando criei o Tomás, que se fosse uma adaptação internacional seria o Tom Hanks e se fosse nacional seria o Paulo Pires. Acontece que esta é uma adaptação internacional, e o ator é o Paulo Pires. O destino tem destas coisas.


O que lhe falta fazer?

Tudo.

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