Se Numa Noite de Inverno um Viajante

de Italo Calvino
Livro eBook
Editor: Dom Quixote, Janeiro de 2018 ‧
A deslumbrante obra-prima pós-modernista de Calvino combina uma história de amor, uma história policial e uma análise sarcástica da indústria editorial numa brilhante alegoria da leitura. Com base numa analogia espirituosa entre o desejo do leitor de terminar de ler o romance e o desejo do amante de consumar a sua paixão, Se numa Noite de Inverno Um Viajante é a história de dois leitores confusos cujas tentativas de chegar ao fim do mesmo livro - o próprio Se numa Noite de Inverno Um Viajante de Italo Calvino - são constante e comicamente frustradas.
As Mil e Uma Noites dos nossos dias.
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Palavras Rebeldes

A literatura é uma construção feita de convenções, repetições e fórmulas. Muitas vezes, um género cristaliza-se ao ponto de se tornar previsível, uma espécie de partitura que o leitor reconhece logo nas primeiras páginas. Mas há livros que recusam essa previsibilidade, rompem o molde, subvertem as regras e reinventam a tradição que herdaram. São textos que mudam não apenas a forma como pensamos um género literário, mas também a maneira como nos aproximamos da leitura. Carmilla, de Sheridan le Fanu Um exemplo precoce desta rebeldia face ao cânone é Carmilla, de Sheridan Le Fanu. Publicado em 1872, vinte e cinco anos antes de Drácula, o romance apresenta a figura do vampiro (neste caso, uma vampira chamada Carmilla), como algo mais complexo do que o simples monstro insaciável que ataca de noite. Carmilla seduz, fascina e perturba, e a relação que estabelece com Laura, a narradora, é atravessada por um desejo insinuado que escapa às normas morais da época e que, ao mesmo tempo, serve de motor ao terror presente na obra. O romance gótico, até então dominado por castelos sombrios e ameaças externas, ganha uma dimensão interior. O medo instala-se no corpo, na intimidade e no desejo proibido. Ao introduzir essa ambiguidade, Le Fanu transforma a narrativa de vampiros num território fértil para pensar o interdito. A sexualidade feminina, a homoafetividade e a diluição das fronteiras entre vítima e predador são alguns dos temas abordados neste romance que não se limita a assustar, mas antes convida o leitor a espreitar o lado obscuro do desejo, aquilo que se queria ocultar e que, de repente, ganha forma na figura da vampira. Carmilla é, nesse sentido, uma narrativa entre o medo e a fascinação, entre a pureza e a transgressão, inaugurando o imaginário moderno do vampiro como criatura simultaneamente erótica e ameaçadora. COMPRO NA WOOK! » Gargântua & Pantagruel - Volume I, de Rabelais François Rabelais já explorava as fronteiras da ficção séculos antes de Le Fanu ter nascido. Gargântua & Pantagruel, publicado entre 1532 e 1564, resiste a qualquer categorização literária convencional. É, ao mesmo tempo, sátira, crónica e fábula grotesca, unindo crítica social e reflexão numa prosa expansiva e inventiva. Os gigantes que dão nome à obra vivem aventuras que oscilam entre a leveza cómica e a erudição rigorosa, mantendo o leitor em permanente surpresa através da escrita polifónica de Rabelais. Quem se aproxima de uma obra do século XVI espera encontrar ordem e disciplina literária, mas em Gargântua & Pantagruel depara-se com liberdade, excesso e multiplicidade de sentidos. Rabelais não se limitou a reinventar um género, pôs em causa a própria noção de enredo, mostrando que a literatura pode ser simultaneamente crítica, ousada e divertida. COMPRO NA WOOK! » A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque Se Rabelais expande e Carmilla insinua, Erich Maria Remarque comprime. Em A Oeste Nada de Novo, publicado em 1929, a guerra deixa de ser palco de heroísmo para se tornar um território de devastação. Até então, o romance de guerra, herdeiro das epopeias antigas, ainda se alimentava de imagens de bravura, de honra e de glória nacional. Remarque desmonta esse imaginário através da voz de Paul Bäumer, um jovem soldado alemão lançado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. O que o narrador regista não são feitos memoráveis, mas a rotina da lama, da fome e do medo. A morte não tem brilho, é apenas ausência. Ao trocar o tom épico por um tom íntimo, Remarque reconfigura o género bélico. Mostra que a guerra não é grandeza, mas dissolução da juventude e catalisadora de traumas coletivos. Depois dele, nenhum romance de guerra pôde ser escrito, e lido, da mesma forma. A sua escrita abriu espaço ao testemunho e à denúncia, não à celebração.
Em 2022, o livro deu origem a uma série de TV, cujo trailer pode ver aqui abaixo. COMPRO NA WOOK! » O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie Agatha Christie não seguiu o exemplo de Remarque ao matar a ideia de heroísmo. Em vez disso, matou a confiança que o leitor de literatura policial trazia consigo ao iniciar a leitura, sendo O Assassinato de Roger Ackroyd, escrito em 1926, um marco de viragem no género. Até então, os policiais viviam da promessa de clareza, ou seja, o crime era um enigma que o detetive, com lógica impecável, desvendaria no final. O leitor, guiado pela narrativa, tinha a garantia de que, no fim, tudo faria sentido. Mas Christie ousou romper esse pacto tácito com o leitor. Através de um narrador que manipula, omite e engana, a autora de Um Crime no Expresso do Oriente retirou ao leitor a sua segurança fundamental, a de confiar na voz que conta a história. A reviravolta final não é apenas a resolução do crime, é também um choque estrutural, um golpe no género. Depois de Christie, a literatura policial não pôde ser lida com a mesma inocência. Reinventar o género, aqui, significou questionar a relação de confiança entre o leitor e a narrativa. COMPRO NA WOOK! » Se Numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino Décadas mais tarde, Italo Calvino levou ainda mais longe a desconfiança do leitor em relação ao próprio texto. Se numa noite de inverno um viajante, de 1979, não é apenas um romance pós-moderno, é uma meditação sobre o ato de ler. O livro começa quando um leitor se prepara para ler um romance de Calvino, mas esse romance é interrompido. O leitor, dentro do livro, procura continuar e, a cada tentativa, encontra apenas começos de histórias, nunca a sua conclusão. O resultado é um labirinto de inícios, um jogo que transforma a leitura em experiência fragmentada. O género literário, neste caso, não é subvertido, é dissolvido e desfeito em partes. O policial, o romance de espionagem, a narrativa histórica, entre outros estilos presentes no decorrer da trama, surgem apenas como ecos e fragmentos de algo que não tem conclusão. Calvino não oferece apenas um livro, mas uma reflexão sobre todos os livros, a de que ler é sempre começar, nunca terminar. COMPRO NA WOOK! » Se colocarmos estas obras lado a lado, percebemos que reinventar um género não é um gesto único, mas uma multiplicidade de movimentos. Rabelais expande até ao grotesco, Le Fanu insinua o proibido, Remarque desmonta o heroísmo, Christie mina a confiança e Calvino transforma a própria leitura em enigma. Cada um, à sua maneira, recusa o caminho já feito e obriga-nos a reaprender a ler.

Se Numa Noite de Inverno um Viajante

de Italo Calvino

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722063951
Editor: Dom Quixote
Data de Lançamento: Janeiro de 2018
Idioma: Português
Dimensões: 158 x 236 x 18 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 296
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722063951

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SOBRE O AUTOR

Italo Calvino

Italo Calvino nasceu nos arredores de Havana (Cuba), a 15 de outubro de 1923. Passou praticamente toda a sua vida em Itália, excetuando os treze anos em que viveu em Paris. Faleceu em Siena, a 19 de setembro de 1985. Calvino estudou em San Remo até aos 20 anos, ingressando então na Resistência contra o fascismo e a ocupação nazi, depois de aderir ao Partido Comunista, que abandonou em 1957. Terminada a Segunda Guerra Mundial, instalou-se em Turim, começando a trabalhar na Einaudi, que depressa se transformou numa das principais editoras italianas do pós-guerra. Já trabalhava na Einaudi (onde desempenhou um importantíssimo papel como consultor literário) quando concluiu a sua licenciatura em Letras. Com O Atalho dos Ninhos de Aranha (1947) deu início a uma surpreendente carreira literária, que viria a consagrá-lo como um dos maiores escritores italianos do século XX.

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