Próximo destino: as Américas

Por Álvaro Curia / Ludgero Cardoso

@literacidades
17 de janeiro de 2020
Vamos de viagem? O destino é à escolha, mas o denominador comum são as Américas. Norte, centro, Sul, essa parte já é só com o viajante. Mas pouco têm de panfletários estes relatos de viagem. Neles encontramos um homem que inicia a viagem em sua casa, uma mulher que se rende à cultura de um povo e dois rapazes pouco habituados a dormir em hotéis.

O VELHO EXPRESSO DA PATAGÓNIA
E se amanhã sair de casa, apanhar o metro, depois um comboio, outro e mais outro, e acabar a viagem no extremo de um continente? Para Paul Theroux, uma viagem comum no metro de Boston, prolongou-se numa expedição América abaixo, que terminou meses depois, na Patagónia, a mítica província argentina. Paul procurava ser um viajante, e não um turista. E, como tal, a facilidade não o cativava: as terras sem nome, as províncias perdidas ao longo da latinidade de um continente imerso em contrastes. A viagem é narrada sempre na primeira pessoa e por isso seguimos sentados no banco ao lado de Paul, acompanhamos as suas buscas pelo retrato original dos países por onde passa, a conversa com os trabalhadores, a rota secundária e os olhares anónimos.
É um livro descritivo e factual, mas onde a descrição e os factos surgem aconchegados nas observações deste viajante solitário que, pelo caminho, vai conhecendo diversas figuras. Entre elas, Jorge Luis Borges, que Theroux encontrou em Buenos Aires e com quem conversou bastante. Descobrimos essas conversas no livro, mas também todos os imprevistos da viagem: o cansaço, a irritação, o receio.
O Velho Expresso da Patagónia não é aquele livro de viagens que nos doura a pílula. Pelo contrário, mostra-nos o bom e o mau de sair de casa. É curioso que, mesmo assim, no final da sua leitura, tudo o que nos apeteça seja fazer as malas e partir.
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CINCO VOLTAS NA BAHIA E UM BEIJO PARA CAETANO VELOSO
É impossível ler este livro e ficar quieto. Ou sambamos, ou vamos buscar uma caipirinha, ou começamos a fazer as malas para embarcar rumo a Salvador. Parados é que não. Alexandra Lucas Coelho mostra-nos uma Bahia longe dos prospetos turísticos e das selfies de Instagram: o sincretismo de religiões, cores e sons ajudam-nos a recriar um imaginário que veio até nós através das grandes produções da Globo. Não é difícil vermos Gabriela passar atrás de uma duna por onde a autora se perde, ou Tieta de lenço solto em frente ao mar. E já que falamos de Jorge Amado, este é personagem central destas descrições. Mas não tanto como Caetano Veloso que, todo ele Bahia e Salvador, é figura de culto para a autora, personalidade máxima da tropicália que Alexandra Lucas Coelho aqui nos apresenta.
Este livro traz também algumas discussões muito válidas, como a falsa ideia da miscigenação amigável das Navegações (Alexandra Lucas Coelho fala antes de uma série de violações em massa) ou a reflexão sobre a língua portuguesa enquanto língua como pátria de emoções e de expressões culturais. De um momento para o outro, estamos numa roda de samba, num terreiro de pai de santo ou num barzinho pé na areia a ouvir um sambinha. Não era disso mesmo que precisávamos agora?
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A EDUCAÇÃO DOS GAFANHOTOS
A ideia de uma road trip não nos passa com a idade. Pegar num carro e sair por aí de vento nos cabelos não é história só para adolescentes. Secretamente, guardamos vida fora o sonhos de que vai ser este ano que ficamos a dormir em tendas montadas em estações de serviço, ao lado de grandes centrais elétricas, e seremos devorados por mosquitos algures no mato onde adormecemos. Ou, então, se calhar não, e a idade traz-nos alguma exigência de conforto.
Não era a que tinham, certamente, os amigos David e Marco. Na flor da juventude, no auge da contrariedade às normas, estes poetas inventam vidas a cada segundo e conseguem colocar-se em situações que, imaginadas, não seriam tão insólitas. Imaginadas? Mas não estamos perante uma obra de ficção? É verdade, mas todo o livro passa uma ideia de verosimilhança que constitui o seu grande trunfo: aquelas aventuras mostram que a realidade ultrapassa a ficção e aqueles poderiam, de facto, ser dois miúdos em digressão pela costa oriental dos Estados Unidos. A forma como David, heterossexual, defende a comunidade lgbtqia+ perante uma plateia de homofóbicos na Geórgia, ou a cumplicidade que demonstram quando se dá o 11 de setembro e os amigos ficam presos no país mostram que estes gafanhotos têm pelo na venta e esta história é na verdade também um relato de viagem.
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