Wook se escreve em Espanha - II

Por Vera Dantas
14 de março de 2023
Porque a literatura espanhola é riquíssima, trazemos-lhe a segunda parte de Wook se Escreve em Espanha. Na primeira parte, visitámos o Século de Ouro Espanhol, com Cervantes a guiar o caminho. Agora, é a vez dos Nobel, mas também de outros grandes mestres da escrita.


Nota: Este artigo foi originalmente publicado na Revista Wookacontece nº 8, em novembro de 2022
OS NOBEL
Espanha tem, até à data, 7 Prémios Nobel e 5 deles são de Literatura – um facto que atesta bem como este país é fértil nas letras.
José Echegaray (1832-1916) foi o primeiro espanhol a receber o Prémio Nobel, em 1904, por ter contribuído para reavivar as grandes tradições do drama espanhol. Produziu cerca de duas peças por ano, de teor melodramático, entre as quais a célebre El Gran Galeoto. As peças tiveram grande êxito nas capitais europeias, mais abertas às personagens de Echegaray, que desafiavam as normas e costumes vigentes, ao ponto de serem consideradas imorais.
Jacinto Benavente (1866-1954) foi um dos maiores dramaturgos espanhóis do século XX e Prémio Nobel em 1922. Prolífico em todos os géneros teatrais, distinguiu-se pelo realismo e credibilidade das suas obras, com destaque para La Malquerida, uma tragédia rural que aborda o tema do incesto. Muito crítico das injustiças, chegou a ser preso pelos franquistas pela autoria de Para el Cielo y los Altares, uma peça que profetizava a queda da monarquia espanhola.
Real Biblioteca do Mosteiro do Escorial.
Juan Ramón Jiménez (1881-1958) produziu uma obra imensa, reunida na sua Antologia Poetica. É aclamado pela inovadora dimensão simbólica e mística dos seus poemas, tendo vencido o Nobel em 1956 e influenciado todas as gerações de poetas subsequentes. No final da vida, sentiu-se tão envergonhado pelo sentimentalismo excessivo das suas primeiras obras, Almas de Violeta e Ninfeas, que destruiu todos os exemplares que conseguiu encontrar. Atingiu o seu auge poético com Animal de Fondo. Platero e Eu, a história tocante em que retrata a vida do burro que foi seu amigo de infância, tornou-o célebre em todo o mundo hispânico.
Vicente Aleixandre (1898-1984) desenvolveu, na década de 1930, com Espadas Como Labios e La Destruccion o El Amor, o seu estilo distintivo: o amplo verso livre, repleto de metáforas grandiosas. Viu a sua poesia proibida por Franco durante 8 anos, após o que nos deixa Sombra Del Paraiso, testemunho da sua procura por um novo propósito na vida após a guerra e exaltação da lucidez do homem enquanto poeta. Venceu o Nobel da Literatura em 1977.
Camilo José Cela (1916-2002) é reconhecido como o expoente máximo do tremendismo, estilo inspirado na tradição espanhola do grotesco humorístico. Recebeu o Nobel em 1989 pela sua «visão provocadora da vulnerabilidade humana». Em La Familia de Pascual Duarte, um clássico da literatura mundial, interioriza o drama humano num mundo rural de vivências agrestes e dá voz a um povo reprimido pela ditadura. Com A Colmeia, retrata sem pudores a Madrid das aparências do pós-guerra, solidificando a sua reputação junto da crítica e dos leitores.
GALDÓS, LORCA E OUTROS MESTRES DA ESCRITA
Benito Pérez Galdós (1843-1920) é unanimemente considerado pelos especialistas em literatura como o melhor romancista espanhol depois de Cervantes. É o principal representante do realismo espanhol e conseguiu restaurar a tradição novelística do Século de Ouro. Com uma inventividade sem paralelo entre os seus contemporâneos, criou milhares de personagens e compôs um complexo e rico mundo ficcional em que paixões, fraquezas, fisionomias e sofrimentos se entretecem num contexto urbano descrito com precisão e mestria. A par do seu trabalho mais importante, Episodios Nacionales, as suas obras mais recordadas são Fortunata y Jacinta, Miau e Tristana.
Retrato de Benito Peréz Galdós, pelo pintor Joaquín Sorolla.
Não podemos deixar de evocar ainda Federico García Lorca, poeta e dramaturgo prodigioso assassinado pelos fascistas, António Machado, aclamado poeta realista, Miguel de Unamuno, poeta e filósofo que tanto exultou Portugal, e Miguel Delibes, romancista excecional e caricaturista que retratou, como poucos, as injustiças sociais da sua pátria.

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