Wook se escreve em Espanha - I

Por Vera Dantas
28 de fevereiro de 2023
No coração de Madrid, na sede do Instituto Cervantes, há uma gigantesca caixa-forte que funciona como cápsula do tempo da cultura hispânica, a Caja de las Letras. Grandes personalidades das artes do mundo que se exprime em castelhano depositam aí um objeto de especial valor para si, fixando uma data para a abertura do seu cofre, num futuro ainda distante. A antiga caixa-forte do Banco de Espanha é hoje guardiã de um tesouro muito mais valioso do que ouro ou dinheiro. Não é esta uma maravilhosa metáfora sobre a importância da cultura?
Partindo desta certeza, reunimos os nomes mais marcantes da literatura espanhola, aqueles que não conhecem fronteiras de espaço ou de tempo, para com eles descobrirmos romances, poemas, comédias e tragédias que nos dão vidas maiores do que a nossa. Dos escritores que deixaram um legado ímpar aos talentos vivos da escrita que lançam novos olhares para o futuro, eis wook se escreve em Espanha.

Nota: Este artigo foi originalmente publicado na Revista Wookacontece n.º 8, em novembro de 2022
O SÉCULO DE OURO ESPANHOL
Entre o Renascimento do século XVI e o Barroco do século XVII, no auge do progresso artístico e literário em Espanha, viveram escritores de grande génio criativo que renovaram a literatura castelhana e conquistaram a imortalidade.

Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) é considerado o maior escritor castelhano de todos os tempos e um dos maiores da História. A sua obra teve um impacto tão importante na língua espanhola, que nos referimos a ela como «a língua de Cervantes».
El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, por Miguel de Cervantes Saavedra, edição de Salvador Tusell. Crédito: Fondo Antiguo de la Biblioteca de la Universidad de Sevilla Licença Creative Commons
O seu Dom Quixote é considerado o primeiro romance moderno e uma das obras maiores da literatura mundial. Publicado em 2 volumes, é o livro mais editado e traduzido de sempre, a seguir à Bíblia. A figura de um cavaleiro medieval (Dom Quixote), em contraste com o homem pragmático e materialista da Idade Moderna (Sancho Panza) é uma sátira de Cervantes a uma Espanha que tentava adaptar-se à mudança após um tempo glorioso. Ser «quixotesco» é viver sonhos maiores do que a nossa realidade, tomar moinhos por gigantes. Todos reconhecem a figura esguia do cavaleiro sonhador, montado no seu cavalo, com a lança em punho.
Mas foi o romance Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda que Cervantes considerou a sua melhor obra – uma história rica em paisagens e personagens com a qual conseguiu renovar os romances heroicos de aventura e de amor. Miguel de Cervantes morreu há mais de 4 séculos, pouco depois de terminar Persiles. Foi enterrado a 23 de Abril, data que hoje celebramos em sua homenagem (e de Shakespeare) como Dia Mundial do Livro.

Lope de Vega (1562-1635), o fundador da comédia espanhola, é um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. No despontar do século XVII, a necessidade de entretenimento era preenchida com comédias produzidas por escritores, e Lope de Vega, autor de mais de 1.500 peças de teatro e de 400 comédias, criou obras de uma qualidade literária incomparável. Excecionalmente mediático, este génio criativo conquistou a aristocracia espanhola, mesmo sem refrear a sua apaixonada vida amorosa, que lhe trouxe vários escândalos, mas também muitas alegrias.

Francisco de Quevedo (1580-1645), escritor magistral, notabilizou-se na maior parte dos géneros literários do seu tempo, mas foi na poesia que alcançou a posteridade. Na Antologia Poética de Quevedo, marcada pela sua forma melancólica de perceber o tempo, a morte e o amor, sente-se a influência dos poetas renascentistas espanhóis e dos contemporâneos italianos, ao lado da herança da poesia da Antiguidade Clássica.

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