Entrevista a Lucas Rodrigues @lucaswithstrangers

15 de julho de 2022
Aos 22 anos, Lucas Rodrigues, que se tornou conhecido como o tiktoker que realiza desejos, sente-se encaixado no sítio onde é suposto estar e está muito feliz com isso. Rege a sua vida por dois lemas fundamentais: «if it’s to be, it’s up to me» e «segue os teus sonhos, independentemente do que os outros digam». Se assim é, teve de fazer por isso. Há dois anos transformou um episódio traumático da sua vida em garra para enfrentar o mundo, não com ressentimento, mas, literalmente, abraçando-o, de mente aberta.
Lucas Rodrigues
Lucas Rodrigues
Tudo começou quando saiu para a rua num dia chuvoso e se ofereceu para abrigar desconhecidos com o seu guarda-chuva. Depois, passou de falar com estranhos a abraçá-los. Para registar esses encontros, fazia polaroids que guardava no seu diário, onde registava as histórias que ia vivendo. Até ao dia em que decidiu que queria ajudar a mudar o dia – ou a vida – das pessoas com que se cruzava para melhor, perguntando-lhes: «Como é que te posso fazer feliz?».

Despido de preconceitos e com uma vontade de viver renovada, começou a fazer pequenos vídeos dessas histórias e a publicá-los no TikTok e no Instagram. O resultado? Mais do que ter sucesso como influencer – conta com quase 2 milhões de seguidores, nas plataformas TikTok, Instagram e Twitter – conseguiu criar uma comunidade de pessoas à volta do seu projeto, Lucas With Strangers, que se juntam para o ajudar a melhorar a vida de pessoas que, realmente, precisam desse apoio.

Por ocasião do pré-lançamento, aqui na Wook, do livro onde nos conta as histórias mais marcantes do seu projeto, entrevistamos este rapaz de voz doce, que sorri com vontade e fala com convicção. Lucas sabe o que quer da vida e trabalha para o conseguir. Depois de o termos conhecido, queremos que continue assim, com aquele brilho nos olhos que lhe vimos.

Nas linhas que se seguem conta-nos o que a vida lhe ensinou, mas nós também aprendemos. Quer ver?  
 
«Nós somos quase todos a mesma pessoa»


Abordas estranhos na rua de uma forma espontânea e genuína. Achas que é mais fácil abrirmo-nos a estranhos do que a pessoas que nos são próximas, como familiares?
Muita gente, principalmente em Portugal, não é muito assim. Nós temos uma cultura de família, círculos pequenos e não tanto com estranhos. Com o meu projeto quero incentivar as pessoas a irem lá fora, abraçarem estranhos e darem-se com toda a gente para que sejamos uma população mais unida.


Tu és mais do que aquilo que nos chega pelas redes sociais. Estudaste piano desde pequeno e até ias para uma ilha grega trabalhar como pianista antes de optares por te dedicares inteiramente ao projeto Lucas with strangers. Como te identificas, no teu âmago?
Eu sinto que sou mais do que qualquer rótulo que me possam pôr. E acho que todos nós somos mais do que os rótulos que nos tentam pôr de tiktoker, influencer, etc. Todas as definições nos limitam muito e uma das coisas que eu aprendi com este projeto é a dimensão gigante que as pessoas têm; cada pessoa é um mundo enorme.
Aquilo que me define é ser humano e nós todos somos muito iguais, com hobbies diferentes, mas somos todos quase a mesma pessoa.
Veja também em vídeo a nossa entrevista exclusiva a Lucas Rodrigues.


 
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Lucas with Strangers - Como é que te posso fazer feliz?, o livro de estreia de Lucas Rodrigues.
Esta experiência permitiu-te ultrapassar eventuais preconceitos que pudesses ter em relação a pessoas?
Toda a gente tem preconceitos, faz parte do cérebro humano. Nós criamos generalizações baseadas em pequenas experiências que tivemos. Todas as experiências que eu tinha com moradores de rua eram negativas, de me pedirem dinheiro, às vezes até chatearem um pouco, e depois percebi, com mais conversas, o lado humano das pessoas, que, tal como eu, têm sonhos e objetivos e muitas vezes capacidades até superiores a mim, de alcançar esses objetivos. Um dos exemplos foi o António, que eu incluí no livro, que é uma pessoa que simplesmente teve um acontecimento infeliz na vida dele e que acabou naquela situação [de toxicodependência e sem-abrigo]. Todos nós podemos parar lá um dia. Definitivamente, agora não julgo as pessoas pela capa e aprendi a vê-las mais a fundo.

Desististe da faculdade para te dedicares ao Lucas with Strangers?
Desisti da faculdade para, na altura, me dedicar a gestão, que era o que eu estava a estudar. Eu achava – e acho que estava certo – que ia aprender mais na vida real, na prática, a gerir uma empresa, do que aprender um conceito teórico na faculdade.


Tens algum sonho que gostasses de realizar ou acreditas que a vida se vai fazendo etapa a etapa?
Eu estou a viver o sonho. Eu estou a valorizar muito o ponto em que eu estou. Não consigo ver como é que a minha vida consegue ficar muito melhor a partir daqui e então eu estou só mesmo a tentar absorver. Eu estou a viver os sonhos que eu tinha há anos, de conseguir mudar o mundo um bocadinho para melhor, que acho que estou a conseguir e de me sentir confortável no mundo. Agora encontrei o meu sítio, estou aqui e acho que estou bem, estou encaixado no sítio onde é suposto estar e estou muito feliz com isso.


No teu livro contas que o teu pior pesadelo foi o início de um sonho. Onde foste buscar força para ver a vida de uma forma positiva, para não desistir, mesmo quando tudo corre mal?
Agora é fácil não desistir porque eu estou num ponto ótimo, já provei o bom da vida. Mas na altura eu não tinha muito que me motivasse, a não ser a esperança de que poderia ficar melhor. Agora eu tento transmitir isso às outras pessoas: a vida pode ficar melhor, mesmo a partir das piores situações, e só mesmo a esperança nos pode tirar delas.


Como acolheste o convite da Porto Editora de passar as tuas histórias para um livro?
Eu tenho um diário onde ponho polaroids e escrevo sobre o dia que aconteceu e sinto que as histórias que conto nos meus vídeos são muito curtinhas – 30 segundos de vídeo para histórias que às vezes demoram 5 meses a gravar, com muito trabalho. E acima de tudo não transmitem aquela dimensão humana que eu sinto ao gravar, essa quebra de preconceito. E eu quero mostrar mais sobre as pessoas que abordo. O livro não é sobre mim, é sobre as pessoas que fazem parte do projeto, para que os leitores possam também quebrar os seus preconceitos e saber mais sobre a origem das histórias e dos vídeos.



Acreditas que poderás motivar os teus seguidores a lerem mais?
Eu nem pensei muito nisso, mas espero que sim. Eu lia muito e foi uma prática que eu perdi um bocadinho até por estar tão ocupado com as redes socias. Espero, com o livro, ajudar quem leia o livro a encontrar um ponto intermédio, em que possa ver mais sobre as redes sociais e estar simultaneamente num meio que é muito mais enriquecedor culturalmente. Aprende-se muito mais a ler um livro do que a ver um vídeo no YouTube.
 
«Só eu posso mudar a minha vida, ninguém a vai mudar por mim»


Quais são os teus livros ou escritores favoritos?
Sinceramente são livros mais na área de negócios do que outra coisa. Um dos meus preferidos – e eu sei que ele é muito criticado – é o Robert Kiyosaky, que foi das primeiras introduções que eu tive à gestão e ao imobiliário e que mudaram a minha perceção do mundo dos negócios, numa abordagem mais simples. Permitiram-me perceber que eu também a poderia pôr em prática e ter poder para fazer a minha vida como eu quero.!
Outro autor muito importante para mim é o Brian Tracy. Numa altura em que eu estava mal, li os livros dele em formato Audiolivro, na realidade. Ele diz uma frase que me marcou muito, que é: «If it’s to be, it’s up to me», ou seja, «se vai acontecer, é para eu fazer acontecer» e transmitiu-me essa sensação de responsabilidade de que só eu posso mudar a minha vida, ninguém a vai mudar por mim. Quando eu estava naquela situação má, só eu é que me podia tirar de lá e isso deu-me muita força para não depender de ninguém.


No livro Lucas with Strangers – Como é que te posso fazer feliz? partilhas 13 histórias. Foi difícil escolher quais as que irias incluir e quais ficariam de fora?
O mais difícil nessa escolha é que as histórias estão sempre a aparecer. Já tenho duas histórias novas desde que acabei de escrever o livro e apetecia-me parar a impressão e incluí-las. Mas há sempre aquelas que me marcaram mais e com as quais as pessoas também poderão aprender algo.


Os teus seguidores nas redes sociais mostram como uma comunidade real, nascida online, pode ter força e impacto. Que boas ações é que o teu projeto já conseguiu despoletar noutras pessoas?
Ao postar uma story, quando eu tinha cerca de 2 mil seguidores, veio um seguidor de Lisboa trazer uma cadeira de rodas para oferecer ao Zé Manel. Foi o primeiro exemplo de comunidade. Mais tarde, juntamos multidões para virem ouvir o Erick, que é um músico de rua, conseguimos angariações de fundos para pagar tratamentos de cancro, a própria reabilitação do António foi parcialmente financiada pela comunidade. É uma dimensão muito boa que eu não estava à espera que acontecesse.


Essa é sem dúvida a parte boa. Mas há por vezes uma parte má da exposição nas redes sociais. Já foste vítima de haters?
Curiosamente, o hate tem diminuído um bocadinho. As pessoas estranham aquilo que é novo. Não havia ninguém a fazer o que eu estava a fazer nas redes sociais portuguesas e, ao início, houve muito choque. [As pessoas questionavam] «Quem é esta pessoa que diz estar a fazer as pessoas felizes?». Como diz o ditado, «quando a esmola é grande, o pobre desconfia». Muita gente desconfiou que tivesse interesses ocultos ou que só quisesse fama. Não os culpo, não me conhecem, mas à medida que o tempo foi passando as pessoas começaram a acompanhar mais o projeto, os behind the scenes, e a perceber que isto me vem do coração. Eu gosto mesmo disto e faço-o para ajudar. Infelizmente as redes sociais são os meios que eu tenho de usar para conseguir angariar os fundos, juntar a comunidade para depois conseguir tornar sonhos em realidade.


Já tens uma grande comunidade de seguidores (quase 2 milhões, no conjunto das 3 plataformas TikTok, Instagram e Twitter). Teres sido premiado nos Play Awards 2022 mudou algo para ti?
Foi bom ser reconhecido fora do mundo do TikTok. É sempre especial quando aparecemos nas notícias ou há prémios. É um reconhecimento de que estamos a ir na direção certa e de que estamos a ser vistos. O dia em que fui premiado nos Play Awards foi um dia muito feliz; saí de lá com uma sensação de autorrealização muito forte.


Youtubers como o Mr. Beast são uma inspiração para ti?
É uma inspiração. Eu vejo agora, numa perspetiva só de análise, de como ele faz os vídeos. Temos uma estratégia muito parecida que é: postar muito poucos vídeos, mas com muito tempo investimento por detrás; fazer poucos vídeos, mas ótimos. Acabo por, não tanto inspirar-me, mas saber que estou no caminho certo, porque ele está a fazer o mesmo.


Em Portugal ainda é muito difícil viver de conteúdos nas redes sociais, sobretudo seguindo uma abordagem que não é a da monetização, através de contratos com marcas?
Isso tudo mudou um bocadinho. Eu consegui encontrar um ponto muito fixe, em que as marcas conseguiram ser flexíveis o suficiente para não alterar o conteúdo que eu estou a fazer e, simplesmente, ajudar. Houve marcas incríveis que queriam só mesmo contribuir, às vezes nem era em troca de publicidade. Consegui juntar a minha comunidade, eu e as marcas a contribuirmos todos juntos, quase num círculo de bondade. Estou a conseguir viver a partir desse ponto, em que é ótimo dedicar-me ao Lucas with Strangers a 100% e fazer projetos maiores. Quem vê os meus vídeos consegue notar também a diferença de dimensão atual dos desejos, que é maior graças a isso.


Este verão vais viajar pelo Canadá e pelo Brasil, numa temporada para fazer crescer o teu projeto. Que ideias queres concretizar lá fora?
Vou ao Canadá realizar o sonho de uma senhora, que é a Paula e vai estar com o filho que já não vê há 7 anos e vai conhecer o neto pela primeira vez. Ela foi expulsa do Canadá e já pode voltar, mas não tinha o dinheiro necessário e eu consegui arranjá-lo. Estou muito ansioso para ver como isso vai correr.
A seguir vou ao Brasil, onde eu tenho 60% da minha audiência no TikTok e estou ansioso por conhecer os meus seguidores brasileiros, que também estão contentes com a minha ida lá. Vou estar a fazer vídeos nas ruas de São Paulo. Se correr bem no Brasil, posso fazer Portugal-Brasil mais vezes.


Mas o Porto é a tua cidade do coração, não é?
Eu gosto sempre é de voltar ao Porto. É a minha cidade e é aqui que eu me sinto muito confortável. Tenho a ideia de que posso chegar a São Paulo e não ser tão bem recebido pelas pessoas na rua. No Porto as pessoas têm uma dinâmica mesmo extraordinária e de abertura para estranhos muito maior do que noutros sítios do mundo.
 
«Sigam os vossos sonhos, mesmo quando toda a gente diz que não vai dar certo.»


Que mensagem queres deixar aos leitores do teu livro?
Uma delas é – e isto é muito cliché, mas eu quero incentivar ainda mais – que sigam os vossos sonhos, mesmo quando toda a gente diz que não vai dar certo. Quando comecei este projeto, toda a gente à minha volta me chamava louco, incluindo a minha família, os meus pais e os meus amigos, e eu fui-me um bocado abaixo por causa disso.
Se tiverem um sonho, o que importa é estarem felizes, acreditarem e continuarem. Não importa se o resto das pessoas vos dão ou não dão razão , até porque, se tiveram uma ideia suficientemente boa e revolucionária, ninguém à volta a vai compreender no início. Por isso, continuem, só.  

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