Em defesa do mau feitio
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29 de agosto de 2024
Francisco José Viegas
A maior parte das pessoas boas tenta, a todo o custo, salvar a Humanidade. Aliás, com tanta abundância de pessoas boas, não sei por que razão está o mundo mais tolo e aborrecido e cada vez sejam mais repetitivos os sermões diários, sonsos e onomatopeicos acerca do assunto. De cada vez que, na literatura ou fora dela, aparece uma contribuição generosa para evitar o aumento da “pegada de carbono” e reduzir o aquecimento global, ficamos com a agradável sensação de estarmos a ser pessoas boas e derretemo-nos, muito felizes. É por isso que atrizes e “pessoas famosas” de todo o mundo economizam na água do autoclismo, na higiene menstrual, no papel dos livros, no creme para a barba, na adoção de uma dieta sem carne (0,8 toneladas por ano de redução nas emissões de carbono, o que não é grande fartura), na lavagem da sua roupa em água fria (0,3), na recusa em viajar de carro (2,4) ou de avião (2,8). Bom, talvez as pessoas boas e famosas” não insistam neste último ponto, até porque têm de se mostrar em conferências internacionais em defesa do planeta e contra a “pegada de carbono” – e viajar para lugares exóticos com uma dezena de fotógrafos tem os seus custos. Se isto não bastar, lembro também uma recente contribuição: investigadores da Universidade de Lund, Suécia, publicaram um estudo sobre esta escala de atitudes “amigas do planeta”; nele demonstram que “não ter bebés” (ou, pelo menos, ter famílias muito reduzidas, só com um filho, à maneira chinesa nos tempos de Mao) corresponde a reduzir as emissões de carbono em 58,6 toneladas, o que é esplêndido para a “pegada” e para a taxa de ocupação das esplanadas e dos voos low cost. Vamos conversar sobre o assunto. Quem não gosta de pessoas boas?
Quando alguém ouviu a frase «oxalá vivas tempos interessantes» estava, de certeza, a referir-se ao primeiro quartel deste século. Uma nova forma de vandalismo cultural está para durar nas nossas vidas; confunde, propositadamente, gene e escolha, liberdade e submissão, verdade e aparência, evidências e desejos. Tenho-me divertido com textos publicados na imprensa portuguesa por jornalistas “muito da moda”, com veneração pelas enormes potencialidades das máquinas geridas por algoritmos que escrevem romances, música de elevador, rótulos de manteiga, poemas de homenagem a ditadores peralvilhos, resumos de romances escolares, canções parolas – mas sobretudo livros, que até agora podiam estar a salvo. E espero pelo momento em que todos sejam incinerados em conjunto. Martin Amis dizia que se pode ser rico, ou famoso, ou qualquer outra coisa, sem se ter talento – mas que não se pode ser talentoso sem ter talento. Até estes dias, era necessário talento. Agora, só é necessário falar-se de “um mundo melhor” e ser-se papalvo.
Que isto aconteça na vida real é um sonho. Dá-nos uma ideia acerca de como as pessoas boas são essenciais no nosso mundo. As “redes sociais” são o lugar onde há mais pessoas boas: são aquelas que usam sacolas de supermercado com frases acerca de salvarmos os mares e os legumes frescos e que fotografam os filhos ao lado dos contentores da reciclagem vestidos de roupa com riscas coloridas ou a tratar de animais domésticos, mostrando como preparam as novas gerações para um mundo de bondade. Nesse mundo, os vizinhos são amigos dos seus vizinhos, que lhes emprestam o carro e ramos de salsa. Um mundo assim é maravilhoso e em breve isto terá efeitos duradouros na saúde mental. Na literatura também. Ultimamente tem sido também piramidal a quantidade de pessoas boas acrescentadas à galeria de romances escritos por pessoas boas. Ao pegar em grande parte desses livros apreciados pelos tik-tokers e por ativistas, noto uma extraordinária acumulação de virtudes: a maior parte das personagens são igualmente pessoas boas, empenhadas no reconhecimento das minorias, interessadas na compostagem e na concórdia universal, no fim do capitalismo e na utilização de advérbios de modo, além de haver sempre exemplos de mulheres que se libertam das grilhetas, inuítes que deixam de beber, escritores que deixaram de escrever “esquimós” e passaram a escrever “inuítes” a meio de um diálogo em que também se explica que não são “aleútes”, narradores que explicam o que é o orgasmo múltiplo e que compõem as suas personagens de modo a vestirem roupa sustentável ou a dialogarem com pessoas que não dormiram durante a madrugada do 25 de Abril.
A verdade é que há cada vez mais escritores e mais leitores a gostarem de serem pessoas boas e a usarem os pronomes adequados. Prevejo que, em breve, haverá autores nomeados para Chief Happiness Officer (CHO) de empresas inclusivas – e que os autores considerados pessoas más sejam definitivamente banidos, tal como as suas personagens, de entre as quais refiro o Cohen, o Basílio ou o Amaro de Eça, a galeria de abades e gordos de Camilo, os malvados de Aquilino, que podem chocar as crianças mais sensíveis, as maravilhosas personagens de Molière, que nos faziam rir: as de Escola de Mulheres ou O Misantropo, de O Avarento ou O Doente Imaginário, quando se lembrou de transportar a sátira mais diabólica para o palco. Retenho Molière porque era um dos nossos grandes humoristas europeus; a sua linguagem era um prodígio de invenção, como uma torrente pronta para o riso e para enumerar os vícios humanos (tal como os tiques, medos, horrores, traumas e hipocrisias da época) e a mesquinhez, mais do que os mitos dourados e históricos; tudo tão bem desenhado que ficávamos a amar as personagens mais ridículas (Don Juan, Tartufo, O Burguês Fidalgo, Cornudo Imaginário), que nos enterneciam. Molière teve esse mérito, o de nos mostrar que não somos nem podemos ser virtuosos. Talvez por isso, a Amazon já pôs à venda livros escritos com ajuda de chatbots, máquinas de “inteligência artificial”, e um deles é mesmo sobre o ChatGPT (além de romances, ensaios e inanidades sobre como devemos viver e sermos pessoas boas). Ao contrário das associações de escritores que protestaram e veem o futuro negro por isto poder matar os autores, acho que o ChatGPT substitui com grande vantagem de preço os “leitores de sensibilidade” que censuram livros e trabalham para as editoras “inclusivas”: um autor (por assim dizer) introduz a carne picada e, no terminal, sai a salsicha fresca ou um livro para young adults, ou seja, pessoas boasque não estão preparadas para as crueldades do mundo. O algoritmo está preparado para escrever dez romances pós-coloniais por hora. Não comete “erros ideológicos”. Não diz coisas sexistas e evita que tenhamos de ouvir autores e autoras e autorxs a transformarem-se em ativistas de pacotilha. Não faz “apropriação cultural”, trabalhando respeitosamente as metáforas e inserindo notas de rodapé acerca de como o mundo deve ser segundo o algoritmo ideológico e sexual em vigor. Finalmente uma solução para a estupidez. Molière sairia truncado.
Em 2022 foram censurados mais de 1 200 livros nas estantes de escolas e bibliotecas públicas americanas; ou foram retirados das instalações, porque o pecado se expande pelo contágio, como a gripe, ou foram escondidos lá atrás, onde se conservam os vírus. Tudo em nome do bem comum: ou do reacionarismo evangélico e da extrema-direita moral, ou do analfabetismo. A isto convém somar a crescente quantidade de correções, adaptações, perseguições, cancelamentos e censuras claras que a geração que agora está na idade da gritaria exerce sobre palavras, livros, filmes, pinturas ou conferências – tudo em nome de um bem maior – a bondade artificial e fictícia do ser humano. Uma nova forma de adolescência mimada e frágil, tão intolerante ao glúten como às ideias, ofendida com facilidade e sem mérito, tomou conta do espaço público. A antecedê-la, os mandarins do costume, que passaram uma vida inteira a destruir a ideia de convivência. Esta falsa virtude do mandarinato também vai acabar mal.
Antecipando os tempos de purga a que assistimos hoje em dia – ainda não em Portugal – Nietzsche falava em 1887 de uma “neurose religiosa” que levava pessoas a cometerem atos de censura, perseguição e recusa de debate e oposição. Depois do “caso Roald Dahl” apareceu o “caso Agatha Christie”, e também o “caso Ian Fleming”, cujos livros da série James Bond, o 007, foram submetidos a um rigoroso escrutínio a fim de serem expurgados de expressões ou inclinações racistas, alegadamente misóginas, naturalmente machistas. A justificação é que “as novas gerações” não suportam esses crimes e se sentem ofendidas, tão desprotegidas que estão. É natural: depois de a geração anterior ter acabado com a presença da História, da Filosofia e da História da Literatura nas escolas, a ideia é fustigar o passado e ensinar que o mundo começou agora, cheio de virtudes, quinoa ou leite de amêndoa – e sem combates, injustiças ou contrariedades. Tenho um certo receio cómico sobre o que acontecerá quando começarem a expurgar os livros de Camilo, Gil Vicente, Agustina Bessa-Luísou Aquilino. Desejo que se apressem. Tenho vontade de promover o Rastignac, de Balzac, a clarividência de Calisto Elói, a maldade pura do Meças, de Rentes de Carvalho, a misantropia de Ana de Cales, de Agustina.
Em Inglaterra, o Times fez um apanhado sobre a ameaça de censura nas universidades locais, e parece que um vendaval de tolice patológica tomou conta das faculdades de letras e do seu desejo de proteger o bem-estar dos alunos em relação a ideias perniciosas, perturbadoras e discutíveis – que, naturalmente, vêm nos livros. O jornal conta que em 2022 houve mais de mil denúncias contra autores que, por serem maldosos, deveriam ser censurados nas bibliotecas. Entre eles estão Charles Dickens, coitado, Jane Austen ou Shakespeare. Algumas bibliotecas universitárias retiraram livros de Colson Whitehead (recente prémio Pulitzer), por causa da sua descrição violenta da escravatura, A Menina Júlia, de Strindberg, por falar de suicídio, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, por ser racista, Hemingway em geral, por ser machista, ou títulos de Philip Larkin, por ser misógino e ter mau feitio. Nos EUA, por exemplo, uma edição académica das obras de Immanuel Kant, publicadas no século XVIII, tem uma nota aos estudantes de hoje informando-os de que as opiniões do filósofo “sobre raça, género, sexualidade e relações interpessoais” são “produto do seu tempo” e estão erradas hoje em dia. Não é novidade. Em plena década de 1980, houve um abaixo-assinado francês (publicado na imprensa) para censurar e proibir Flaubert, que irradiava mau feitio, além de misoginia e outras fatalidades.
Que saudades do mau feitio.
* Escritor, editor e jornalista.
Esta crónica foi originalmente publicada na revista Wookacontece n.º 12, de julho de 2024.
Quando alguém ouviu a frase «oxalá vivas tempos interessantes» estava, de certeza, a referir-se ao primeiro quartel deste século. Uma nova forma de vandalismo cultural está para durar nas nossas vidas; confunde, propositadamente, gene e escolha, liberdade e submissão, verdade e aparência, evidências e desejos. Tenho-me divertido com textos publicados na imprensa portuguesa por jornalistas “muito da moda”, com veneração pelas enormes potencialidades das máquinas geridas por algoritmos que escrevem romances, música de elevador, rótulos de manteiga, poemas de homenagem a ditadores peralvilhos, resumos de romances escolares, canções parolas – mas sobretudo livros, que até agora podiam estar a salvo. E espero pelo momento em que todos sejam incinerados em conjunto. Martin Amis dizia que se pode ser rico, ou famoso, ou qualquer outra coisa, sem se ter talento – mas que não se pode ser talentoso sem ter talento. Até estes dias, era necessário talento. Agora, só é necessário falar-se de “um mundo melhor” e ser-se papalvo.
Que isto aconteça na vida real é um sonho. Dá-nos uma ideia acerca de como as pessoas boas são essenciais no nosso mundo. As “redes sociais” são o lugar onde há mais pessoas boas: são aquelas que usam sacolas de supermercado com frases acerca de salvarmos os mares e os legumes frescos e que fotografam os filhos ao lado dos contentores da reciclagem vestidos de roupa com riscas coloridas ou a tratar de animais domésticos, mostrando como preparam as novas gerações para um mundo de bondade. Nesse mundo, os vizinhos são amigos dos seus vizinhos, que lhes emprestam o carro e ramos de salsa. Um mundo assim é maravilhoso e em breve isto terá efeitos duradouros na saúde mental. Na literatura também. Ultimamente tem sido também piramidal a quantidade de pessoas boas acrescentadas à galeria de romances escritos por pessoas boas. Ao pegar em grande parte desses livros apreciados pelos tik-tokers e por ativistas, noto uma extraordinária acumulação de virtudes: a maior parte das personagens são igualmente pessoas boas, empenhadas no reconhecimento das minorias, interessadas na compostagem e na concórdia universal, no fim do capitalismo e na utilização de advérbios de modo, além de haver sempre exemplos de mulheres que se libertam das grilhetas, inuítes que deixam de beber, escritores que deixaram de escrever “esquimós” e passaram a escrever “inuítes” a meio de um diálogo em que também se explica que não são “aleútes”, narradores que explicam o que é o orgasmo múltiplo e que compõem as suas personagens de modo a vestirem roupa sustentável ou a dialogarem com pessoas que não dormiram durante a madrugada do 25 de Abril.
A verdade é que há cada vez mais escritores e mais leitores a gostarem de serem pessoas boas e a usarem os pronomes adequados. Prevejo que, em breve, haverá autores nomeados para Chief Happiness Officer (CHO) de empresas inclusivas – e que os autores considerados pessoas más sejam definitivamente banidos, tal como as suas personagens, de entre as quais refiro o Cohen, o Basílio ou o Amaro de Eça, a galeria de abades e gordos de Camilo, os malvados de Aquilino, que podem chocar as crianças mais sensíveis, as maravilhosas personagens de Molière, que nos faziam rir: as de Escola de Mulheres ou O Misantropo, de O Avarento ou O Doente Imaginário, quando se lembrou de transportar a sátira mais diabólica para o palco. Retenho Molière porque era um dos nossos grandes humoristas europeus; a sua linguagem era um prodígio de invenção, como uma torrente pronta para o riso e para enumerar os vícios humanos (tal como os tiques, medos, horrores, traumas e hipocrisias da época) e a mesquinhez, mais do que os mitos dourados e históricos; tudo tão bem desenhado que ficávamos a amar as personagens mais ridículas (Don Juan, Tartufo, O Burguês Fidalgo, Cornudo Imaginário), que nos enterneciam. Molière teve esse mérito, o de nos mostrar que não somos nem podemos ser virtuosos. Talvez por isso, a Amazon já pôs à venda livros escritos com ajuda de chatbots, máquinas de “inteligência artificial”, e um deles é mesmo sobre o ChatGPT (além de romances, ensaios e inanidades sobre como devemos viver e sermos pessoas boas). Ao contrário das associações de escritores que protestaram e veem o futuro negro por isto poder matar os autores, acho que o ChatGPT substitui com grande vantagem de preço os “leitores de sensibilidade” que censuram livros e trabalham para as editoras “inclusivas”: um autor (por assim dizer) introduz a carne picada e, no terminal, sai a salsicha fresca ou um livro para young adults, ou seja, pessoas boasque não estão preparadas para as crueldades do mundo. O algoritmo está preparado para escrever dez romances pós-coloniais por hora. Não comete “erros ideológicos”. Não diz coisas sexistas e evita que tenhamos de ouvir autores e autoras e autorxs a transformarem-se em ativistas de pacotilha. Não faz “apropriação cultural”, trabalhando respeitosamente as metáforas e inserindo notas de rodapé acerca de como o mundo deve ser segundo o algoritmo ideológico e sexual em vigor. Finalmente uma solução para a estupidez. Molière sairia truncado.
Em 2022 foram censurados mais de 1 200 livros nas estantes de escolas e bibliotecas públicas americanas; ou foram retirados das instalações, porque o pecado se expande pelo contágio, como a gripe, ou foram escondidos lá atrás, onde se conservam os vírus. Tudo em nome do bem comum: ou do reacionarismo evangélico e da extrema-direita moral, ou do analfabetismo. A isto convém somar a crescente quantidade de correções, adaptações, perseguições, cancelamentos e censuras claras que a geração que agora está na idade da gritaria exerce sobre palavras, livros, filmes, pinturas ou conferências – tudo em nome de um bem maior – a bondade artificial e fictícia do ser humano. Uma nova forma de adolescência mimada e frágil, tão intolerante ao glúten como às ideias, ofendida com facilidade e sem mérito, tomou conta do espaço público. A antecedê-la, os mandarins do costume, que passaram uma vida inteira a destruir a ideia de convivência. Esta falsa virtude do mandarinato também vai acabar mal.
Antecipando os tempos de purga a que assistimos hoje em dia – ainda não em Portugal – Nietzsche falava em 1887 de uma “neurose religiosa” que levava pessoas a cometerem atos de censura, perseguição e recusa de debate e oposição. Depois do “caso Roald Dahl” apareceu o “caso Agatha Christie”, e também o “caso Ian Fleming”, cujos livros da série James Bond, o 007, foram submetidos a um rigoroso escrutínio a fim de serem expurgados de expressões ou inclinações racistas, alegadamente misóginas, naturalmente machistas. A justificação é que “as novas gerações” não suportam esses crimes e se sentem ofendidas, tão desprotegidas que estão. É natural: depois de a geração anterior ter acabado com a presença da História, da Filosofia e da História da Literatura nas escolas, a ideia é fustigar o passado e ensinar que o mundo começou agora, cheio de virtudes, quinoa ou leite de amêndoa – e sem combates, injustiças ou contrariedades. Tenho um certo receio cómico sobre o que acontecerá quando começarem a expurgar os livros de Camilo, Gil Vicente, Agustina Bessa-Luísou Aquilino. Desejo que se apressem. Tenho vontade de promover o Rastignac, de Balzac, a clarividência de Calisto Elói, a maldade pura do Meças, de Rentes de Carvalho, a misantropia de Ana de Cales, de Agustina.
Em Inglaterra, o Times fez um apanhado sobre a ameaça de censura nas universidades locais, e parece que um vendaval de tolice patológica tomou conta das faculdades de letras e do seu desejo de proteger o bem-estar dos alunos em relação a ideias perniciosas, perturbadoras e discutíveis – que, naturalmente, vêm nos livros. O jornal conta que em 2022 houve mais de mil denúncias contra autores que, por serem maldosos, deveriam ser censurados nas bibliotecas. Entre eles estão Charles Dickens, coitado, Jane Austen ou Shakespeare. Algumas bibliotecas universitárias retiraram livros de Colson Whitehead (recente prémio Pulitzer), por causa da sua descrição violenta da escravatura, A Menina Júlia, de Strindberg, por falar de suicídio, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, por ser racista, Hemingway em geral, por ser machista, ou títulos de Philip Larkin, por ser misógino e ter mau feitio. Nos EUA, por exemplo, uma edição académica das obras de Immanuel Kant, publicadas no século XVIII, tem uma nota aos estudantes de hoje informando-os de que as opiniões do filósofo “sobre raça, género, sexualidade e relações interpessoais” são “produto do seu tempo” e estão erradas hoje em dia. Não é novidade. Em plena década de 1980, houve um abaixo-assinado francês (publicado na imprensa) para censurar e proibir Flaubert, que irradiava mau feitio, além de misoginia e outras fatalidades.
Que saudades do mau feitio.
* Escritor, editor e jornalista.
Esta crónica foi originalmente publicada na revista Wookacontece n.º 12, de julho de 2024.