Entrevista a Elizabete Neves
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28 de novembro de 2022
Elizabete Neves quer melhorar a relação de adultos e de crianças com as suas emoções e, consequentemente, com os outros. Para isso, primeiro é preciso saber identificar as emoções que sentimos. Não temos de controlar as nossas emoções ao ponto de as reprimir. Devemos, sim, ser capazes de comunicar aos outros a emoção que estamos a sentir, de forma adequada e com a intensidade certa. Isso é difícil, mas é isso que é inteligência emocional.
Elizabete Neves
Formadora há mais de 15 anos na área do desenvolvimento pessoal, comportamental e comunicacional, e vice-presidente da Associação Portuguesa de Coaching, estreou-se como autora com o livro O Novelo de Emoções, que ajuda as crianças a identificarem as suas emoções de forma visual, associando-lhes uma cor. O livro é um êxito inclusive nas escolas, do pré-escolar ao básico, e deu origem a O Novelo de Emoções – Biblioteca de Emoções e a O Novelo de Emoções para os Mais Pequeninos.
Mais recentemente, o livro de estreia da autora deu origem ao Jogo de Tabuleiro com o mesmo nome e o objetivo comum de contribuir para a inteligência emocional. Com o novo livro ABC das Emoções, Elizabete Neves contribui para a literacia emocional das crianças através de um alfabeto ilustrado. Otimista e cheia de ideias, a autora tem já outros projetos na manga.
Leia a entrevista que a autora nos concedeu. As emoções estão em todo o lado. Só temos de aprender a vivê-las.
Mais recentemente, o livro de estreia da autora deu origem ao Jogo de Tabuleiro com o mesmo nome e o objetivo comum de contribuir para a inteligência emocional. Com o novo livro ABC das Emoções, Elizabete Neves contribui para a literacia emocional das crianças através de um alfabeto ilustrado. Otimista e cheia de ideias, a autora tem já outros projetos na manga.
Leia a entrevista que a autora nos concedeu. As emoções estão em todo o lado. Só temos de aprender a vivê-las.
«É importante dar às crianças exemplos de situações que viveram para que compreendam as emoções.»
A sua formação é em Economia. O que a fez enveredar pela área do coaching?
O coaching surge numa altura da minha vida em que eu era diretora de uma empresa de formação e fui à procura de uma ferramenta para utilizar no meu trabalho. Encontrei não só essa ferramenta, mas também o desafio de olhar para mim mesma, de me questionar. Tinha uma filha pequena, de dois anos, e o tempo muito ocupado. Quando refleti sobre as prioridades na minha vida, apercebi-me de que não estava a fazer as coisas que eram mais importantes para mim. Um ano e meio depois, despedi-me, sem saber muito bem o que ia fazer, mas que teria de ser algo relacionado com a comunicação, com pessoas. Começaram a surgir oportunidades, até no centro de formação onde fiz o curso de coaching. E, a partir daí, foi um caminho sem retorno [risos].
Quais são os autores que mais a inspiram no seu dia a dia?
Gosto de muitos autores. Nesta área em especial, o Daniel Goleman, com o livro Inteligência Emocional. Falaram-me sobre António Damásio, e comecei a lê-lo. O Daniel Siegel, que fala sobre O Cérebro da Criança, é para mim uma inspiração pela forma como consegue explicar coisas, que a neurociência descobriu, de uma forma prática e acessível, para podermos aplicar esses ensinamentos no dia a dia.
E na área infantil, quais são os seus escritores ou livros favoritos?
Gosto de autores de livros infantis como O Dia em que os Lápis Desistiram, de Drew Daywalt e Oliver Jeffers, em que as histórias e as ilustrações são muito interessantes. Sou muito levada a comprar livros pela ilustração. Também gosto muito do Rocio Bonilla, autor de livros como De que Cor é um Beijinho?, mas não tenho um autor favorito.
Ao longo da sua vida, houve um escritor que a tenha marcado especialmente?
Sim. Um dos que mais me marcou foi Oscar Wilde, com O Retrato de Dorian Gray, que li quando tinha 18 anos. O Pincipezinho é um livro intemporal e que gosto muito de ler, pois tem aquela lembrança de que «não devemos deixar de ver quem somos». Penso muitas vezes nisto e leio o livro aos meus filhos nessa ótica. Gostei muito de ler Só Avança Quem Descansa, de Vasco Pinto Magalhães, um livro muito pequeno, mas que teve um impacto enorme na minha vida. Quando fiz a formação de coaching, o livro que mais me impactou foi O Poder do Agora, de Eckhart Tolle, que me trouxe uma perspetiva muito diferente das coisas.
Foi a sua experiência enquanto mãe que a levou a escrever O Novelo de Emoções. Escreveu-o como se falasse com a sua filha?
Sim. Muitas pessoas referem-me que a linguagem não é muito infantil, o que corresponde ao que faço com os meus filhos, porque acho que não têm de aprender a sua língua duas vezes. Mas, ao mesmo tempo, tinha de escrever de uma forma muito clara. A minha filha era a pessoa que eu imaginava à minha frente, para escrever, foi ela a primeira pessoa a quem li O Novelo de Emoções e percebi que aquilo fez muito sentido para ela.
Como surgiu a colaboração com a ilustradora Natalina Cóias? A conceção das ilustrações foi feita por si e por ela em conjunto? O resultado foi o que imaginou?
A Porto Editora apresentou-me alguns ilustradores e eu escolhi, entre os portfolios que me foram apresentados, A Natalina Cóias, por ela ser um bocadinho diferente, com um trabalho menos digital. A Natalina perguntou-me o que é que eu tinha na mente quando escrevi o livro. O que eu lhe disse foi que a Marta era uma menina e que eu queria que as crianças se identificassem com ela, com o imaginário que ela transmite, além dos novelos e da integração os símbolos da ColorADD no livro, de uma forma natural – daí as etiquetas da ColorADD terem sido introduzidas na imagem dos fios dos novelos de lã. Tinha também uma grande questão: o que seria o Sukha (cujo nome vem do sânscrito e significa «felicidade permanente»), a personagem secundária? Eu disse à Natalina que não queria que fosse um adulto, para não dar a ideia de que os adultos sabem tudo, nem uma criança, para não tirar protagonismo à Marta. E a Natalina, que gosta muito de origami, teve a ideia de que fosse um pássaro, inspirado no tsuru, uma ave considerada sagrada no Japão e que simboliza a felicidade. Eu achei fantástica essa ideia.
Ficou surpreendida com o resultado das ilustrações?
Quando vi os exemplares em formato grande, confesso que me emocionei, com todos os detalhes que se percebem ao ver as provas originais. Nunca imaginei que ficasse assim. Foi maravilhoso, mesmo.
É importante dar exemplos concretos e simples de situações vividas pelas crianças para que elas percebam bem o que significam as emoções?
Sim. O livro tem uma estrutura: a identificação da emoção; a mensagem que a emoção nos quer transmitir; o efeito que ela faz no corpo; e, finalmente, a forma como a criança integra tudo isto. E consegue fazê-lo com alguma experiência que ela vivenciou. Eu queria dar um exemplo à criança, com o qual ela se pudesse identificar e, ao mesmo tempo, inserir um diálogo que abrisse todo um novo leque de possibilidades .
Teve a preocupação de passar essa estrutura para O Novelo de Emoções – Biblioteca de Emoções, em que a história original se desdobra em 5 livros.
A Biblioteca das Emoções surge mesmo no desenrolar que é dado no final da narrativa de cada uma das emoções. Na ida às escolas, uma das coisas que eu fazia era conversar com as crianças sobre as suas emoções. Comecei então a perceber que havia uma necessidade de recursos para dar respostas à pergunta «E o que é que vocês podem fazer?», para ajudar as crianças a lidarem com os efeitos das emoções.
Tinha de haver uma continuidade. Se queremos trabalhar a inteligência emocional, o primeiro passo é o autoconhecimento. Eu tenho de saber que existem as emoções, mas também ser capaz de as reconhecer em mim. Mas, a seguir, tenho de conseguir fazer algo com elas. E aí entra o segundo pilar da inteligência emocional: a autorregulação.
O Novelo de Emoções faz parte da lista de livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura, para crianças entre os 3 e os 9 anos de idade. Faz sessões de leitura do livro na escola. Como reagem as crianças?
As sessões são maravilhosas, duram de 45 minutos a uma hora, em que os miúdos estão realmente presentes. Eu vou lendo o livro e fazendo-lhes perguntas, e noto neles um sentimento de «eu estou a ser visto, alguém reconhece o que eu sinto e que não sei explicar». No fim, recebo um mar de abraços, porque há essa necessidade de contacto.
As situações que me marcam mais são aquelas em que as crianças me dizem coisas como: «mas eu, em casa, não posso chorar; os meus pais dizem que quem chora são os bebés», ou «mas eu não posso pedir ajuda, porque me dizem que o medo não existe». É o que mais me choca, pois é quase um grito de socorro. Por um lado, as crianças sabem que o que o livro diz é verdade, sentem aquilo, mas depois não têm adultos que os acompanhem. Mas acaba por ser um espelho daquilo que ainda temos de fazer, em termos de sociedade, para normalizar o sentir as emoções. Se queremos ensinar inteligência emocional, temos de ser emocionalmente inteligentes. Pelo menos, temos, enquanto adultos, de ser capazes de criar um porto seguro, em que as crianças possam exprimir as emoções. Queremos protegê-los, não queremos que sintam raiva, medo, frustração, tristeza, e queremos resolver as coisas rapidamente, mas isto acaba por abafar emoções que irão acabar por ressurgir, normalmente na adolescência.
Neste livro é atribuída uma cor a cada emoção e, embora tal seja baseado na teoria do psicólogo americano Paul Ekman, nem sempre as pessoas atribuem o mesmo significado emotivo às mesmas cores. As crianças manifestam essa constatação?
Sim, e adoro quando as crianças me colocam essa questão. O que eu lhes explico é que há estudos – como A Psicologia das Cores – que demonstram que há uma maioria que se identifica certas emoções com certas cores, o que não quer dizer que seja igual para todos, porque somos seres únicos. Costumo explicar essa questão com a cor vermelha, associada à raiva, uma das emoções mais maltratadas, porque as pessoas não gostam de lidar com a raiva, e abafam-na. Pergunto-lhes de que cor é a raiva e respondem-me «vermelho», mas acrescento que há outra emoção (ou sentimento) associado a essa cor, e as crianças dizem: «é o amor!». E tudo está bem.
Até porque há outra elação muito importante que se pode retirar do seu livro – aprender a identificar as emoções, para além da associação destas a cores…
Sim. Nós aprendemos por imagens, por associações, o que explica que há crianças, não só do nível pré-escolar como do nível primário, que começam a comunicar em casa pelas cores – dizendo por exemplo «mãe, estou a ficar vermelho», em vez de «estou a ficar zangado». Esta é uma solução para comunicar esses sentimentos, mas que não tem de ser vinculativa. As educadoras até podem começar a trabalhar as cores com a crianças desta forma. Já vi educadoras que, com as cinco emoções base, as dividem, em sentimentos, e vão trabalhando cores. A ideia é que este seja um recurso para trabalhar a literacia emocional.
Sente que a abordagem dos agentes educativos à inteligência emocional, à disciplina positiva, e à comunicação não violenta, tem vindo a melhorar no nosso país? Ou continua a valorizar-se mais o quociente de inteligência do que a inteligência emocional?
Há aqui duas questões. Por um lado, a questão da inteligência emocional tem sido vista como apenas como dar nome às emoções. Eu costumo dizer que se trata da alfabetização emocional, mas é preciso irmos muito mais além, viver as emoções e encontrar recursos para tal. E, na verdade, eu não encontro muitos adultos disponíveis para fazer este caminho.
Por outro lado, há uma maior sensibilização para a inteligência emocional, uma maior abertura. As pessoas começam a perceber que há outras formas de educar, de mudar comportamentos, que são muito mais eficientes – como a automotivação da criança, em vez de lhe incutir medo. O sistema educativo ainda está muito impregnado em nós, e somos talvez a primeira geração que começa a olhar para as emoções e a dar-lhes o seu verdadeiro lugar e importância. Mas depois entramos num conflito interno, pois isto nunca foi feito e não sabemos como vai resultar. Por um lado, quer-se valorizar a inteligência emocional e tirar preponderância ao QI; mas, quando surgem obstáculos, vamos pela via que já conhecemos.
O ensino obrigatório (e não só) baseia-se muito nos apontamentos da matéria, em decorar. Mas a nova geração, que tem acesso a mais informação, começa a questionar mais as ideias a trabalhar. Isso pode ser um passo para uma melhor aprendizagem?
Há cada vez mais estudos que demonstram que aquilo que tem um peso maior no sucesso na vida adulta não é tanto o conhecimento técnico que se aprendeu ao longo do percurso, mas sim as competências. O mercado quer pessoas que saibam trabalhar em equipa, que tenham pensamento crítico, que questionem a melhor solução, que tenham autonomia. Ao longo de 12 anos na escola, isto não era permitido. Os jovens que chegam ao mercado de trabalho e que levam estas competências, que são desenvolvidas com base na inteligência emocional, são capazes do resto. Isto não quer dizes que se desvalorize as competências técnicas, mas tem de haver um equilíbrio.
A inclusão do Código ColorADD na última página do livro, atribuindo um símbolo a cada cor, visou ajudar à inserção social das crianças com daltonismo. Já pensou, também, em fazer uma versão áudio do livro, um audioBook O Novelo de Emoções para crianças invisuais?
Quando O Novelo de Emoções saiu, houve uma colega que me lançou esse desafio, mas depois não avançou. Mas penso nesse projeto, porque este é um conteúdo que tem de chegar a todas as pessoas.
Depois de ter originado as versões O Novelo de Emoções para os Mais Pequeninos e Biblioteca de Emoções, o livro O Novelo de Emoções foi recentemente adaptado para Jogo de Tabuleiro. Pode explicar-nos o objetivo do jogo?
Este jogo foi criado com o intuito de ajudar pais e educadores a trabalharem as emoções das crianças – são elas que o vão jogar, mas este tem um potencial de aprendizagem muito grande. O jogo tem perguntas, mímicas e desenhos; pode ser jogado por apenas duas pessoas ou com grupos até 25 crianças; tanto pode ser jogado em casa, em família, como em contextos alargados; e tem duas vertentes: uma de competição e outra de colaboração. No jogo, a Marta precisa de organizar emoções, e vai numa missão para encontrar os novelos que se identificam com o que ela está a sentir. Tem perguntas mais diferenciadoras, com o objetivo de trazer informação sobre emoções aos jogadores.
Lançou recentemente o Livro ABC das Emoções, também para crianças. O que traz este livro?
Tem a ver com a literacia emocional, com dar a conhecer sentimentos – este é um trabalho que tem de ser feito: as crianças têm de ter um léxico bastante largo de vocabulário emocional. Em formações que dou a adultos, peço-lhes que listem, num minuto, o maior número de emoções que vivem durante um dia, e estes raramente chegam às 10 emoções, quando nós mudamos de emoção a cada 6 segundos. Nós não temos vocabulário para distinguir emoções (zangado, irritado e furioso, por exemplo, que são vários níveis de uma emoção) e isso é importantíssimo: quanto maior é o vocabulário de uma criança, menor é a possibilidade de conflito, porque ela se sente mais capaz de comunicar, e o seu interlocutor se sente mais capaz de compreender.
Tem outros projetos de livros em vista que queira partilhar connosco?
Sim, está também em processamento um livro para adultos, sobre inteligência emocional. Tomos sabemos o que são as emoções, mas falta-nos compreender o papel delas, o impacto que elas têm na nossa vidam e como poder utilizá-las e vivê-las. Não temos de controlar as nossas emoções ao ponto de as reprimirmos. Temos, sim de ser capazes de comunicar com aquela emoção, dizer ao outro o que estamos a sentir, de forma adequada, com a intensidade certa, no momento certo. Isso é que é difícil de fazer, mas isso é inteligência emocional.
O coaching surge numa altura da minha vida em que eu era diretora de uma empresa de formação e fui à procura de uma ferramenta para utilizar no meu trabalho. Encontrei não só essa ferramenta, mas também o desafio de olhar para mim mesma, de me questionar. Tinha uma filha pequena, de dois anos, e o tempo muito ocupado. Quando refleti sobre as prioridades na minha vida, apercebi-me de que não estava a fazer as coisas que eram mais importantes para mim. Um ano e meio depois, despedi-me, sem saber muito bem o que ia fazer, mas que teria de ser algo relacionado com a comunicação, com pessoas. Começaram a surgir oportunidades, até no centro de formação onde fiz o curso de coaching. E, a partir daí, foi um caminho sem retorno [risos].
Quais são os autores que mais a inspiram no seu dia a dia?
Gosto de muitos autores. Nesta área em especial, o Daniel Goleman, com o livro Inteligência Emocional. Falaram-me sobre António Damásio, e comecei a lê-lo. O Daniel Siegel, que fala sobre O Cérebro da Criança, é para mim uma inspiração pela forma como consegue explicar coisas, que a neurociência descobriu, de uma forma prática e acessível, para podermos aplicar esses ensinamentos no dia a dia.
O Novelo de Emoções, o livro de estreia de Elizabete Neves.
Gosto de autores de livros infantis como O Dia em que os Lápis Desistiram, de Drew Daywalt e Oliver Jeffers, em que as histórias e as ilustrações são muito interessantes. Sou muito levada a comprar livros pela ilustração. Também gosto muito do Rocio Bonilla, autor de livros como De que Cor é um Beijinho?, mas não tenho um autor favorito.
Ao longo da sua vida, houve um escritor que a tenha marcado especialmente?
Sim. Um dos que mais me marcou foi Oscar Wilde, com O Retrato de Dorian Gray, que li quando tinha 18 anos. O Pincipezinho é um livro intemporal e que gosto muito de ler, pois tem aquela lembrança de que «não devemos deixar de ver quem somos». Penso muitas vezes nisto e leio o livro aos meus filhos nessa ótica. Gostei muito de ler Só Avança Quem Descansa, de Vasco Pinto Magalhães, um livro muito pequeno, mas que teve um impacto enorme na minha vida. Quando fiz a formação de coaching, o livro que mais me impactou foi O Poder do Agora, de Eckhart Tolle, que me trouxe uma perspetiva muito diferente das coisas.
Foi a sua experiência enquanto mãe que a levou a escrever O Novelo de Emoções. Escreveu-o como se falasse com a sua filha?
Sim. Muitas pessoas referem-me que a linguagem não é muito infantil, o que corresponde ao que faço com os meus filhos, porque acho que não têm de aprender a sua língua duas vezes. Mas, ao mesmo tempo, tinha de escrever de uma forma muito clara. A minha filha era a pessoa que eu imaginava à minha frente, para escrever, foi ela a primeira pessoa a quem li O Novelo de Emoções e percebi que aquilo fez muito sentido para ela.
Como surgiu a colaboração com a ilustradora Natalina Cóias? A conceção das ilustrações foi feita por si e por ela em conjunto? O resultado foi o que imaginou?
A Porto Editora apresentou-me alguns ilustradores e eu escolhi, entre os portfolios que me foram apresentados, A Natalina Cóias, por ela ser um bocadinho diferente, com um trabalho menos digital. A Natalina perguntou-me o que é que eu tinha na mente quando escrevi o livro. O que eu lhe disse foi que a Marta era uma menina e que eu queria que as crianças se identificassem com ela, com o imaginário que ela transmite, além dos novelos e da integração os símbolos da ColorADD no livro, de uma forma natural – daí as etiquetas da ColorADD terem sido introduzidas na imagem dos fios dos novelos de lã. Tinha também uma grande questão: o que seria o Sukha (cujo nome vem do sânscrito e significa «felicidade permanente»), a personagem secundária? Eu disse à Natalina que não queria que fosse um adulto, para não dar a ideia de que os adultos sabem tudo, nem uma criança, para não tirar protagonismo à Marta. E a Natalina, que gosta muito de origami, teve a ideia de que fosse um pássaro, inspirado no tsuru, uma ave considerada sagrada no Japão e que simboliza a felicidade. Eu achei fantástica essa ideia.
Ficou surpreendida com o resultado das ilustrações?
Quando vi os exemplares em formato grande, confesso que me emocionei, com todos os detalhes que se percebem ao ver as provas originais. Nunca imaginei que ficasse assim. Foi maravilhoso, mesmo.
É importante dar exemplos concretos e simples de situações vividas pelas crianças para que elas percebam bem o que significam as emoções?
Sim. O livro tem uma estrutura: a identificação da emoção; a mensagem que a emoção nos quer transmitir; o efeito que ela faz no corpo; e, finalmente, a forma como a criança integra tudo isto. E consegue fazê-lo com alguma experiência que ela vivenciou. Eu queria dar um exemplo à criança, com o qual ela se pudesse identificar e, ao mesmo tempo, inserir um diálogo que abrisse todo um novo leque de possibilidades .
«Se queremos trabalhar a inteligência emocional, o primeiro passo é o autoconhecimento.»
Teve a preocupação de passar essa estrutura para O Novelo de Emoções – Biblioteca de Emoções, em que a história original se desdobra em 5 livros.
A Biblioteca das Emoções surge mesmo no desenrolar que é dado no final da narrativa de cada uma das emoções. Na ida às escolas, uma das coisas que eu fazia era conversar com as crianças sobre as suas emoções. Comecei então a perceber que havia uma necessidade de recursos para dar respostas à pergunta «E o que é que vocês podem fazer?», para ajudar as crianças a lidarem com os efeitos das emoções.
Tinha de haver uma continuidade. Se queremos trabalhar a inteligência emocional, o primeiro passo é o autoconhecimento. Eu tenho de saber que existem as emoções, mas também ser capaz de as reconhecer em mim. Mas, a seguir, tenho de conseguir fazer algo com elas. E aí entra o segundo pilar da inteligência emocional: a autorregulação.
O Novelo de Emoções faz parte da lista de livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura, para crianças entre os 3 e os 9 anos de idade. Faz sessões de leitura do livro na escola. Como reagem as crianças?
As sessões são maravilhosas, duram de 45 minutos a uma hora, em que os miúdos estão realmente presentes. Eu vou lendo o livro e fazendo-lhes perguntas, e noto neles um sentimento de «eu estou a ser visto, alguém reconhece o que eu sinto e que não sei explicar». No fim, recebo um mar de abraços, porque há essa necessidade de contacto.
As situações que me marcam mais são aquelas em que as crianças me dizem coisas como: «mas eu, em casa, não posso chorar; os meus pais dizem que quem chora são os bebés», ou «mas eu não posso pedir ajuda, porque me dizem que o medo não existe». É o que mais me choca, pois é quase um grito de socorro. Por um lado, as crianças sabem que o que o livro diz é verdade, sentem aquilo, mas depois não têm adultos que os acompanhem. Mas acaba por ser um espelho daquilo que ainda temos de fazer, em termos de sociedade, para normalizar o sentir as emoções. Se queremos ensinar inteligência emocional, temos de ser emocionalmente inteligentes. Pelo menos, temos, enquanto adultos, de ser capazes de criar um porto seguro, em que as crianças possam exprimir as emoções. Queremos protegê-los, não queremos que sintam raiva, medo, frustração, tristeza, e queremos resolver as coisas rapidamente, mas isto acaba por abafar emoções que irão acabar por ressurgir, normalmente na adolescência.
«Os adultos têm de ser capazes de dar às crianças um porto seguro, onde estas possam exprimir as suas emoções.»
Neste livro é atribuída uma cor a cada emoção e, embora tal seja baseado na teoria do psicólogo americano Paul Ekman, nem sempre as pessoas atribuem o mesmo significado emotivo às mesmas cores. As crianças manifestam essa constatação?
Sim, e adoro quando as crianças me colocam essa questão. O que eu lhes explico é que há estudos – como A Psicologia das Cores – que demonstram que há uma maioria que se identifica certas emoções com certas cores, o que não quer dizer que seja igual para todos, porque somos seres únicos. Costumo explicar essa questão com a cor vermelha, associada à raiva, uma das emoções mais maltratadas, porque as pessoas não gostam de lidar com a raiva, e abafam-na. Pergunto-lhes de que cor é a raiva e respondem-me «vermelho», mas acrescento que há outra emoção (ou sentimento) associado a essa cor, e as crianças dizem: «é o amor!». E tudo está bem.
Até porque há outra elação muito importante que se pode retirar do seu livro – aprender a identificar as emoções, para além da associação destas a cores…
Sim. Nós aprendemos por imagens, por associações, o que explica que há crianças, não só do nível pré-escolar como do nível primário, que começam a comunicar em casa pelas cores – dizendo por exemplo «mãe, estou a ficar vermelho», em vez de «estou a ficar zangado». Esta é uma solução para comunicar esses sentimentos, mas que não tem de ser vinculativa. As educadoras até podem começar a trabalhar as cores com a crianças desta forma. Já vi educadoras que, com as cinco emoções base, as dividem, em sentimentos, e vão trabalhando cores. A ideia é que este seja um recurso para trabalhar a literacia emocional.
Sente que a abordagem dos agentes educativos à inteligência emocional, à disciplina positiva, e à comunicação não violenta, tem vindo a melhorar no nosso país? Ou continua a valorizar-se mais o quociente de inteligência do que a inteligência emocional?
Há aqui duas questões. Por um lado, a questão da inteligência emocional tem sido vista como apenas como dar nome às emoções. Eu costumo dizer que se trata da alfabetização emocional, mas é preciso irmos muito mais além, viver as emoções e encontrar recursos para tal. E, na verdade, eu não encontro muitos adultos disponíveis para fazer este caminho.
Por outro lado, há uma maior sensibilização para a inteligência emocional, uma maior abertura. As pessoas começam a perceber que há outras formas de educar, de mudar comportamentos, que são muito mais eficientes – como a automotivação da criança, em vez de lhe incutir medo. O sistema educativo ainda está muito impregnado em nós, e somos talvez a primeira geração que começa a olhar para as emoções e a dar-lhes o seu verdadeiro lugar e importância. Mas depois entramos num conflito interno, pois isto nunca foi feito e não sabemos como vai resultar. Por um lado, quer-se valorizar a inteligência emocional e tirar preponderância ao QI; mas, quando surgem obstáculos, vamos pela via que já conhecemos.
«Somos, talvez, a primeira geração que começa a olhar para as emoções e a dar-lhes o seu verdadeiro lugar e importância.»
O ensino obrigatório (e não só) baseia-se muito nos apontamentos da matéria, em decorar. Mas a nova geração, que tem acesso a mais informação, começa a questionar mais as ideias a trabalhar. Isso pode ser um passo para uma melhor aprendizagem?
Há cada vez mais estudos que demonstram que aquilo que tem um peso maior no sucesso na vida adulta não é tanto o conhecimento técnico que se aprendeu ao longo do percurso, mas sim as competências. O mercado quer pessoas que saibam trabalhar em equipa, que tenham pensamento crítico, que questionem a melhor solução, que tenham autonomia. Ao longo de 12 anos na escola, isto não era permitido. Os jovens que chegam ao mercado de trabalho e que levam estas competências, que são desenvolvidas com base na inteligência emocional, são capazes do resto. Isto não quer dizes que se desvalorize as competências técnicas, mas tem de haver um equilíbrio.
A inclusão do Código ColorADD na última página do livro, atribuindo um símbolo a cada cor, visou ajudar à inserção social das crianças com daltonismo. Já pensou, também, em fazer uma versão áudio do livro, um audioBook O Novelo de Emoções para crianças invisuais?
Quando O Novelo de Emoções saiu, houve uma colega que me lançou esse desafio, mas depois não avançou. Mas penso nesse projeto, porque este é um conteúdo que tem de chegar a todas as pessoas.
Depois de ter originado as versões O Novelo de Emoções para os Mais Pequeninos e Biblioteca de Emoções, o livro O Novelo de Emoções foi recentemente adaptado para Jogo de Tabuleiro. Pode explicar-nos o objetivo do jogo?
Este jogo foi criado com o intuito de ajudar pais e educadores a trabalharem as emoções das crianças – são elas que o vão jogar, mas este tem um potencial de aprendizagem muito grande. O jogo tem perguntas, mímicas e desenhos; pode ser jogado por apenas duas pessoas ou com grupos até 25 crianças; tanto pode ser jogado em casa, em família, como em contextos alargados; e tem duas vertentes: uma de competição e outra de colaboração. No jogo, a Marta precisa de organizar emoções, e vai numa missão para encontrar os novelos que se identificam com o que ela está a sentir. Tem perguntas mais diferenciadoras, com o objetivo de trazer informação sobre emoções aos jogadores.
Lançou recentemente o Livro ABC das Emoções, também para crianças. O que traz este livro?
Tem a ver com a literacia emocional, com dar a conhecer sentimentos – este é um trabalho que tem de ser feito: as crianças têm de ter um léxico bastante largo de vocabulário emocional. Em formações que dou a adultos, peço-lhes que listem, num minuto, o maior número de emoções que vivem durante um dia, e estes raramente chegam às 10 emoções, quando nós mudamos de emoção a cada 6 segundos. Nós não temos vocabulário para distinguir emoções (zangado, irritado e furioso, por exemplo, que são vários níveis de uma emoção) e isso é importantíssimo: quanto maior é o vocabulário de uma criança, menor é a possibilidade de conflito, porque ela se sente mais capaz de comunicar, e o seu interlocutor se sente mais capaz de compreender.
Tem outros projetos de livros em vista que queira partilhar connosco?
Sim, está também em processamento um livro para adultos, sobre inteligência emocional. Tomos sabemos o que são as emoções, mas falta-nos compreender o papel delas, o impacto que elas têm na nossa vidam e como poder utilizá-las e vivê-las. Não temos de controlar as nossas emoções ao ponto de as reprimirmos. Temos, sim de ser capazes de comunicar com aquela emoção, dizer ao outro o que estamos a sentir, de forma adequada, com a intensidade certa, no momento certo. Isso é que é difícil de fazer, mas isso é inteligência emocional.