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As Palavras da Noite

de Natalia Ginzburg
Editor: Relógio D'Água, agosto de 2023 ‧
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As Palavras da Noite é um breve romance de 1961, escrito durante a estada londrina de Ginzburg e antes do seu regresso a Itália.
Com o estilo despojado, rigoroso e próximo dos factos, a escritora exprime o sentido da história familiar, a presença dos velhos, o doloroso crescimento dos jovens e as transformações do amor e da amizade.
Através da jovem que escreve na primeira pessoa, o leitor experimenta esperanças e ilusões, que não são acompanhadas de juízos de valor.
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As Mil e Uma noites

A noite sempre esteve ligada à literatura, como cenário e como verdadeira forma de pensamento. É na noite que o tempo se desacelera, que os gestos quotidianos perdem relevo e aquilo que, à luz do dia, parecia evidente se torna de súbito problemático.
Herdamos da tradição de Shéhérazade a ideia de que a noite é, antes de tudo, um laboratório da narrativa, o lugar em que a linguagem tenta negociar com o medo, o desejo e a morte. Os cinco livros de que parto aqui: Noites Brancas de Dostoiévski, As Mil e Uma Noites, Manhã e noite de John Fosse, A Ronda da Noite de Agustina Bessa-Luís e As palavras da Noite de Natalia Ginzburg, propõem cinco figuras muito distintas da noite, que se cruzam e iluminam mutuamente. Noites Brancas, de Fiodor Dostoiévski, Em Noites Brancas, Dostoiévski escolhe uma noite paradoxal: as noites brancas de São Petersburgo, quando a claridade persiste e a fronteira entre dia e noite se torna incerta. Essa ambiguidade atmosférica corresponde ao próprio estatuto do narrador-protagonista, um “sonhador” que vive numa espécie de penumbra psicológica, suspenso entre a vida real e a vida imaginada. A cidade noturna, quase vazia, com as suas pontes e canais, torna-se prolongamento da interioridade do personagem, um espaço em que tudo é possível porque nada está ainda decidido. O encontro com Nástienka é menos um episódio romântico do que um acontecimento ontológico: durante algumas noites, o narrador acredita que lhe é concedido o direito de existir fora do seu mundo de fantasia. Mas o que a narrativa nos mostra é que essa abertura ao outro está contaminada pela mesma lógica do sonho: o amor que nasce na noite tem, desde a origem, o brilho do que está condenado a desaparecer ao amanhecer. Quando a luz do dia chega, não é apenas o idílio que se desfaz, desfaz-se a própria retórica da noite como espaço de salvação. A noite é o tempo da esperança exaltada, mas também o lugar do autoengano: aquilo que parecia epifania revela-se, em última análise, apenas mais uma figura da solidão. COMPRO NA WOOK! » As Mil e Uma Noites Bem diferente é a noite de As Mil e Uma Noites, que poderíamos chamar a noite “fundadora”. Aqui, a noite é princípio estrutural: o livro existe porque cada noite exige uma história, e cada história exige outra noite. Shéhérazade instala um dispositivo narrativo que é também um dispositivo de sobrevivência: enquanto a voz se mantiver em movimento, enquanto houver um fio de relato que não se interrompe, a morte é diferida. A noite é então o tempo do perigo extremo: a ameaça de execução ao amanhecer, mas é igualmente o tempo do engenho, da astúcia, da invenção incessante. O pacto é claro: o sultão oferece mais um dia de vida em troca de mais um episódio, e Shéhérazade transforma essa negociação brutal em arte de composição, entrelaçando narrativas, abrindo parêntesis, fazendo proliferar vozes, lugares, tempos. A escuridão que rodeia o leito real contrasta com a exuberância imaginativa dos contos, como se a literatura respondesse às trevas com excesso de luz. Se em Noites Brancas a noite é experiência individual, em As Mil e Uma Noites ela é espaço comunitário, povoado de narradores e ouvintes, de heróis, mercadores, princesas e viajantes. É uma noite barulhenta, saturada de histórias, onde o medo da morte se combate pela expansão quase infinita do imaginário. COMPRO NA WOOK! » Manhã e noite, de John Fosse Em Manhã e Noite, de , a noite deixa de ser proliferação e torna-se condensação extrema. O romance organiza-se em torno de dois momentos-limite da vida de Johannes, um pescador norueguês: a manhã do nascimento e a noite da morte. Fosse interessa-se menos pelos acontecimentos exteriores do que pelo modo como a consciência habita esses limiares. Na segunda parte, acompanhamos Johannes numa espécie de deriva pela sua própria existência, num tempo que já não obedece às regras cronológicas. A escrita, marcada por repetições, pausas, retomadas, cria um ritmo quase litânico, aproximando-se da respiração e da oração. A noite é aqui o momento em que o mundo familiar se estranha: os objetos parecem deslocados, as figuras que se aproximam podem ser vivas ou mortas, e o próprio sujeito já não tem a certeza de a quem pertence o corpo que habita. Fosse propõe uma noite rarefeita, quase vazia, em que cada palavra pesa porque pode ser a última. Esta é a noite metafísica por excelência: não a noite urbana do flâneur, nem a noite fantástica do conto popular, mas a noite em que a consciência se interroga sobre o que resta de si quando tudo o resto se retira. COMPRO NA WOOK! » A Ronda da Noite, de Agustina Bessa Luís Em A Ronda da Noite, Agustina Bessa-Luís convoca explicitamente a pintura de Rembrandt, e com ela uma determinada forma de ver a noite como jogo de contrastes, de focos de claridade recortados sobre um fundo obscuro. Essa imagética pictórica contamina o romance, que se constrói como uma sucessão de cenas em que as personagens avançam e recuam no palco social, ora expostas, ora protegidas pela sombra. A noite agustiniana não é apenas espacial, é moral e histórica. É a noite de uma certa burguesia, de uma certa ordem de família, em que o poder, o desejo e a culpa circulam através de conversas, alusões, silêncios estratégicos. A “ronda” do título sugere vigilância, mas também repetição: os gestos, as alianças, as traições repetem-se de geração em geração, como se a comunidade estivesse condenada a girar em círculo dentro desse crepúsculo moral. Agustina escreve esta noite com uma língua densamente irónica, comentando e desmontando o que narra. A noite em Agustina é ocasião de lucidez cruel: é na penumbra que se vê com maior nitidez a mecânica dos afetos e das ambições. A escuridão é a matéria de que se faz o olhar da autora: um olhar que recusa a ingenuidade do dia e prefere a complexidade dos contornos indecisos. COMPRO NA WOOK! » As palavras da Noite, de Natalia Ginzburg Já em As Palavras da Noite, de Natalia Ginzburg, o escuro entra pelo ângulo aparentemente mais modesto: o das relações familiares, das casas, dos quartos, das vozes que falam baixo para não acordar ninguém, ou para não acordar aquilo que todos preferem manter adormecido. A noite de Ginzburg é a noite doméstica, em que os pequenos gestos se tornam, sob determinado ângulo, decisivos. O título sublinha esse desvio: não se trata da noite como fenómeno físico, mas das palavras que lhe pertencem, que só se pronunciam, ou só ganham pleno sentido, quando o mundo exterior se cala. Ginzburg é mestre em captar o momento em que uma frase aparentemente banal fere como um diagnóstico, ou em que um silêncio pesa mais do que qualquer discurso. A noite, aqui, é o tempo em que as conversas ganham densidade, em que aquilo que foi adiado durante o dia vem à superfície, ainda que sob formas indiretas, elípticas.
A prosa de Ginzburg é de uma limpidez quase desarmante, mas essa simplicidade deixa ver com maior crueldade as fissuras afetivas, as pequenas violências que estruturam uma família. Ginzburg reduz o palco a uma sala, a uma cama, a uma mesa; e, nesse espaço mínimo, mostra como a noite é também o tempo em que a linguagem falha, tropeça, não chega onde seria preciso, deixando atrás de si um resto de mal-entendido impossível de resolver. COMPRO NA WOOK! » Se juntarmos estas cinco noites, percebemos que a literatura não se limita a “representar” a escuridão: ela inventa formas de a habitar. Em Dostoiévski, a noite é o tempo da ilusão necessária, em que o sujeito se permite acreditar que pode escapar ao confinamento da sua própria interioridade. Em As Mil e Uma Noites, é a grande máquina de adiamento, em que contar e viver se tornam quase sinónimos. Em John Fosse, a noite é fronteira ontológica, linha de sombra entre existência e não existência. Em Agustina, é teatro de sombras sociais, onde o jogo de luz e obscuridade revela a trama de poder e de desejo que organiza uma comunidade. Em Natalia Ginzburg, por fim, a noite é o laboratório das relações íntimas, o momento em que as palavras, desprotegidas pela rotina diurna, mostram a sua fragilidade e a sua violência.
Talvez seja este o verdadeiro parentesco entre estes livros tão diferentes: todos tratam a noite como um tempo de exceção, em que o mundo se desloca ligeiramente do seu eixo e, por isso, se torna legível de outro modo.

As Palavras da Noite

de Natalia Ginzburg

Propriedade Descrição
ISBN: 9789897833557
Editor: Relógio D'Água
Data de Lançamento: agosto de 2023
Idioma: Português
Dimensões: 153 x 232 x 9 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 128
Tipo de produto: Livro
Coleção: Ficções
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789897833557

Maravilha

Sara

A prosa do livro é simples e melancólica. As palavras da Noite dá-nos a conhecer uma família pela caracterização, à vez, de cada um dos seus elementos, começando e terminando com a mesma personagem. A escrita de Natália Ginzburg é maravilhosa de se ler.

Palavras da Noite em qualquer momento

Ler, um prazer adquirido

Deslumbrada li As Palavras da Noite de Natalia Ginzburg. Admiro a beleza das palavras que sucintamente tanto dizem sobre a natureza humana e padrões de conduta. Desprendida prosa que parece quase superficial quando conta a história resumida de uma família de uma pequena comunidade através da Elsa, que narra a sua ligação a um membro dessa família. Sem dúvida, Natalia é top.

SOBRE O AUTOR

Natalia Ginzburg

Natalia Levi, que viria a adotar o apelido Ginzburg do seu primeiro marido, nasceu em Palermo a 14 de julho de 1916.
Passou grande parte da vida em Turim, para onde o pai, professor universitário de Anatomia, foi transferido em 1919. Tanto ele como os irmãos de origem judaica foram presos e acusados devido às suas ideias antifascistas.
Apesar de a sua mãe ser católica, Natalia teve, como toda a família, uma educação laica. Estudou no liceu Alfieri e publicou o seu primeiro livro de contos, I bambini, aos dezassete anos. Cinco anos mais tarde casou com Leone Ginzburg, professor de Literatura Russa. O casal manteve relações de amizade com Cesare Pavese e Carlo Levi, entre outros escritores.
Em 1940, exilaram-se em Pizzoli. Sob o pseudónimo Alessandra Tornimparte, Natalia publicou, em 1942, O Caminho da Cidade, que seria reeditado em 1945 já com autoria assumida.
O marido foi detido e torturado até à morte na Prisão de Regina Coeli em 1944. Nesse mesmo ano, Natalia Ginzburg deslocou-se para Roma, entretanto libertada, e começou a trabalhar na editora Einaudi, aí publicando os seus livros.
Em 1947, surgiu o seu segundo romance, Foi assim, que obteve ex aequo o prémio Due Cicogne — Il Tempo di Milano.
Em 1950, casa com Gabriele Baldini, especialista em Literatura Inglesa, de quem terá dois filhos.
Em 1961, publica As Palavras da Noite, que será adaptado ao cinema. Dois anos depois, sai Léxico Familiar, uma novela autobiográfica. Interpreta o papel de Maria de Betânia em Evangelho segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini.
A partir do final da década de sessenta, publica vários livros, todos eles abordando relações familiares. Natalia Ginzburg foi também autora de várias comédias teatrais e tradutora de Proust, Flaubert e Maupassant.
Foi eleita para o parlamento italiano em 1983.
Morreu a 7 de outubro de 1991.

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