Ler a rir

Zé Livreiro
@confissoesdumlivreiro
6 de novembro de 2025
Há quem olhe para o riso com alguma desconfiança, vendo nele uma distração do que realmente importa. Mesmo nos livros, essa suspeita persiste. É muito comum considerar-se que uma narrativa a que é atribuída uma forte carga de gravidade e sobriedade é naturalmente mais relevante do que uma marcada pela leveza do humor. No entanto, o humor na literatura é uma forma particularmente lúcida de ver o mundo. Um olhar capaz de detetar o absurdo com nitidez e de reconhecer a falha humana transforma uma história num espelho retorcido, capaz de refletir, com ironia e clareza, as contradições, fragilidades e pequenas verdades do mundo.
Em cada um destes livros encontramos diferentes laivos de humor que vão do absurdo cósmico à ironia filosófica, da sátira mordaz à observação do quotidiano e ao nonsense irreverente, revelando diversas maneiras de olhar o mundo e a condição humana.
À Boleia pela Galáxia, de Douglas Adams
Em À Boleia pela Galáxia, de Douglas Adams, a Terra é destruída logo nas primeiras páginas, e ninguém parece particularmente perturbado com o assunto. O apocalipse surge como um contratempo administrativo num universo em que os formulários têm mais poder do que os deuses. Adams transforma o colapso planetário em rotina, como se o fim do mundo fosse apenas mais um erro de papelada cósmica. A genialidade da obra está em dar lógica ao disparate e em converter o absurdo num sistema perfeitamente funcional. O humor britânico, seco, meticuloso e deliciosamente insensato, percorre toda a narrativa, e qualquer comparação a Monty Python é legítima, já que o autor colaborou com o grupo britânico na escrita de alguns dos seus sketches. Num livro em que o sentido da vida se resume a um número, torna-se evidente que a ironia de Adams não está na resposta, mas no absurdo da própria pergunta. O escritor ri-se da nossa necessidade de ordem e sugere que o cosmos é uma sucessão impecável, e implacável, de acasos. Rir, aqui, é a forma mais sensata de existir diante do inefável.
COMPRO NA WOOK! »
Jacques, o Fatalista de Denis Diderot
Séculos antes de Douglas Adams, Diderot já fazia do riso a sua forma mais séria de pensar. Em Jacques, o Fatalista, o narrador interrompe-se, contradiz-se e conversa com o leitor como quem desafia o próprio conceito de romance. A história avança aos solavancos, cheia de desvios e atalhos, como uma viagem que não quer chegar ao fim. Jacques, um criado com aptidões para filósofo, discute com o seu amo, um idiota, o acaso e o livre-arbítrio, e as suas conversas soam a comédia e a meditação em partes iguais. Diderot desmonta o enredo, exibe as costuras da ficção e diverte-se com o próprio ato de narrar. Confunde as fronteiras entre quem escreve, quem narra e quem lê, num movimento constante de inversões e surpresas. O humor nasce da liberdade e do prazer em subverter a ordem narrativa e em rir da ideia de destino. Todo o texto é atravessado por uma ironia quase científica, como se Diderot quisesse provar que pensar é também uma forma de brincar. O riso torna-se filosofia aplicada, uma maneira de questionar sem chegar a uma conclusão.
COMPRO NA WOOK! »
Catch-22, Joseph Heller
Em Catch-22, Joseph Heller transforma a guerra no cenário perfeito para explorar o absurdo. O Artigo 22, inventado pelo autor e em torno do qual grande parte da história se desenrola, determina que um piloto pode ser dispensado de voar se alegar insanidade, mas o simples ato de o fazer é prova de sanidade e por isso deve continuar a voar. Este artigo é, por isso, uma armadilha perfeita, um paradoxo legal criado para que a guerra possa continuar indefinidamente. Heller transforma o conflito armado num mecanismo de loucura institucional, onde o raciocínio se torna um labirinto e a linguagem se dobra sobre si própria até ao delírio. A sua comédia é amarga, feita de repetições e de personagens presas numa engrenagem que se move sozinha. Num mundo regido por regras difíceis de compreender, a crítica social feita ao longo do livro, aliada ao humor ácido do escritor norteamericano, lembra-nos de que, às vezes, a melhor forma de lidar com o caos é rir dele.
COMPRO NA WOOK! »
O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie
Mário-Henrique Leiria escrevia como quem acende uma luz na penumbra. Cercado pela ditadura, fez do surrealismo e do nonsense um código secreto e transformou o humor em ato de resistência. Nos Contos do Gin-Tonic, o absurdo é refúgio e a ironia uma forma de lucidez possível. Em histórias muito breves, muitas delas não têm mais do que uma página, desfilam peixes falantes, senhoras que se evaporam e cidades que se dobram sobre si mesmas. Nada obedece à lógica, mas tudo ganha um estranho sentido. O gin-tónico do título não é apenas uma bebida, é metáfora da própria escrita: leve, espirituosa e com um travo de amargura que não se dilui. Cada conto é um brinde à imaginação e à recusa da obediência, e o humor que os atravessa, entre o absurdo e a coragem de rir perante a ameaça, guarda uma melancolia que só a liberdade reconhece.
COMPRO NA WOOK! »
Três Homens num Barco, de Jerome K. Jerome
Jerome K. Jerome via na banalidade do quotidiano uma fonte inesgotável de situações cómicas. Em Três Homens num Barco, três amigos decidem navegar pelo Tâmisa e acabam por se perder entre bagagens, tempestades imaginárias e discussões inúteis sobre quem sabe remar melhor. Nada de grandioso acontece e, ainda assim, tudo é memorável. O humor nasce da observação minuciosa, dessa capacidade de transformar o trivial em espetáculo. Jerome ri-se da hipocondria, da preguiça, da vaidade e da amizade, mas sem crueldade. O seu riso é paciente e terno, quase cúmplice. Ao longo do livro, reconhecemo-nos nos desastres domésticos e nas pequenas impaciências que pontuam a viagem destes três homens e percebemos que ser ridículo faz parte da nossa natureza. A leveza da história esconde uma sabedoria tranquila, a de que a vida, vista com suficiente atenção, é sempre ligeiramente disparatada.
COMPRO NA WOOK! »

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!