Vidas em fuga

Por Álvaro Curia / Ludgero Cardoso
@literacidades
17 de janeiro de 2020
Os direitos humanos, sempre sob ameaça, precisam de ser constantemente defendidos, tal como nos tem mostrado a situação das mulheres no Afeganistão.
A pensar nisso, trazemos-lhe uma seleção de livros que nos ajudam a perceber melhor o lugar das mulheres em sociedades em que a opressão, a perseguição e a crueldade ganham contornos aterradores; apenas três livros, entre tantos possíveis, em que mulheres, ficcionais ou não, lutam contra regimes de medo e crueldade.



HABIBI
Algures num estado islâmico ficcional, uma menina é vendida a um homem que a desposa. Subitamente, outros homens sequestram-na e tentam vendê-la também, como se esta não passasse de uma peça de carne no mercado. Mas, felizmente, a nossa heroína consegue escapar e instala-se, juntamente com outra criança, num barco encalhado no deserto. A partir daqui, mil e uma histórias se desenvolvem, que remetem para outras tantas fábulas e para temas abordados em livros como o Corão e a Bíblia. E assim vamos descobrindo personagens famosas, como Moisés ou Abraão, mas também ilustres desconhecidos: as meninas do harém, os eunucos, os pescadores de lixo, vendedores, sem abrigo, comerciantes nas grandes caravanas do deserto, etc.
Esta é uma novela gráfica sobre a situação das meninas que vivem em estados opressores, que não lhes reconhecem direitos básicos; mas é também sobre todos os amores do mundo, incluindo o amor às letras, ao seu desenho e ao poder da imaginação. É um livro sobre o ato de escrever enquanto matéria viva, primordial, e sobre como é possível que de repente uma letra se transforme numa cobra que mostra onde existe água ou numa fronteira que nos protege. Os desenhos de Habibi são autênticas obras de arte, que surgem sempre enquadradas por carateres árabes ou formas caraterísticas dessa civilização. Levados pelas ilustrações, ao longo da história deixamo-nos perder no bazar ou até no deserto, cenário maior, metáfora da história.
Habibi, “meu amado”, traz-nos o medo das crianças em fuga, o desespero dos marginalizados e sobretudo os grandes olhos de Dolola e a expressão doce e inocente de Zam, criança em desencontro com a sorte.
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UMA MULHER DESNECESSÁRIA
Aalaya é uma tradutora septuagenária com vários episódios traumáticos ao longo da sua vida: uma infância de negligência, uma mãe ausente, um casamento frustrante que terminou em divórcio e uma vida à margem de um país em guerra permanente.
Estamos em Beirute e conhecemos esta mulher, na sua cidade e nos seus livros. Atravessando vários momentos da história recente do Líbano, o enredo emoldura as reflexões de Aaliya em excertos de várias obras da literatura, sendo, portanto, também um livro que nos devolve outros. E é neles que a tradutora desta história mergulha para procurar fugir do que a rodeia. Por muito que tente resistir às histórias dos livros, e quando tudo lhe parece desinteressante, Aalaya não consegue evitar as páginas de clássicos, que traduz metodicamente para o árabe sem nunca dar um fim comercial às suas traduções. Fica-nos na memória uma mulher fora daquele contexto, dos padrões exigidos a uma mulher numa sociedade extremamente machista e misógina. Uma espécie de eremita, com os seus rituais imutáveis, a sua apatia social, presa a determinados momentos da sua própria história, que marcam a sua vivência do presente.
Uma Mulher Desnecessária é um retrato das impressões de Aalayah, da amargura com que esta observa o mundo. Encontramos vários excertos de Fernando Pessoa, ao longo do livro, bem como considerações sobre outros autores. Além de nos falar da vida de uma mulher incomum, esta obra é uma descoberta constante de outras histórias obras e escritores.
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NÓS SOMOS REFUGIADAS
Malala Yousafzai não precisa de apresentações. A ativista paquistanesa é a pessoa mais jovem de sempre a ter recebido um Prémio Nobel. Recebeu-o em 2014, pelo seu trabalho em defesa dos direitos humanos, em particular das jovens mulheres, no acesso à educação na região paquistanesa do vale do Swat, onde os talibãs não permitem que as raparigas frequentem as escolas.
O seu ativismo quase lhe custou a vida, quando, em outubro de 2012, com apenas quinze anos, um homem a alvejou com três tiros. Malala sobreviveu e vive agora no Reino Unido, de onde continua a fazer um intenso trabalho de luta contra a repressão de crianças e jovens e pelo direito à educação.
Eu, Malala é o seu livro mais conhecido, onde conta a sua história enquanto jovem menina no Paquistão. Nós Somos Refugiadas é constituído por um conjunto de testemunhos (incluindo o da autora) de raparigas que foram forçadas a abandonar as suas casas para viver em constante fuga, em campos de refugiados, em terras estranhas. São histórias de uma luta incessante, de sofrimento, mas também de esperança e de sucesso. Contém testemunhos de mulheres resolvidas, exemplos de coragem incríveis, mas ao mesmo tempo tão próximas que todos nós poderíamos conhecê-las. Os relatos são complementados com informações sobre as ONG’s que trabalham em prol dos refugiados.
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