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Jacques, o Fatalista

Livro de Bolso

de Denis Diderot
Editor: Tinta da China, agosto de 2014 ‧
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Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Como se haviam encontrado? Por acaso, como toda a gente. Como se chamavam? Que vos interessa isso? Donde vinham? Do lugar mais próximo. Para onde iam? Sabe alguém para onde vai? Que diziam? O amo não dizia nada e Jacques dizia que o seu capitão dizia que tudo o que nos acontece de bem e de mal cá em baixo está escrito lá em cima. «
O Amo — Aí está uma grande frase!
Jacques — O meu capitão acrescentava que cada bala que partia de uma espingarda tinha o seu destino.
O Amo — E tinha razão...» Após uma curta pausa, Jacques exclamou: «Diabos levem o taberneiro mais a sua taberna!»
O Amo — Porquê mandar o próximo para o diabo? Isso não é cristão.
Jacques — É que, quando me embebedava com a zurrapa dele, esquecia-me de levar os cavalos a beber. O meu pai dava por isso e zangava-se. Eu abanava a cabeça mas ele pega num pau e dá-me uma esfrega nos ombros bastante dura. Ia a passar um regimento a caminho do acampamento em frente de Fontenoy, e eu, por despeito, alisto-me. Chegamos; trava-se a batalha...
O Amo — E recebes a bala que te ia destinada.
Jacques — Adivinhastes; um tiro no joelho. E sabe Deus as boas e más aventuras provocadas por este tiro. Estão tão exac- tamente agarradas umas às outras como os elos da corrente do cavalo. Por exemplo, se não fora aquele tiro, acho que nunca na minha vida ficaria apaixonado, nem coxo.
O Amo — Estiveste então apaixonado?
Jacques — Se estive!...
O Amo — E isso por causa de um tiro?
Jacques — Por causa de um tiro.
O Amo — Nunca me disseste uma palavra sobre isso.
Jacques — Acho que não.
O Amo — E então porquê?
Jacques — Porque não podia ter sido dito nem mais cedo nem mais tarde.
O Amo — E chegou agora o momento de saber desses amores?
Jacques — Quem sabe?
O Amo — Seja como for, começa lá...» Jacques começou a história dos seus amores. Era depois do jantar. Estava um tempo pesado, e o amo adormeceu. A noite surpreendeu-os em pleno campo; ei-los perdidos. E temos o amo numa fúria terrível, caindo sobre o criado com grandes chicotadas, e o pobre diabo dizendo a cada uma: «Pelos vistos, também esta estava escrita lá em cima.»

«A personagem do amo idiota faz talvez mais justiça à mestria de Diderot do que a personagem do criado tonto. O amo é apenas brilhantemente estúpido, o que talvez tenha sido mais difícil de alcançar do que um tonto absolutamente brilhante.»
Friedrich Schlegel

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Ler a rir

Há quem olhe para o riso com alguma desconfiança, vendo nele uma distração do que realmente importa. Mesmo nos livros, essa suspeita persiste. É muito comum considerar-se que uma narrativa a que é atribuída uma forte carga de gravidade e sobriedade é naturalmente mais relevante do que uma marcada pela leveza do humor. No entanto, o humor na literatura é uma forma particularmente lúcida de ver o mundo. Um olhar capaz de detetar o absurdo com nitidez e de reconhecer a falha humana transforma uma história num espelho retorcido, capaz de refletir, com ironia e clareza, as contradições, fragilidades e pequenas verdades do mundo.
Em cada um destes livros encontramos diferentes laivos de humor que vão do absurdo cósmico à ironia filosófica, da sátira mordaz à observação do quotidiano e ao nonsense irreverente, revelando diversas maneiras de olhar o mundo e a condição humana. À Boleia pela Galáxia, de Douglas Adams Em À Boleia pela Galáxia, de Douglas Adams, a Terra é destruída logo nas primeiras páginas, e ninguém parece particularmente perturbado com o assunto. O apocalipse surge como um contratempo administrativo num universo em que os formulários têm mais poder do que os deuses. Adams transforma o colapso planetário em rotina, como se o fim do mundo fosse apenas mais um erro de papelada cósmica. A genialidade da obra está em dar lógica ao disparate e em converter o absurdo num sistema perfeitamente funcional. O humor britânico, seco, meticuloso e deliciosamente insensato, percorre toda a narrativa, e qualquer comparação a Monty Python é legítima, já que o autor colaborou com o grupo britânico na escrita de alguns dos seus sketches. Num livro em que o sentido da vida se resume a um número, torna-se evidente que a ironia de Adams não está na resposta, mas no absurdo da própria pergunta. O escritor ri-se da nossa necessidade de ordem e sugere que o cosmos é uma sucessão impecável, e implacável, de acasos. Rir, aqui, é a forma mais sensata de existir diante do inefável. COMPRO NA WOOK! » Jacques, o Fatalista de Denis Diderot Séculos antes de Douglas Adams, Diderot já fazia do riso a sua forma mais séria de pensar. Em Jacques, o Fatalista, o narrador interrompe-se, contradiz-se e conversa com o leitor como quem desafia o próprio conceito de romance. A história avança aos solavancos, cheia de desvios e atalhos, como uma viagem que não quer chegar ao fim. Jacques, um criado com aptidões para filósofo, discute com o seu amo, um idiota, o acaso e o livre-arbítrio, e as suas conversas soam a comédia e a meditação em partes iguais. Diderot desmonta o enredo, exibe as costuras da ficção e diverte-se com o próprio ato de narrar. Confunde as fronteiras entre quem escreve, quem narra e quem lê, num movimento constante de inversões e surpresas. O humor nasce da liberdade e do prazer em subverter a ordem narrativa e em rir da ideia de destino. Todo o texto é atravessado por uma ironia quase científica, como se Diderot quisesse provar que pensar é também uma forma de brincar. O riso torna-se filosofia aplicada, uma maneira de questionar sem chegar a uma conclusão. COMPRO NA WOOK! » Catch-22, Joseph Heller Em Catch-22, Joseph Heller transforma a guerra no cenário perfeito para explorar o absurdo. O Artigo 22, inventado pelo autor e em torno do qual grande parte da história se desenrola, determina que um piloto pode ser dispensado de voar se alegar insanidade, mas o simples ato de o fazer é prova de sanidade e por isso deve continuar a voar. Este artigo é, por isso, uma armadilha perfeita, um paradoxo legal criado para que a guerra possa continuar indefinidamente. Heller transforma o conflito armado num mecanismo de loucura institucional, onde o raciocínio se torna um labirinto e a linguagem se dobra sobre si própria até ao delírio. A sua comédia é amarga, feita de repetições e de personagens presas numa engrenagem que se move sozinha. Num mundo regido por regras difíceis de compreender, a crítica social feita ao longo do livro, aliada ao humor ácido do escritor norteamericano, lembra-nos de que, às vezes, a melhor forma de lidar com o caos é rir dele. COMPRO NA WOOK! » O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie Mário-Henrique Leiria escrevia como quem acende uma luz na penumbra. Cercado pela ditadura, fez do surrealismo e do nonsense um código secreto e transformou o humor em ato de resistência. Nos Contos do Gin-Tonic, o absurdo é refúgio e a ironia uma forma de lucidez possível. Em histórias muito breves, muitas delas não têm mais do que uma página, desfilam peixes falantes, senhoras que se evaporam e cidades que se dobram sobre si mesmas. Nada obedece à lógica, mas tudo ganha um estranho sentido. O gin-tónico do título não é apenas uma bebida, é metáfora da própria escrita: leve, espirituosa e com um travo de amargura que não se dilui. Cada conto é um brinde à imaginação e à recusa da obediência, e o humor que os atravessa, entre o absurdo e a coragem de rir perante a ameaça, guarda uma melancolia que só a liberdade reconhece. COMPRO NA WOOK! » Três Homens num Barco, de Jerome K. Jerome Jerome K. Jerome via na banalidade do quotidiano uma fonte inesgotável de situações cómicas. Em Três Homens num Barco, três amigos decidem navegar pelo Tâmisa e acabam por se perder entre bagagens, tempestades imaginárias e discussões inúteis sobre quem sabe remar melhor. Nada de grandioso acontece e, ainda assim, tudo é memorável. O humor nasce da observação minuciosa, dessa capacidade de transformar o trivial em espetáculo. Jerome ri-se da hipocondria, da preguiça, da vaidade e da amizade, mas sem crueldade. O seu riso é paciente e terno, quase cúmplice. Ao longo do livro, reconhecemo-nos nos desastres domésticos e nas pequenas impaciências que pontuam a viagem destes três homens e percebemos que ser ridículo faz parte da nossa natureza. A leveza da história esconde uma sabedoria tranquila, a de que a vida, vista com suficiente atenção, é sempre ligeiramente disparatada. COMPRO NA WOOK! »

Jacques, o Fatalista

Livro de Bolso

de Denis Diderot

Propriedade Descrição
ISBN: 9789896712242
Editor: Tinta da China
Data de Lançamento: agosto de 2014
Idioma: Português
Dimensões: 131 x 185 x 17 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 256
Tipo de produto: Livro
Coleção: Ricardo Araújo Pereira
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Humor
EAN: 9789896712242

Fatalismo irónico

Alexandre Carvalho

Um dos melhores inícios de qualquer livro: "Como se haviam conhecido? Por acaso, como toda a gente. Como se chamavam? Que interessa isso? De onde vinham? Do lugar mais próximo. Paraonde iam? Sabe alguém para onde vai?" Em dálogo, em viagem, duas pessoas vulgares são obrigadas a dizer esta coisa espantosa: está tudo predestinado, mas continua a ser aleatório e por vontade não se sabe de quem. Tudo em tom de comédia.

Escrito "lá em cima"

Ana Gonçalves

Este texto surpreendeu-me, logo de início! Parece que nós, enquanto leitores, somos uma personagem que dialoga com o narrador, algo invulgar. Por isso, fica a sensação de estarmos a acompanhar a viagem e a relação do Amo com Jacques. É a partir de uma certa leveza de riso e de vários imprevistos, que iniciamos a nossa reflexão sobre o inesperado que é a experiência chamada "viver". Ajudou-me a aceitar melhor os imprevistos, pois, mesmo que tudo tenha um propósito, é melhor aceitar o que a vida nos serve dia-a-dia, com naturalidade.

Divertido e provocador

ST

O diálogo entre Jacques e o seu amo é uma história divertida e envolvente. Em contexto provocador, onde se mistura um história e amor e de lição de vida, com Jacques tantas vezes a dizer "tudo o que nos acontece de bem e de mal cá em baixo está escrito lá em cima".

O meu amigo Jacques!

Inês

Um dos melhores livros que já li! As personagens do amo e de Jacques são icónicas e hilariantes! As peripécias são fantásticas e é uma obra genialmente construida por Diderot! Um must da literatura Francesa e de leitura obrigatória! Assim está escrito lá em cima que as personagens desta obra se ia tornar nuns companheiros para a vida!

Clássico dos clássicos

Raquel

Uma interpelação constante ao leitor, uma sátira de uma época, um gozo de leitura muito grande. Um dos clássicos mais importantes a ser lido por todos.

Muito bom

Carlos Rebelo

O livro retrata uma viagem repleta de histórias que nos permitem conhecer e estabelecer uma relação de intimidade com as personagens, especialmente Jacques. Muito boa escolha para integrar a coleção de literatura de humor por parte de Ricardo Araújo Pereira.

Daquelas viagens que não queremos que acabem

Jorge C.

Clássico com mais de 2 séculos parece ainda hoje duma originalidade brilhante. Excelente edição com cantinhos arredondados. Um livro selecionado a dedo, para esta colecção, pelo humorista Ricardo Araújo Pereira. Divertidíssimo!

SOBRE O AUTOR

Denis Diderot

Denis Diderot nasceu em Langres a 5 de outubro de 1713, tendo vindo a falecer em Paris a 31 de julho de 1784. Na qualidade de filósofo e escritor escreveu Carta Sobre os Cegos - para uso daqueles que vêem e A Enciclopédia (1750-72), considerada a sua obra maior, que, apesar da oposição da Igreja Católica e dos poderes estabelecidos, levou a cabo com empenho e entusiasmo. Publicou também algumas peças teatrais (de pouco êxito), destacando-se particularmente nos romances (seguindo as normas de alguns humoristas ingleses, em especial de Stern); A Religiosa, O Sobrinho de Rameau, Jacques, o Fatalista e o Seu Mestre. A ele se devem ainda numerosos artigos de crítica de arte. Diderot fez da literatura um ofício, nunca esquecendo, porém, a sua condição de filósofo. Preocupavam-no a natureza do homem, a sua condição, os seus problemas morais e o sentido do destino.

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