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A Cegueira do Rio

de Mia Couto
Editor: Editorial Caminho, outubro de 2024 ‧
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O primeiro incidente militar numa aldeia do Norte de Moçambique marca, em agosto de 1914, o início da Primeira Guerra Mundial no continente africano.

Esse inesperado episódio despoleta, para além disso, uma série de misteriosos eventos que culminam com o desaparecimento da escrita no mundo. Livros, relatórios, documentos, fotografias, mapas surgem deslavados e ninguém mais parece ser capaz de dominar a arte da escrita.

Os habitantes dessa aldeia são chamados a restabelecer a ordem no mundo, ensinando aos europeus o ofício da escrita e as artes da navegação.

"Mia Couto, o escritor poeta que recria o mundo, parte de uma matriz que cruza Portugal, Moçambique e a Alemanha para resgatar um passado esquecido como bálsamo de paz para o nosso presente marcado pela guerra.
A 24 de agosto de 1914, num ataque alemão ao posto militar português de Madziwa, Moçambique - junto à fronteira com a então África Oriental alemã -, foram mortos 11 sipaios africanos e um sargento português. A notícia deste assalto, verídico, chegaria a Portugal desta forma: «Na África Oriental: um incidente entre as autoridade alemãs e a administração do Niassa português. Um soldado português fuzilado». Esta notícia telegráfica, cuja frieza espelha o desprezo pelos moçambicanos no exército colonial, é o mote de partida para uma história em que cada vida é vista de dentro, como Mia nos habituou.
O poder, naquela época, era imposto pelos colonizadores: «Agora, os europeus e os árabes instalavam-se na terra dos VaYao como se ela estivesse vazia.
Estendiam uma corda e mediam o que não tem tamanho». A escrita transformou-se num poder e numa forma de representar o mundo que tem donos. Mas há uma reviravolta: a escrita desaparece do Norte do planeta. Os habitantes da aldeia de Madziwa são chamados a restabelecer a ordem, ensinando aos europeus o ofício da escrita e as artes da navegação. Perante esta inversão de papéis, como é que o mundo se irá comportar?
A história torna-se mais viva com as falas das várias personagens. Quando vê o seu amigo morrer, o sipaio Nataniel Jalasi conta: «Devagar, enchi de vazio o peito. Aquele morto respirava agora dentro de mim». Frase a frase, Mia Couto continua a surpreender-nos com significados que nem suspeitávamos existir, e que ganham forma numa história que ficará connosco por muito tempo."

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O poder da primeira frase

A primeira frase — ou o primeiro parágrafo — de um livro carrega um peso decisivo. Os escritores sabem que pode ser a diferença entre conquistar um leitor ou ver o seu livro posto de lado. Essas primeiras palavras definem o tom, expõem o tema e podem apresentar a personagem principal. Há aberturas de livros tão marcantes que se tornaram parte da memória coletiva de várias gerações. Será que as conhece? A Cegueira do Rio, de Mia Couto «Apoiado no sipaio Nataniel Jalasi, o sargento português Bruno Estrela arrastou-se pela margem lodosa do rio Rovuma. Custava-lhe caminhar. Trazia um continente agarrado aos pés. Para os europeus, o Rovuma era uma fronteira separando a «África Oriental Portuguesa» da «África Oriental Alemã». Para os africanos, o rio era uma mulher que engravidava com as grandes chuvas. A verdade era esta: ambas as margens eram habitadas por gente que, todas as noites, rezava aos mesmos deuses. O rio escutava as preces e voltava a ser nuvem.»

Num único parágrafo, Mia Couto não só traça o cenário da história, como nos coloca no despontar da ação que desencadeará uma narrativa tocante baseada num acontecimento real do passado colonial português. As causas ficam já aqui descritas: a ocupação do território africano por países europeus; as diferentes interpretações da vida e da Natureza, intimamente ligadas à ideia ora de domínio, ora de comunhão – complexidade de um lado, simplicidade do outro. E o confronto de tudo isto. COMPRO NA WOOK! » Memorial do Convento, de José Saramago «D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou.»

Saramago conta que, para escrever O Memorial do Convento, viveu, durante muitos meses, no fim do século XVII e no século XVIII» e precisou «de ler e quase de falar como então se falava», além de «decifrar documentos da época». Aliandao esse estudo prévio ao brilhantismo da sua escrita, logo na primeira frase do livro, o escritor consegue transportar-nos não só para a realidade daquele passado distante, como também para a intimidade de dois dos protagonistas da história que vai contar, criando no leitor uma expectativa, e um fervilhante interesse, sobre o que irá acontecer. COMPRO NA WOOK! » Anna Karénina, de Lev Tolstói «As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.»

Na época do lançamento deste famoso romance de Tolstói, uma jovem geração de liberais russos atacava os valores familiares tradicionais. Anna Karénina foi a resposta de Tolstói a esse ataque, criando desde logo, na frase de abertura, uma moldura para toda a história. Poderemos pensar que há algo de contraditório na frase, já que nenhuma família é feliz em Anna Karénina. Mas a dicotomia da afirmação é tentadora: queremos ser felizes ou, apenas, iguais a todos os outros? COMPRO NA WOOK! » O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway «Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe».

Hemingway apresenta-nos o protagonista, Santiago, e a sua situação difícil, ao mesmo tempo que antecipa o conflito central da história. Neste início simples, conseguimos vislumbrar a solidão do pescador e a sua má sorte, mas também a sua perserverança. Uma combinação de simplicidade e profundidade que é marca de Hemingway. COMPRO NA WOOK! » A metamorfose, de Franz Kafka «Quando uma manhã Gregor Samsa acordou de sonhos inquietos, viu-se na sua cama transformado num monstruoso inseto. Estava deitado de costas, rijas como uma couraça, e, cada vez que levantava um pouco a cabeça, via a barriga castanha, abaulada e dividida por escoras em forma de anéis, no cimo da qual a coberta, prestes a resvalar por completo, mal se aguentava. As suas muitas patas, lastimavelmente delgadas em comparação com o resto do corpo, tremulavam, desamparadas, diante dos olhos.»

Esta é, sem dúvida, uma das aberturas mais marcantes da literatura. Quase que conseguimos sentir-nos na pele – ou na carapaça – de Gregor Samsa, tão meticulosa e gráfica é a descrição que Franz Kafka dá aos leitores da situação insólita que o protagonista vive. É difícil imaginar uma experiência mais horripilante do que esta: de repente, está-se preso no corpo de um inseto. Não adiante beliscar-se, até porque deixou de ter mãos; sem perceber como, é-se um inseto!... E agora? COMPRO NA WOOK! » A primeira frase é o aperto de mão do livro. E há apertos que simplesmente não se esquecem.

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A Cegueira do Rio de Mia Couto resgata a memória e a magia de Moçambique

No seu novo romance A Cegueira do Rio, Mia Couto, o escritor poeta que recria o mundo, parte de uma matriz que cruza Portugal, Moçambique e a Alemanha para resgatar um passado esquecido como bálsamo de paz para o nosso presente marcado pela guerra.
A 24 de agosto de 1914, num ataque alemão ao posto militar português de Madziwa, Moçambique – junto à fronteira com a então África Oriental alemã –, foram mortos 11 sipaios africanos e um sargento português. A notícia deste assalto, verídico, chegaria a Portugal desta forma: «Na África Oriental: um incidente entre as autoridade alemãs e a administração do Niassa português. Um soldado português fuzilado». Esta notícia telegráfica, cuja frieza espelha o desprezo pelos moçambicanos no exército colonial, é o mote de partida para uma história em que cada vida é vista de dentro, como Mia nos habituou.
O poder, naquela época, era imposto pelos colonizadores: «Agora, os europeus e os árabes instalavam-se na terra dos VaYao como se ela estivesse vazia. Estendiam uma corda e mediam o que não tem tamanho». A escrita transformou-se num poder e numa forma de representar o mundo que tem donos. Mas há uma reviravolta: a escrita desaparece do Norte do planeta. Os habitantes da aldeia de Madziwa são chamados a restabelecer a ordem, ensinando aos europeus o ofício da escrita e as artes da navegação. Perante esta inversão de papéis, como é que o mundo se irá comportar? A história torna-se mais viva com as falas das várias personagens. Quando vê o seu amigo morrer, o sipaio Nataniel Jalasi conta: «Devagar, enchi de vazio o peito. Aquele morto respirava agora dentro de mim». Frase a frase, Mia Couto continua a surpreender-nos com significados que nem suspeitávamos existir, e que ganham forma numa história que ficará connosco por muito tempo.


UM POUCO MAIS SOBRE MIA COUTO

Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, onde o português é reinventado todos os dias. Na poesia, encontrou «o grande molde» para se tornar escritor. Na ideia de um mundo que não separa o humano da Natureza, firmou as bases para ser biólogo.
Transpôs a sua difícil experiência da guerra civil, em que ele próprio combateu, para o único livro que escreveu com sofrimento, Terra Sonâmbula, como forma de manter vivos os seus amigos, assassinados na guerra. Profundamente otimista, encontrou esperança na paz duradoura que Moçambique vive.
Como a realidade não é a sua casa, encontra na escrita uma forma «quase de sobrevivência» e de ser feliz. A obra deste escritor «abensonhado» foi distinguida, no seu conjunto, com os mais importantes prémios literários, entre os quais o Prémio Camões e o Neustadt.
Com Mia Couto, aprendemos que a poesia é uma forma de estarmos sintonizados com aquilo que não é visível. Descubra mais sobre este escritor nesta entrevista que nos concedeu aqui em vídeo e também publicada na revista wookacontece n.º 9, pág. 26.

A Cegueira do Rio

de Mia Couto

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722133111
Editor: Editorial Caminho
Data de Lançamento: outubro de 2024
Idioma: Português
Dimensões: 137 x 213 x 21 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 328
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722133111

A Cegueira do Rio

Rui Pinto

Mia Couto com a sua escrita única, inconfundível e magistral, mais uma vez o demonstra nesta obra. Um romance histórico, inspirado num acontecimento real, que transmite ao leitor uma perceção muito abrangente sobre o que eram os povos Africanos antes e depois da chegada dos Europeus às suas terras. Mais um livro a não perder, naturalmente.

Cócegas na mente

Nmar

Tenho praticamente todos os livros de Mia Couto, que ainda por cima tem a pontaria de "me presentear" com um novo lançamento sempre na altura do meu aniversário. Mais um livro brilhante, naquele seu escrever "fantabulástico" que o caracteriza. Com imaginação e razão a fazerem cócegas na nossa cabeça. Adoro!

A Cegueira do Rio

Carlos Prata

Mia Couto é um criador e inovador na palavra, mas também um escritor que expressa bem a realidade Moçambicana e por extensão da nossa humanidade.

SOBRE O AUTOR

Mia Couto

Mia Couto nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi jornalista e professor, e é, atualmente, biólogo e escritor. Está traduzido em diversas línguas.
Entre outros prémios e distinções (de que se destaca a nomeação, por um júri criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe, de Terra Sonâmbula como um dos doze melhores livros africanos do século XX), foi galardoado, pelo conjunto da sua já vasta obra, com o Prémio Vergílio Ferreira 1999 e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas 2007. Ainda em 2007 Mia foi distinguido com o Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura pelo seu romance O Outro Pé da Sereia. Jesusalém foi considerado um dos 20 livros de ficção mais importantes da «rentrée» literária francesa por um júri da estação radiofónica France Culture e da revista Télérama. Em 2011 venceu o Prémio Eduardo Lourenço, que se destina a premiar o forte contributo de Mia Couto para o desenvolvimento da língua portuguesa. Em 2013 foi galardoado com o Prémio Camões e com o prémio norte-americano Neustadt. Em 2015 foi finalista do The Man Booker Prize.
O seu livro Compêndio para Desenterrar Nuvens ganhou o Grande Prémio do Conto Branquinho da Fonseca APE | Câmara Municipal de Cascais | Fundação D. Luís I, 2023.
Já em 2024 obteve o Prémio Feira Internacional do Livro de Guadalajara (México).

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