Crónica de autor: «Uma Varanda para o Cosmos»
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17 de janeiro de 2020
Hugo Gonçalves
UMA VARANDA PARA O COSMOS
No primeiro dia do estado de emergência, vi da minha varanda uma borboleta a flutuar sobre os limoeiros da vizinha. Confinado em casa havia já uma semana, foi difícil não ceder ao simbolismo de um bater de asas: a liberdade do voo, a chegada da primavera, a metáfora lugar-comum da transformação da lagarta em algo distinto e mais belo. No livro Three uses of the knife, David Mamet comenta a natural propensão dramatúrgica dos humanos, a forma como atribuímos intenções, sentidos ou humores a uma manhã nublada ou uma tarde de vendaval. Na atenção que dediquei à borboleta, mas também no afã com que os vizinhos estendiam roupa ou arrancavam ervas daninhas do quintal, eu inferi o arrebatamento daqueles que, fazendo coisas menores num tempo de sobressaltos e medos, sentem que contribuem para um bem maior. Era como se houvesse um temporário ajuste na escala da nossa existência, a mesma sensação de humildade e perspetiva se olhamos o céu estrelado numa noite sem lua.
Voltei à varanda depois de escurecer e olhei para o céu, imaginando por onde andariam as sondas Voyager, lançadas no espaço em 1977, e que transportam discos de ouro com informações sobre a vida na Terra: desenhos da anatomia humana, fotografias de animais selvagens, saudações em diferentes línguas, o canto das baleias, Bach e Chuck Berry. Mas também o som dos primeiros dias de uma paixão. Ann Druyan, uma das cientistas do projeto, começara a namorar com o astrofísico Carl Sagan e perguntou-lhe se haveria maneira de transformar a sua frequência cardíaca e ondas cerebrais numa linguagem sonora. Nessa mesma noite, fui investigar por onde andariam as sondas Voyager e fiquei a saber que viajam a 50 mil quilómetros por hora, deixaram para trás Neptuno, já abandonaram o sistema solar.
A borboleta na minha varanda e a gravação da sinfonia amorosa de Ann Druyan estão agora afastadas 21 mil milhões de quilómetros. Os discos que viajam com as Voyagers têm uma durabilidade de mil milhões de anos. Para o cérebro do Homo sapiens, que só existe há cerca de 200 mil, tamanhas medidas de tempo e espaço são difíceis de compreender. E, no entanto, as limitações cognitivas da espécie não impediram que eu atribuísse um sentido a dois eventos tão distantes e sem relação.
Talvez o meu sentimentalismo atual seja um efeito secundário da pandemia e do isolamento. (Que isso me valha como atenuante). Mas tenho de admitir o meu espanto e emoção ao pensar que, num universo com 13,7 mil milhões de anos, numa galáxia menor, num sistema solar periférico, existe uma espécie capaz de transcender, ainda que por breves momentos, a sua insignificância e finitude sempre que se comove com a beleza de uma borboleta ou escolhe apresentar-se ao Cosmos com o batimento de um coração apaixonado.
Voltei à varanda depois de escurecer e olhei para o céu, imaginando por onde andariam as sondas Voyager, lançadas no espaço em 1977, e que transportam discos de ouro com informações sobre a vida na Terra: desenhos da anatomia humana, fotografias de animais selvagens, saudações em diferentes línguas, o canto das baleias, Bach e Chuck Berry. Mas também o som dos primeiros dias de uma paixão. Ann Druyan, uma das cientistas do projeto, começara a namorar com o astrofísico Carl Sagan e perguntou-lhe se haveria maneira de transformar a sua frequência cardíaca e ondas cerebrais numa linguagem sonora. Nessa mesma noite, fui investigar por onde andariam as sondas Voyager e fiquei a saber que viajam a 50 mil quilómetros por hora, deixaram para trás Neptuno, já abandonaram o sistema solar.
A borboleta na minha varanda e a gravação da sinfonia amorosa de Ann Druyan estão agora afastadas 21 mil milhões de quilómetros. Os discos que viajam com as Voyagers têm uma durabilidade de mil milhões de anos. Para o cérebro do Homo sapiens, que só existe há cerca de 200 mil, tamanhas medidas de tempo e espaço são difíceis de compreender. E, no entanto, as limitações cognitivas da espécie não impediram que eu atribuísse um sentido a dois eventos tão distantes e sem relação.
Talvez o meu sentimentalismo atual seja um efeito secundário da pandemia e do isolamento. (Que isso me valha como atenuante). Mas tenho de admitir o meu espanto e emoção ao pensar que, num universo com 13,7 mil milhões de anos, numa galáxia menor, num sistema solar periférico, existe uma espécie capaz de transcender, ainda que por breves momentos, a sua insignificância e finitude sempre que se comove com a beleza de uma borboleta ou escolhe apresentar-se ao Cosmos com o batimento de um coração apaixonado.