Entrevista a Karina Sainz Borgo [com vídeo]

Por Vera Dantas

28 de agosto de 2023
Nascida na Venezuela, Karina Sainz Borgo transpôs para o seu livro de estreia, Cai a Noite em Caracas, a complexa relação que tem com o seu país, tentando traçar um retrato coletivo da ideia de “filha”, numa realidade marcada pela tragédia transversal a todos.

Sempre se interessou por personagens que procuram o seu lugar, uma ideia que continua a explorar no seu segundo romance, O Terceiro País. Para o escrever, tomou a decisão de o despojar de geografias, explorando antes a força das alegorias sobre a perda e o exílio.
Karina Sainz Borgo
Karina Sainz Borgo
Ao torna-se jornalista, Karina, que desde criança escreve diariamente num caderno, fascinou-se pelo uso da linguagem, até como reação a um estilo de escrita objetivo. Continua a fazer jornalismo, mas prefere aquele que conta as histórias vividas pelas pessoas, dentro de grandes acontecimentos. Porque aprecia a beleza do mínimo, do pequeno, a partir do qual se pode retirar tanto.
 
«Tive de despojar os meus romances de geografias, criar alegorias para escrever sobre a perda e o exílio, porque minha relação com a Venezuela continua a ser difícil.»


Quando soube que queria ser escritora, e não apenas jornalista?

Acho que já tinha a certeza de escrever de forma contínua, com vocação para a beleza. Era uma questão inata, diria natural. Quando comecei a fazer jornalismo, comecei a fascinar-me mais pelo uso da linguagem. E fui valorizando cada vez mais isso. Talvez por reação ao jornalismo, comecei a refugiar-me mais na literatura, numa idade mais consciente, com 16 ou 17 anos.
Além disso, digo sempre que é verdade que nasci numa família com sensibilidade literária, mas a minha relação tão direta e diária com a escrita foi fortuita. Castigaram-me na escola porque eu tinha escrito algo num papel que era um pouco ofensivo contra a autoridade, e tinha-o assinado. Quase me expulsaram. A minha mãe disse-me: «De agora em diante tudo o que quiseres dizer ou escrever vais escrever nisto». E deu-me um caderno. Eu teria uns 10 ou 11 anos e a partir daí escrevo todos os dias num caderno manuscrito. Acho que foi a partir daí que eu comecei relação formal com a escrita.


Escrevia só sobre o seu dia-a-dia, nesse caderno, ou também contos e histórias?

Escrevia sobre tudo, muitos contos e relatos. Mas não há nada pior do que as primeiras histórias que se escreve, principalmente quando se quer que sejam literárias. A minha família valorizava muito a poesia, que para mim é um género literário muito sério. Evito poesia, mas é verdade que a minha tendência era escrever poesia ou prosa muito curta. Embora seja evidente que ninguém escreve um romance aos 11 ou 12 anos. Como diz Leila Guerriero, dizes a uma criança para escrever algo, e esta não vai fazer uma reportagem ou um romance, faz o que pode. Embora haja mais de um autor a dizer que escreveu o seu primeiro romance aos 5 anos, creio que é o Enrique Vila-Matas...

Veja também em vídeo a nossa entrevista exclusiva a Karina Sainz Borgo.


Foi doloroso escrever Cai a Noite em Caracas? Ajudou-a a processar o que viveu na Venezuela?

Cai a Noite em Caracas é um livro que já estava há muito tempo a ser escrito, dentro de mim. Acho que de alguma forma eu supus que estava a fechar uma relação muito complicada, com a Venezuela. O tempo passou e percebi que não, que apenas tinha tornado muito mais complexa a minha relação com o país, com a forma como o nomeava, com situar uma ficção lá.
Em Cai a Noite em Caracas entende-se que é a Venezuela contemporânea, mas está muito turva. Adelaida Falcón, a protagonista, tenta escapar, seja como for, de um lugar que é tremendamente ameaçador, onde se sente desprotegida, absolutamente despojada de tudo, mas em que o país ainda era importante.
No meu segundo romance publicado em Portugal, O Terceiro País, tive de tomar decisões sobre como despojá-lo de geografias, criar antes alegorias. E isso demonstra como para mim continua a ser complicado. Não porque eu escreva diretamente sobre a Venezuela. Escrevo sobre deslocar-se, sobre a perda, e o exílio era uma parte muito importante.
imagem
O Terceiro País, o segundo romance de Karina Sainz Korgo lançado em Portugal.
Como autora e talvez como pessoa, ser humano, não me vejo como exilada. Mas, não sei, custa-me muito falar sobre Cai a Noite em Caracas porque foi o meu primeiro romance publicado. Vejo-o de forma cada vez mais clara. O Terceiro País é um romance que se passa numa fronteira e conta a história de uma pessoa que tenta escapar dessa fronteira, que é Angustias Romero, e outra que, do outro lado da a fronteira, enterra pessoas que não têm quem as enterre, quem lhes faça uma sepultura. Esta imagem soa-me tão familiar em tantas coisas que vemos todos os dias nas notícias, em coisas diferentes, desde a própria guerra na Ucrânia, que gera um número tremendo de deslocados, à própria ideia da morte, de o que fazer com os nossos mortos, onde os recordamos...
Parece que, nesse aspeto, o livro tem muito mais de universal e de alegórico, justamente porque as alegorias que nos rodeiam são muito violentas. A sociedade contemporânea em menos de três anos, viu pessoas a saírem de Cabul, a correrem desesperados agarrando-se às rodas de um avião, como também viu todo o drama da migração no Mediterrâneo, em Marraquexe. É algo a que toda a Europa, e todo o mundo está exposto. Vemos pessoas a cruzarem a fronteira para os EUA, a própria América Central, com pessoas a tentarem cruzar as fronteiras. É como um mundo onde íamos viver numa aldeia global, mas que está mais afetado pelos muros e pelas fronteiras do que nunca, e O Terceiro País fala sobre isso.

Cai a Noite em Caracas é um livro de autoficção?

Adelaida tem muito de mim, como personagem, no sentido de que tem as minhas obsessões e os meus conflitos. Tem o olhar que eu tive quando fiquei consciente de como retratar o país, mas a minha experiência não tem nada a ver com a de Adelaida. Ela é um artefato, é o desespero de tanta gente. Eu nunca tive de sair da Venezuela nessas circunstâncias. Saí por decisão pessoal, mas cheguei a entender, como jornalista, a trabalhar nas ruas, o grande sofrimento que significou o exílio e a fuga para muitos. Acho que o que mais pertence a Adelaida, de mim, é o seu olhar, tão inflexível, tão revoltado, tão nostálgico, porque ela diz, em Cai a Noite em Caracas, «Somos do lugar onde estão sepultados os nossos mortos».
Essa situação de se sentir ameaçada de órfã, porque ela perdeu a sua mãe e, quando a está a enterrar, apercebe-se de que perdeu uma mãe e um país. E esses são os laços de família que as pessoas têm.
Cai a Noite em Caracas traça um retrato coletivo da ideia de "filha". Acho mesmo que cabe um país inteiro lá. Não quero ser arrogante, longe disso, mas tentei retratar uma sociedade inteira quando está desesperada, quando não há amanhã, quando em Caracas vai ser sempre noite.
imagem
 


É um sentimento estranho, porque há um sentimento de culpa, de que se deveria ter ficado, reconstruindo, fazendo. Mas acredito que quando uma sociedade totalitária, um regime totalitário e a violência se impõem na vida das pessoas, e as pessoas não podem mais decidir sobre seu destino, sobre o que vão fazer porque tudo depende do que as rodeia, dificilmente se pode planear algo. Não podes decidir se vai haver luz à noite, se vai haver água corrente, se vai haver segurança, se vais ter remédios. Além disso, ter de se lidar constantemente com o que não existe, com a fome, tira-te a capacidade de te questionares sobre o que te está a acontecer. Isso vai-te transformando num ser curvado, com a cabeça baixa e apaga-te enquanto indivíduo. A forma de fugir disso é justamente tentar criar um mundo novo, alternativo, mas no qual terás sempre a reprovação do anterior.
Sempre me interessei por personagens que se sentem expulsadas, ou que procuram o seu lugar. E no fundo todos fomos expulsos de algum lado. Mas quando é do teu país, e da sociedade em que te encontras, isso torna-se numa tragédia coletiva. Aí é que está o verdadeiro drama e a tragédia desta situação.
 
«Vivemos num mundo que prometia ser uma aldeia global, mas que está mais afetado pelos muros e pelas fronteiras do que nunca.»
E quem permanece na Venezuela, em que situação vive?

A situação na Venezuela é muito complexa, porque é crónica, ou seja, existe um regime autoritário que controla toda a estrutura do Estado. Foram tomadas iniciativas que para se chegar tanto às eleições, como aos opositores, e a uma mesa de diálogo. Mas não se pode comprometer e negociar coisas como a liberdade e a vida dos cidadãos. O problema é que a Venezuela agora tem uma pátina de democracia que parece estar mais estável porque há uma série de interesses geopolíticos que o favorecem; a Venezuela é um produtor petrolífero.
Há uma fase da Venezuela de Nicolás Maduro, que é a dos anos de 2018 e 2019, onde a escassez é imensa porque os níveis de inflação são gigantescos. O colapso económico e o colapso social traduziram-se num estado falido onde não há segurança, medicamentos, onde se reprime o acesso ao dinheiro – no princípio, as pessoas não podiam dispor livremente do seu dinheiro, isso era ilegal. Agora há um processo de ambiguidade tão grande, em que a Venezuela está dolarizada há 20 anos, com uma economia de dólar negro. A inflação é imensa, mas quem tem acesso a moeda estrangeira pode viver muito bem devido ao câmbio no mercado negro. Mas as pessoas que dificilmente conseguem ter acesso a divisas vivem muito pior. Além disso, todo aquele turbilhão económico criou situações em que, de repente, um professor universitário pode ganhar 70 euros por mês, porque o seu salário em moeda local é muito alto, mas o valor dessa moeda é muito baixo.
Isso é uma parte gravíssima do que está a acontecer, mas há outras que são muito piores: a aceitação da corrupção, a convivência com a crueldade e com a tortura. Na Venezuela, atualmente, há 300 pessoas presas há mais de 10 anos, muitas em prisões militares. E ninguém sabe delas. A agenda política está tão condicionada pela urgência do que acontece, que ficou num limbo. Obviamente, eu considero que o regime não é democrático. Quem tem coragem e resiliência suficiente para ficar tem de fazer muito esforço para poder viver lá.


Gosta mais de trabalhar como jornalista ou de escrever livros?

Cada vez gosto mais de um tipo de jornalismo que conte grandes histórias, ou melhor, que conte pequenas histórias dentro de grandes acontecimentos. Trabalho no jornal ABC, na cultura, mas faço isso sempre que possível. Há pouco tempo, deu-se a erupção do vulcão nas Canárias e eu pedi para ir passar a noite de Natal com uma família que tinha perdido a casa. Passar um dia, e especialmente, uma noite destas em que há tanta emoção pendente, com quem perdeu uma casa de três andares debaixo de um vulcão e de repente está num apartamento de 50 metros, muda as perspetivas. Esse é o tipo de jornalismo que mais me interessa fazer, porque é o jornalismo que te leva às histórias das pessoas. Nunca me vou esquecer de estar a conversar com esta senhora, que perdeu a casa nas Canárias, a olhar para o mar, e ela dizer-me: «tenho de me vestir com a roupa da Cruz Vermelha, porque não posso voltar à minha casa». Essa sensação de não ter superado o que aconteceu, pareceu-me muito interessante por vários motivos, do ponto de vista humano.
É curioso, porque em relação ao primeiro livro, que teve muito êxito, assim como ao segundo, que foi bem recebido, é o que se aprende no processo. As conversas com editores e leitores vão-me dando mais intuições, fazendo sentir que é um processo mais humano. Sinto que tenho menos tempo para escrever, mas tenho mais noção de que tenho de usar as palavras certas e saber muito bem o que vou contar. Isso continua a fazer parte de um processo e de uma aprendizagem que veio precisamente de estar exposta, de ver que este livro diz algo aos outros, também. Isso foi muito importante para mim.


Além do sofrimento humano, explora outras abordagens estéticas à escrita. O que irá explorar a seguir?

Estou a trabalhar num livro, sobre o qual tomei já algumas decisões importantes em Portugal, que é um livro que explora a loucura e o que se herda o que se pode herdar numa família.
 
«Cada vez mais me cativam os escritores Javier Marías e Joseph Conrad, porque um me ensinou a ler o outro.»
Quais são os escritores mais importantes para si?

Há autores que são como uma boia de salvação no mar, para mim. O escritor sul-africano Maxwell Coetzee é um deles. Tem uma escrita que continua a assombrar-me, com uma violência e uma economia de meios maravilhosa. Foi um dos autores mais importantes para mim.
Há outros autores aos quais acudo sempre, a perguntar-lhes coisas. Parece óbvio, mas gosto muito de Cervantes, da sua simplicidade e humor. Tendo sempre a voltar a Cervantes quando não sei o que fazer com as palavras. Isso também me acontece com T. S. Eliot. Gosto muito de Natalia Ginzburg, porque nela persiste aquela beleza do mínimo, do pequeno. Podem-se retirar coisas muito complexas a partir de episódios muito pequenos. E cada mais me cativam dois autores, porque um me ensinou a ler o outro. Javier Marías é um dos meus autores fundamentais. Afetivamente e literariamente eu não escrevo como ele. O meu universo não é o dele, mas está sempre a dar voltas à memória e à linguagem. Comecei a ler Conrad com seriedade, através de Javier Marías. Tenho uma estranha biblioteca de escritores que, ainda que não se parecem, porque não se parecem nada, fazem um uso fascinante da linguagem. É por esse motivo que os procuro, porque são como um lugar onde não me refugio. E acabo sempre por bater à porta destes autores. Conhece e lê escritores portugueses?

Não conhecia a Ana Luísa Amaral como poetisa. Gosto muito de poesia. Evito-a, porque é muito invasiva, mas faz escrever, ler e desfrutar melhor da escrita. Estou a gostar muito da poesia de Ana Luísa Amaral, muito lúcida, anglo-saxónica. Há descobertas que só acontecem em viagens e esta foi a minha última descoberta. E Fernando Pessoa. Ninguém que queira para ler e escrever, pode viver sem Pessoa. À medida que fico mais velha, leio-o de uma forma diferente, com uma consciência muito clara da luz, que está muito presente nele. Entre os contemporâneos, gosto muito do Gonçalo M. Tavares.
 
«Tenho uma curiosidade tremenda, e a escrita continua a ser a minha principal ferramenta para a explorar.»


Hoje em dia, vivendo em Espanha, vê a vida com mais otimismo?

Não costumo ser muito otimista, mas tenho uma curiosidade tremenda e neste momento vital a escrita continua a ser a minha principal ferramenta para explorar. Nesse sentido, acho que não teria o conseguido se não tivesse escrito os meus dois primeiros livros, se não tivesse lidado com toda aquela dor com o país. Agora sinto que posso trabalhar com outras grandes estruturas, que exigem outra musculatura. Estou a treinar para isso. Sou uma escritora no ginásio [risos].

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!