Wook se escreve em Cuba – Parte II

Por Vera Dantas
Depois de, na semana passada, termos apresentado o premiado Leonardo Padura, o desenfreado Pedro Juan Gutiérrez e a resistente e poética Wendy Guerra, olhamos agora para mais quatro grandes escritores que fazem da literatura cubana universal. Esta semana, apresentamos já três dos mais icónicos.

Nota: Este artigo foi originalmente publicado na Revista Wookacontece nº 13, de novembro de 2024
 
REINALDO ARENAS
Reinaldo Arenas (1943-1990), romancista, dramaturgo e poeta dissidente, foi expulso de Cuba e condenado ao exílio. Chegou a publicar sem a autorização da UNEAC (Unión Nacional de Escritores y de Artistas de Cuba), que confiscou e destruiu algumas das suas obras. Vítima das perseguições movidas pelo regime castrista aos homossexuais, e sobretudo por criticar o governo, foi aprisionado num campo de reeducação. Quando, em 1980, pôde finalmente sair de Cuba, acabou por se instalar em Nova Iorque onde, padecendo de sida, se viria a suicidar em 1990.
Arturo La Estrella MÁs Brillante, uma pequena obra-prima, é o seu relato lírico e alucinante enquanto prisioneiro dos campos de reeducação do regime castrista, entre 1974 e 1976, e ao mesmo tempo um testemunho belo e chocante – uma única frase de 110 páginas em que Arenas ficciona a sua experiência dolorosa. Aqui temos homens enlouquecidos pela «realidade intolerável»: uns sucumbem, outros resistem, todos enlouquecem.
A autobiografia de Reinado Arenas, Antes que Anoiteça, adaptada ao cinema em 2000, é um relato que vai desde a infância, quando vivia no quarto dos criados de uma tia que era informadora da polícia, à descoberta da homossexualidade e à sua repressão, aos encontros com outros escritores, às perseguições e fuga, à chegada à América e a desilusão final. Este que é considerado o mais delirante ajuste de contas na literatura cubana, transporta para a ficção os seres meio monstros, meio vítimas que o castrismo fez nascer, ridicularizando-os.
O segundo romance do escritor, O Mundo Alucinante, um dos romances mais audazes do boom latinoamericano, foi proibido por ser considerado uma alegoria subversiva. Nele, Arenas conta a história de Servando Teresa de Mier, o monge travesso e aventureiro que viveu entre os séculos XVIII e XIX e foi perseguido pela sua heterodoxia religiosa. O monge foi banido, preso inúmeras vezes, percorreu a Espanha de Carlos IV e de Godoy, a França de Chateaubriand e de Madame de Staël, a Inglaterra de Lady Hamilton, a Itália, os Estados Unidos e Cuba. Perseguido pelo Santo Ofício, confrontou-se obstinadamente com a tirania colonial espanhola. O brilhantismo de Arenas faz deste um romance de aventuras com uma dimensão fabulosa e tranbordante de vida, marca indelével da sua obra.
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Guillermo Cabrera Infante
Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), romancista, contista, crítico de cinema e ensaísta, foi o mais proeminente escritor cubano a viver no exílio e o mais conhecido porta-voz contra o regime de Fidel Castro. Em 1998, foi-lhe atribuído o Prémio Cervantes. O tom atrevido e inovador com que escreve os seus romances, ensaios, contos e críticas de cinema é descrito como um género híbrido e novo, a “opinião narrativa”.
Tornou-se um escritor renomado com Três Tristes Tigres, um romance que, à maneira de Ulisses, de James Joyce, relata as aventuras de várias personagens jovens na vida noturna pré-revolucionária de Havana – Códac, fotógrafo; Eribó, músico; Silvestre, ator; e Bustrófedon, poeta morto que sobrevive através dos registos das suas experimentações linguísticas. Todos, cativos de uma realidade medíocre e sem futuro. Um livro divertido, repleto de jogos textuais e trocadilhos de todo o género. Mapa Desenhado por um Espião, publicado postumamente, reúne as suas memórias mais políticas, passando pelo seu desencanto perante a Revolução Cubana e a sua decisão de exiliar-se definitivamente. Persona non grata junto do establishment cultural cubano, acabaria por deixar Cuba e estabelecer-se em Londres.
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Zoé Valdés
Romancista, jornalista e guionista, Zoé Valdés (n.1959) é autora de uma obra que explora temas como a liberdade, o exílio, a repressão e a identidade, em obras como Pájaro Lindo De La Madrugá. Valdés cresceu em Havana, no meio das privações e do controlo apertado da ditadura castrista. O seu desejo de liberdade levou-a a pedir asilo político em França, aos 24 anos, no que seria o início de uma carreira literária frutuosa, em exílio e sempre crítica do regime castrista, espelhada no livro La Intensa Vida. Vive e publica os seus romances em Paris, mas as suas personagens são sempre cubanas. Valdés foi considerada a precursora do sucesso que os escritores cubanos gozam actualmente em todo o mundo.
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Alejo Carpentier
Além de escritor, Alejo Carpentier (1904-1980) foi jornalista, musicólogo e crítico de arte, tendo vencido importantes prémios como o Cervantes e o Médicis Étranger. Foi o criador do “real maravilhoso” – na sua opinião, é a melhor definição da idiossincrasia do continente americano –, o estilo que ficaria conhecido como realismo mágico. O Reino deste Mundo é uma das suas obras mais importantes, uma história alucinante passada na corte real haitiana do rei Henri Christophe. O livro expõe a luta pela liberdade dos povos escravizados na sociedade haitiana dos séculos XVIII e XIX, e mostra como a conquista de direitos não termina com os processos revolucionários contra os poderes e impérios que subjugam outros povos.
Autor-diplomata, grande amigo de Fidel Castro e da sua revolução, em toda sua obra Carpentier hesitou entre a tentativa de reconciliar a cultura europeia com a América pré-colombiana e o desespero de constatar impossível tal reconciliação.
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