Wook se escreve no Canadá – Parte II
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9 de dezembro de 2025
Nesta segunda parte (leia a primeira aqui), voltamos ao longínquo Canadá para lhe mostrar ficções tão fantásticas como a Emily St. John Mandel, ecos da História e do exílio de Michael Ondaatje e Dany Laferrière, a beleza do Universo contada por Huber Reeves e até… a literatura melódica de Leonard Cohen.
Este artigo foi publicado originalmente na revista wookacontece n.º 15.
Este artigo foi publicado originalmente na revista wookacontece n.º 15.
Emily St. John Mandel (n. 1979)
Ficção que cruza eras e destinos
Com a ficção distópica Estação Onze (2014), Emily St. John Mandel viu o seu trabalho reconhecido mundialmente, com o Prémio Arthur C. Clarke e, em 2021, uma adotação a série televisiva. Este romance pós-apocalíptico acompanha uma trupe itinerante de Shakespeare após uma pandemia de gripe dizimar a população mundial. Repleto de suspense e emoção, explora a importância da arte e dos laços humanos em tempos de crise, enquanto nos confronta com os estranhos acasos que ligam as suas personagens. Ao fundir thriller e ficção literária, a escritora reflete sobre a fragilidade da civilização.
Em Mar de Tranquilidade, somo conduzidos numa viagem de rara beleza literária: no século XIX, Edwin St. Andrew ouve um violino ecoar num terminal de dirigíveis em plena floresta canadiana. Séculos depois, uma escritora regista a mesma cena num romance escrito na colónia lunar. Quando um detetive investiga o que parece ser uma anomalia causadora dessa experiência, depara-se com uma sobreposição inexplicável de tempo e espaço, postulando-se a hipótese de o Universo ser uma simulação.
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Com a ficção distópica Estação Onze (2014), Emily St. John Mandel viu o seu trabalho reconhecido mundialmente, com o Prémio Arthur C. Clarke e, em 2021, uma adotação a série televisiva. Este romance pós-apocalíptico acompanha uma trupe itinerante de Shakespeare após uma pandemia de gripe dizimar a população mundial. Repleto de suspense e emoção, explora a importância da arte e dos laços humanos em tempos de crise, enquanto nos confronta com os estranhos acasos que ligam as suas personagens. Ao fundir thriller e ficção literária, a escritora reflete sobre a fragilidade da civilização.
Em Mar de Tranquilidade, somo conduzidos numa viagem de rara beleza literária: no século XIX, Edwin St. Andrew ouve um violino ecoar num terminal de dirigíveis em plena floresta canadiana. Séculos depois, uma escritora regista a mesma cena num romance escrito na colónia lunar. Quando um detetive investiga o que parece ser uma anomalia causadora dessa experiência, depara-se com uma sobreposição inexplicável de tempo e espaço, postulando-se a hipótese de o Universo ser uma simulação.
Michael Ondaatje (n. 1943)
Cronista de paixões e ecos da História
As obras de Michael Ondaatje são narrativas líricas e elípticas centradas num pequeno círculo de pessoas unidas por um mistério. Imortalizado pela adaptação ao cinema por Anthony Minghella, O Doente Inglês (1992), vencedor do Man Booker Prize – e do Golden Man Booker Prize – moldou a imagem internacional da literatura canadiana. Ambientado nos últimos dias da II Guerra Mundial, o romance alterna entre as memórias de quatro personagens e a sua vida numa pequena vila italiana devastada pela guerra, tendo no centro um homem gravemente queimado, «o paciente inglês», que desencadeará uma história de amor e traição. As fronteiras entre aliados e inimigos esbatem-se à medida que a experiência da guerra destrói e reconstrói a humanidade de cada personagem.
Entre os mais importantes romances de Ondaatje estão Coming Through Slaughter (1976), sobre a descida à loucura de um músico de jazz, e Running in the Family (1982), as memórias da vida do escritor no Ceilão, livro a que Atwood atribuiu o estatuto de lenda.
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As obras de Michael Ondaatje são narrativas líricas e elípticas centradas num pequeno círculo de pessoas unidas por um mistério. Imortalizado pela adaptação ao cinema por Anthony Minghella, O Doente Inglês (1992), vencedor do Man Booker Prize – e do Golden Man Booker Prize – moldou a imagem internacional da literatura canadiana. Ambientado nos últimos dias da II Guerra Mundial, o romance alterna entre as memórias de quatro personagens e a sua vida numa pequena vila italiana devastada pela guerra, tendo no centro um homem gravemente queimado, «o paciente inglês», que desencadeará uma história de amor e traição. As fronteiras entre aliados e inimigos esbatem-se à medida que a experiência da guerra destrói e reconstrói a humanidade de cada personagem.
Entre os mais importantes romances de Ondaatje estão Coming Through Slaughter (1976), sobre a descida à loucura de um músico de jazz, e Running in the Family (1982), as memórias da vida do escritor no Ceilão, livro a que Atwood atribuiu o estatuto de lenda.
Leonard Cohen (1934-2016)
A voz da dor e do desejo
Antes de se lançar na música, Leonard Cohen já tinha quatro coleções de poesia e dois romances publicados. Muitos dizem que a sua vocação de escritor – em que falava abertamente sobre sexualidade, a sua fé judaica e a sua luta contra a depressão – é a chave para entender tudo o que criou.
O seu livro mais célebre, O Jogo Favorito, é um bildungsroman sobre o alter-ego de Cohen, Lawrence Breavman, um rapaz judeu taciturno de uma família abastada. Com o seu amigo Krantz, tenta abrir caminho no mundo absorvendo todas as experiências possíveis em torno do sexo oposto, numa procura de amor e de beleza. Lawrence descobre o seu jogo favorito em Nova Iorque, onde se refugia depois de um êxito precoce como poeta, e conhece Shell, a mais linda das mulheres, com quem descobre, por fim a plenitude inebriante do amor completo e os sacrifícios que este exige.
No seu último livro publicado por cá, Um Balé de Leprosos, reúne um romance e contos inéditos de Cohen, um livro que comprova como a magia que animou o seu trabalho estava presente desde o início.
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Antes de se lançar na música, Leonard Cohen já tinha quatro coleções de poesia e dois romances publicados. Muitos dizem que a sua vocação de escritor – em que falava abertamente sobre sexualidade, a sua fé judaica e a sua luta contra a depressão – é a chave para entender tudo o que criou.
O seu livro mais célebre, O Jogo Favorito, é um bildungsroman sobre o alter-ego de Cohen, Lawrence Breavman, um rapaz judeu taciturno de uma família abastada. Com o seu amigo Krantz, tenta abrir caminho no mundo absorvendo todas as experiências possíveis em torno do sexo oposto, numa procura de amor e de beleza. Lawrence descobre o seu jogo favorito em Nova Iorque, onde se refugia depois de um êxito precoce como poeta, e conhece Shell, a mais linda das mulheres, com quem descobre, por fim a plenitude inebriante do amor completo e os sacrifícios que este exige.
No seu último livro publicado por cá, Um Balé de Leprosos, reúne um romance e contos inéditos de Cohen, um livro que comprova como a magia que animou o seu trabalho estava presente desde o início.
Dany Laferrière
Exílio, pertença e provocação
Dany Laferrière, escritor haitiano-canadiano francófono, é celebrado pelas suas obras que exploram temas de identidade e exílio com rara vitalidade. O seu livro de estreia, Como Fazer Amor Com Um Negro Sem Se Cansar (1985), marcou a literatura contemporânea pela irreverência e crítica social. Em Montreal, num verão escaldante nos anos 70, dois negros sem um tostão que partilham um quarto exíguo. Cota, um aspirante a escritor, e Bouba, preguiçoso e devoto de Coltrane, levam uma alegre vida boémia de sexo e jazz: em tom de desforra pela colonização, travam a sua luta racial na horizontal.
O Grito dos Pássaros Loucos (2000) narra as últimas horas de Ossos Velhos – alter ego de Dany Laferrière – em Port-au-Prince, antes de partir para o exílio no Canadá, e na sequência do assassínio do seu maior amigo pelas milícias do ditador Duvalier. Um romance parcialmente autobiográfico sobre desenraizamento, de grande intensidade emocional.
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Dany Laferrière, escritor haitiano-canadiano francófono, é celebrado pelas suas obras que exploram temas de identidade e exílio com rara vitalidade. O seu livro de estreia, Como Fazer Amor Com Um Negro Sem Se Cansar (1985), marcou a literatura contemporânea pela irreverência e crítica social. Em Montreal, num verão escaldante nos anos 70, dois negros sem um tostão que partilham um quarto exíguo. Cota, um aspirante a escritor, e Bouba, preguiçoso e devoto de Coltrane, levam uma alegre vida boémia de sexo e jazz: em tom de desforra pela colonização, travam a sua luta racial na horizontal.
O Grito dos Pássaros Loucos (2000) narra as últimas horas de Ossos Velhos – alter ego de Dany Laferrière – em Port-au-Prince, antes de partir para o exílio no Canadá, e na sequência do assassínio do seu maior amigo pelas milícias do ditador Duvalier. Um romance parcialmente autobiográfico sobre desenraizamento, de grande intensidade emocional.
Hubert Reeves
O cronista do Universo
O astrofísico canadiano francófono mais conhecido do mundo era também um contador de histórias fascinante e um grande divulgador da ciência. Não explicar o complexo, dizia, «é antidemocrático».
Um Pouco Mais de Azul, um bestseller internacional, conta a história do Universo, da gestação cósmica à evolução da vida na Terra. Reeves parte da formação dos núcleos atómicos nas estrelas, continua pela evolução biológica e chega à inteligência humana. Mas a complexidade não termina com o homem e, no final, percebemos o nosso parentesco profundo com a Natureza, verdadeira família da Humanidade.
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O astrofísico canadiano francófono mais conhecido do mundo era também um contador de histórias fascinante e um grande divulgador da ciência. Não explicar o complexo, dizia, «é antidemocrático».
Um Pouco Mais de Azul, um bestseller internacional, conta a história do Universo, da gestação cósmica à evolução da vida na Terra. Reeves parte da formação dos núcleos atómicos nas estrelas, continua pela evolução biológica e chega à inteligência humana. Mas a complexidade não termina com o homem e, no final, percebemos o nosso parentesco profundo com a Natureza, verdadeira família da Humanidade.
Patrick deWitt (n. 1975)
Narrativas ácidas e inesperadas
O segundo romance de Patrick deWitt, Os Irmãos Sisters (2011), uma aventura turbulenta pela costa oeste dos EUA em 1851, valeu ao escritor uma nomeação para o Booker Prize. Os dois irmãos, chamados Sisters, metem-se numa série de problemas, resultando num western sombriamente engraçado e excêntrico sobre um assassino relutante e o seu irmão, um assassino consumado. Com esta história picaresca, o autor traça um retrato sarcástico e acutilante da frágil e perversa condição humana, tão vívido que inspirou um filme de cinema.
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O segundo romance de Patrick deWitt, Os Irmãos Sisters (2011), uma aventura turbulenta pela costa oeste dos EUA em 1851, valeu ao escritor uma nomeação para o Booker Prize. Os dois irmãos, chamados Sisters, metem-se numa série de problemas, resultando num western sombriamente engraçado e excêntrico sobre um assassino relutante e o seu irmão, um assassino consumado. Com esta história picaresca, o autor traça um retrato sarcástico e acutilante da frágil e perversa condição humana, tão vívido que inspirou um filme de cinema.
Veja aqui o trailer da adaptação ao cinema de Os Irmãos Sisters