Temas a escaldar para ler num verão morno

Por Álvaro Curia e Ludgero Cardoso
@Literacidades
17 de janeiro de 2020
A proposta é clara: ler para esclarecer, dar argumentos. Se há algo que estes três livros fazem é informar quem os lê acerca de uma perspetiva em relação a três assuntos matriz da sociedade atual. Para depois formar opinião e refletir sobre os temas de uma forma elucidada e contemporânea.



DETESTO OS HOMENS
Está lançado o caos só com o título. O livro tem inflamado os ânimos mundo afora e não queremos que a hype nos passe ao lado.
Pauline Harmange diz-nos que as mulheres têm todo o direito de detestar os homens. Detestar a masculinidade tóxica que as atira para um corredor esconso na hora de ter um papel de relevo na sociedade. Homens esses que, não sendo todos eles violadores, são o género praticamente exclusivo de quem viola. E é provável que, ao longo da sua vida, uma mulher passe por abuso sexual, assédio, abordagens não solicitadas, toques ou palavras indesejadas. À mulher é pedida uma discrição beatífica, falta-lhe o direito de poder dizer e usar o que lhe apetece, de interromper o discurso do colega ou de impor os seus problemas como válidos, sem que seja imediatamente apelidada de histérica ou mal-amada. Segundo a autora, tudo em torno da educação e da postura da mulher é condicionado por homens e, por isso, aponta a «sororidade» como solução: a constituição de espaços seguros, organizados apenas por mulheres que se apoiam mutuamente e se compreendem.
Uma leitura a fazer procurando contextualizar os argumentos que Hermange expõe, juntamente com um conjunto de factos relevantes sobre o lugar da mulher na sociedade moderna.
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RACISMO NO PAÍS DOS BRANCOS COSTUMES
Portugal é um país racista? Joana Gorjão Henriques responde a esta questão de forma inequívoca, baseada em informação credível e testemunhos na primeira pessoa. Segundo os dados que a jornalista analisa, partindo de inquéritos de âmbito nacional espelhados em estudos comunitários, Portugal é um país onde existe um racismo intrínseco, alicerçado no passado colonial, comprovando a existência, no Portugal de hoje, de discriminação com base na cor. Essa discriminação reflete-se, por exemplo, ao nível da obtenção da nacionalidade, da habitação, da educação ou do emprego. Uma professora universitária negra a quem perguntam se sabe ler, uma família que quer alugar uma casa e o proprietário deixa de responder quando percebe o sotaque angolano, crianças mestiças insultadas na escola por serem «escuras», uma percentagem assustadora de pessoas que, quando questionadas de forma anónima, acham que existem raças mais inteligentes e culturas mais válidas. Este é o Portugal que Gorjão Henriques retrata, dando ao leitor ferramentas para agir contra o que considera ser um racismo sistémico. Não obstante, nem todos os dados apresentados nos deixam desconfortáveis. No final, a jornalista dá a conhecer várias associações, projetos de voluntariado e ativismo, pequenos negócios e influenciadores digitais, que trabalham diariamente com a esperança na construção de um mundo melhor.
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O FIM DO ARMÁRIO
Há livros que escancaram portas e este é um deles. Bruno Bimbi escreveu um autêntico tratado sobre a situação da comunidade LGBTQIA+ no século XXI; um livro atualizado, de uma força e determinação inabaláveis.
O autor vai ao cerne da questão e apresenta-nos um livro sobretudo direto, factual, com afirmações baseadas em evidências, dados documentados e impressões de uma pessoa que luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+ há vários anos, junto, por exemplo, dos vários governos brasileiros e argentinos. Este é um livro que muda a nossa forma de pensar em relação à intrincada rede estabelecida entre os governos brasileiros e as igrejas evangélicas, ao passado do atual Papa e a sua relação com o processo de legalização do casamento de pessoas do mesmo sexo na Argentina, ou o drama que enfrentam diariamente as pessoas LGBTQIA+, com a constante opressão, discriminação e ataques homofóbicos. O autor traz-nos testemunhos na primeira pessoa que nos aportam uma dimensão muito concreta da vivência de uma identidade sexual diferente da maioria. Perante a afirmação inicial de que a adolescência lhe foi roubada por ser gay, Bimbi caminha até ao fim do livro trazendo o que já foi feito no percurso pela igualdade, mas, sobretudo o que ainda falta fazer, propondo uma união efetiva entre os ativistas e o fim de querelas que nada contribuem para o avanço das mentalidades.
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