Entrevista ao professor Eduardo Sá

"O brincar e a escola, a par da família, são o tripé da saúde mental". Aproveitámos o lançamento de Quem Nunca Morreu de Amor para entrevistar o professor Eduardo Sá. Leia aqui na íntegra.
Já morreu de amor?
Quem nunca morreu de amor?...

Lemos, no seu novo livro, Quem Nunca Morreu de Amor: “Talvez os livros que nos falam do amor sejam os mais perigosos entre os livros perigosos”. Este livro que escreveu é perigoso?
Como todos os livros que falam de amor, sim! Porque nos mexem por dentro. Porque interpelam e nos desafiam para a verdade das nossas relações. Porque nos levam a perguntar, a duvidar e a ousar pensar sobre todas elas, mesmo sobre aquelas que pareciam adormecidas ou sossegadas dentro de nós.
Entrevista a Eduardo Sá
Eduardo Sá


É claro que o “perigo” aqui é acompanhado com aspas, claro. Que representa uma forma quase desafiadora de sugerir: “Se pensa que ao colocar-se no lugar de alguma personagem de uma história de amor ou ao rever-se numa breve passagem de um ensaio sem se rever nas suas histórias, mesmo nas mais secretas, então não entre neste livro. Há sempre um livro “ao lado” mais sossegado onde se possa perder”. É claro que eu espero que as pessoas não resistam e entrem na história. E que, depois disso, se desarrumem se questionem ou se comovam. E que “morram de amor”. Talvez porque morrer de amor traz consigo a esperança de uma redenção amorosa que representa, rigorosamente, o contrário de “morrer para a vida”.

E os anteriores?

Tenho para mim que os livros que nos trazem de volta ao melhor de nós são, todos eles, um bocadinho “perigosos”. Porque ao tocarem-nos por dentro levam a que nos folheemos com eles. Os livros “despenteiam-nos” a cabeça e o coração. Levam a pensar. E, dessa forma, ajudam a que nos compreendamos nalgum recanto deles onde acabamos por nos rever. O “perigo dos livros” é esse: desafiarem-nos a rescrever aquilo que parecia escrito e terminado. Se terei conseguido isso nalguns momentos ou com alguém, por causa de alguma coisa que tenha escrito, fico mesmo muito contente com isso. Do que eu realmente gostava era de ser “perigoso” mais vezes...

Psicólogo clínico, psicanalista, professor, escritor e pai de 6 filhos. Como tem tempo para isto tudo?
Num destes dias, dei-me conta que começamos a morrer quando aquilo que vivemos não cabe na vida toda que temos para lhe dar. Eu acho que aprendemos a lidar com o tempo à medida que o perdemos. Ou, melhor, à medida em que descobrimos que escolher é uma forma de reconhecermos que não conseguimos ter tudo. Daí que fazer tudo aquilo de que fala se consegue com disciplina. Por ensaio e erro. À medida em que as escolhas que se fazem nos ajudam a conciliar aquilo que queremos viver com toda a vida que temos para lhe dar.

Qual é a sua rotina de escrita?
Escrever todos os dias, de preferência. Se a rotina dos dias não for atropelando a escrita.

Numa entrevista ao ionline, defendeu que “a escola é a invenção mais bonita da humanidade” e que “brincar devia ser património da humanidade”. Estas ideias estão presentes em todos os seus livros. Pode explicar um pouco melhor cada uma delas?
Ao contrário da família, que resulta da nossa inequívoca fragilidade e do engenho de transformarmos uma necessidade em amor, a escola é um exercício da mais inequívoca bondade humana. No sentido de nos tornar a todos, dentro do possível, iguais e livres, e assim repartir os privilégios que o conhecimento traz por mais pessoas. A escola para todos e por tantos anos quanto for possível é aquilo que faz com que a Humanidade insista, com determinação, em ser humana. E, sendo assim, a escola mais do que o reservatório onde a democracia se reinventa, é o incansável laboratório da Humanidade. Por isso mesmo, a escola não pode permanecer numa deriva tecnocrática onde as crianças parecem conviver com crescer sossegadinhos e calados. E lhes damos cargas absurdas de trabalho, sobretudo em função de rankings e de metas. Sem uma ideia clara do que se pretende da escola. Mas com o propósito de a transformar num local onde elas pareçam dever estar sossegadinhas e caladas. Sem direito a correr. Sem direito a brincar. Sem direito à algazarra. Sem direito a terem tempo para ser crianças. Daí que nunca é demais recordar que quem não brinca não aprende. Quem não brinca engasga a imaginação, porque nunca se pensa contra o corpo. Quem não brinca não ama! Por tudo isto, o brincar e a escola, a par da família, são o tripé da saúde mental. Ser amigo do brincar não implica ser adversário da escola. Todavia, este modelo de escola em que vivemos está moribundo, receio. Precisa de ser reinventado. De forma a que família, escola e brincar sejam mais do que um património da Humanidade. Mas sejam, em conjunto, A Casa da Humanidade.

Na mesma entrevista admite que ser mediático foi um acidente. Como é que isso aconteceu?
Assim mesmo. Sem querer. Depois da Isabel Stilwell e da Laurinda Alves me terem trazido para duas revistas - a Notícia Magazine e a Xis - e de eu ter aprendido a escrever em 1000 caracteres aquilo que eu achava impossível de escrever em menos de 15000. E de eu ser obrigado a transformar um discurso mais científico numa linguagem séria, mas simples e clara, que mais pessoas entendessem. Depois, foi o contacto com as pessoas que a matizou e a fez crescer. Foi um acidente pelo qual eu tenho, como imagina, uma imensa gratidão. Às vezes, pergunto-me o que teria sido a minha vida sem esta parte de mim. E não a consigo imaginar sem isso. Não é pelo mediatismo, acredite, mas pela exigência permanente que isso me traz a sufrágio com o que me obriga a crescer.

                                            “É bom que as crianças brinquem mais do que estudam”

  • “É bom que as crianças mintam.
    É bom que resistam à sopa e que resmunguem de manhã.
    É bom que as crianças brinquem mais do que estudam.
    É bom que as crianças desmanchem as coisas para as arrumarem, de seguida. E que sonhem acordadas.
    E que tenham más maneiras para os pais.
    Afinal, bons pais são aqueles que crescem com a ajuda das más maneiras dos filhos.”
    in Más Maneiras de Sermos Bons Pais”



Fruto das suas críticas às escolas e aos pais, tem sido também alvo de críticas por parte de pais e educadores. Como lida com as boas críticas? E com as más?
Com reconhecimento. Gosto quando me dizem que não concordam com certos aspectos daquilo que digo. Porque eu gosto de escutar, claro. Mas gosto de interpelar. De desafiar para pensar. De provocar, também. As críticas ajudam a crescer. Sempre. Mesmo quando as sentimos com arestas ou quando são injustas. Mesmo quando são reacções a textos irónicos como aquele que refere.

Sente que muitos pais e educadores alteraram a sua forma de ensinar depois de lerem os seus livros?
Sinto uma enorme responsabilidade quando são cuidadosos e gratos comigo. Porque, de repente, as pessoas deixam de ser uma abstração que estará do outro lado de um texto. Têm um rosto. Escutaram-me com uma seriedade que me deixa entre o muito sensibilizado e o quase assustado. E com isso dão-me mais motivos para que seja humilde e exigente em tudo aquilo que encontre para corresponder ao carinho que recebo delas. Por tudo isso, tenho esperança que aquilo que lêem as ajude tanto quanto aquilo que elas me dão me tem ajudado.

Há um provérbio que diz: “A criança que lê é o adulto que pensa”. Está de acordo? Porquê?
Sem dúvida que sim. Com a particularidade de o adulto que pensa representar a criança que nunca se desencontrou da sua infância.

A escritora Isabel Stilwell escreveu o seguinte sobre si: "Há pessoas sem prazo de validade. E é por isso que quando escrevem, esses textos também ficam para sempre. Podemos lê-los hoje ou amanhã, duas horas antes das refeições ou deitados num sofá, e tocam-nos sempre. E alargam-nos os neurónios, e fazem melhor à alma do que as vitaminas. E às vezes dão-nos, finalmente, a autorização de que precisávamos para chorar. Outras fazem-nos desconfiar: "De onde é que este tipo me conhece?" Mas valem sempre a pena ler, porque quando se faz ginástica com a linha do horizonte e a curvamos à nossa medida encontramos o Eduardo Sá." O que é que os livros lhe dão para que não pare de escrever?
A Isabel, como sabe, é suspeita. É a minha sócia! A minha grande, grande amiga. Mas tomando como minha a imagem com que ela me presenteou, talvez possa dizer que os livros me dão a oportunidade de fazer ginástica com a linha do horizonte, tentando curvá-la à medida de cada pessoa que os lê.

Sabemos que está a preparar o lançamento de uma nova plataforma que vai para o ar a 30 de outubro. Pode falar-nos um pouco mais sobre este projeto?
A plataforma digital chama-se eduardosa.com. É composta por seis blogs diferentes. Nela irão poder-se encontrar todos os meus textos (alguns em repositório) e conteúdos novos (como vídeos, por exemplo), todas as semanas. Tem sido, apesar do período de instalação que definimos até Janeiro, uma surpresa fantástica. Com uma interatividade inimaginável, alargada a todos os continentes.

Escrever dá energia ou tira energia?
Escrever estende, alarga e aprofunda a vida. Dá energia. Sempre!

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Jorge Luís Borges. E Fernando Pessoa. (Posso escolher dois?…)

Se tivesse um superpoder, qual seria?
Teletransportar-me. Para estar com todas as pessoas importantes para mim, ao mesmo tempo.

Com o Natal à porta, qual é, na sua opinião, o melhor presente que se pode dar a uma criança?
Aquele que os pais, depois de escutarem, intimamente, os seus desejos, adivinham como o desejo dos desejos. Que se for assim, será a melhor demonstração do quanto e do como uma criança está presente (com ponto de exclamação, claro) bem dentro deles.

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