Memorial do Convento

Edição Comemorativa

de José Saramago
Editor: Porto Editora, novembro de 2021 ‧
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«para escrever este romance [Memorial do Convento], cuja ação se situa entre 1711 e 1739, a primeira exigência é um conhecimento tido por suficiente dessa mesma época. Isso significa que se tenha que dar um mergulho nesse século através da leitura de documentos. Durante muitos meses vivi no fim do século XVII e no século XVIII. Precisei de ler e quase de falar como então se falava. Olhei muito para a pintura da época e ouvi muita música. Talvez não fosse necessário, mas senti-me bem ao fazê-lo. No que toca à investigação, que ponho sempre entre aspas por não ser rigorosa, tive de consultar e de decifrar documentos da época, de preocupar-me com aspetos económicos e sociais, com a questão do Santo Ofício, não tanto para vir dizê-lo, mas como se quisesse senti-lo.»
José Saramago
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O poder da primeira frase

A primeira frase — ou o primeiro parágrafo — de um livro carrega um peso decisivo. Os escritores sabem que pode ser a diferença entre conquistar um leitor ou ver o seu livro posto de lado. Essas primeiras palavras definem o tom, expõem o tema e podem apresentar a personagem principal. Há aberturas de livros tão marcantes que se tornaram parte da memória coletiva de várias gerações. Será que as conhece? A Cegueira do Rio, de Mia Couto «Apoiado no sipaio Nataniel Jalasi, o sargento português Bruno Estrela arrastou-se pela margem lodosa do rio Rovuma. Custava-lhe caminhar. Trazia um continente agarrado aos pés. Para os europeus, o Rovuma era uma fronteira separando a «África Oriental Portuguesa» da «África Oriental Alemã». Para os africanos, o rio era uma mulher que engravidava com as grandes chuvas. A verdade era esta: ambas as margens eram habitadas por gente que, todas as noites, rezava aos mesmos deuses. O rio escutava as preces e voltava a ser nuvem.»

Num único parágrafo, Mia Couto não só traça o cenário da história, como nos coloca no despontar da ação que desencadeará uma narrativa tocante baseada num acontecimento real do passado colonial português. As causas ficam já aqui descritas: a ocupação do território africano por países europeus; as diferentes interpretações da vida e da Natureza, intimamente ligadas à ideia ora de domínio, ora de comunhão – complexidade de um lado, simplicidade do outro. E o confronto de tudo isto. COMPRO NA WOOK! » Memorial do Convento, de José Saramago «D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou.»

Saramago conta que, para escrever O Memorial do Convento, viveu, durante muitos meses, no fim do século XVII e no século XVIII» e precisou «de ler e quase de falar como então se falava», além de «decifrar documentos da época». Aliandao esse estudo prévio ao brilhantismo da sua escrita, logo na primeira frase do livro, o escritor consegue transportar-nos não só para a realidade daquele passado distante, como também para a intimidade de dois dos protagonistas da história que vai contar, criando no leitor uma expectativa, e um fervilhante interesse, sobre o que irá acontecer. COMPRO NA WOOK! » Anna Karénina, de Lev Tolstói «As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.»

Na época do lançamento deste famoso romance de Tolstói, uma jovem geração de liberais russos atacava os valores familiares tradicionais. Anna Karénina foi a resposta de Tolstói a esse ataque, criando desde logo, na frase de abertura, uma moldura para toda a história. Poderemos pensar que há algo de contraditório na frase, já que nenhuma família é feliz em Anna Karénina. Mas a dicotomia da afirmação é tentadora: queremos ser felizes ou, apenas, iguais a todos os outros? COMPRO NA WOOK! » O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway «Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe».

Hemingway apresenta-nos o protagonista, Santiago, e a sua situação difícil, ao mesmo tempo que antecipa o conflito central da história. Neste início simples, conseguimos vislumbrar a solidão do pescador e a sua má sorte, mas também a sua perserverança. Uma combinação de simplicidade e profundidade que é marca de Hemingway. COMPRO NA WOOK! » A metamorfose, de Franz Kafka «Quando uma manhã Gregor Samsa acordou de sonhos inquietos, viu-se na sua cama transformado num monstruoso inseto. Estava deitado de costas, rijas como uma couraça, e, cada vez que levantava um pouco a cabeça, via a barriga castanha, abaulada e dividida por escoras em forma de anéis, no cimo da qual a coberta, prestes a resvalar por completo, mal se aguentava. As suas muitas patas, lastimavelmente delgadas em comparação com o resto do corpo, tremulavam, desamparadas, diante dos olhos.»

Esta é, sem dúvida, uma das aberturas mais marcantes da literatura. Quase que conseguimos sentir-nos na pele – ou na carapaça – de Gregor Samsa, tão meticulosa e gráfica é a descrição que Franz Kafka dá aos leitores da situação insólita que o protagonista vive. É difícil imaginar uma experiência mais horripilante do que esta: de repente, está-se preso no corpo de um inseto. Não adiante beliscar-se, até porque deixou de ter mãos; sem perceber como, é-se um inseto!... E agora? COMPRO NA WOOK! » A primeira frase é o aperto de mão do livro. E há apertos que simplesmente não se esquecem.

Memorial do Convento

Edição Comemorativa

de José Saramago

Propriedade Descrição
ISBN: 978-972-0-03992-7
Editor: Porto Editora
Data de Lançamento: novembro de 2021
Idioma: Português
Dimensões: 142 x 210 x 25 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 402
Tipo de produto: Livro
Coleção: Obras de José Saramago
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 978972003992710
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Um clássico será sempre um cássico

SC

Gostei de revisitar o Memorial do Convento nesta edição.

SOBRE O AUTOR

José Saramago

Prémio Nobel de Literatura, 1998

Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou postumamente, a 16 de novembro de 2021, José Saramago com o grande-colar da Ordem de Camões, pelos "serviços únicos prestados à cultura e à língua portuguesas", no arranque das comemorações do centenário do nascimento do escritor.

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