Vamos abraçar José Luís Peixoto?

Por Álvaro Curia / Ludgero Cardoso

@literacidades
A alguns autores damos as mãos de olhos fechados. A poucos. A confiança e a entrega com que nos relacionamos com determinados escritores fazem com que “poupemos” os seus livros, para que não se acabem, ansiosos de que surja uma nova oportunidade para os encontrarmos em nós.
José Luís Peixoto é um dos autores que abraçamos de coração e, no ano em que Almoço de Domingo, o seu mais recente romance, felizmente teima em não sair do top dos mais vendidos, propomos outros três livros do autor.

 
ABRAÇO
São raras as vezes em que um escritor nos deixa entrar assim no seu mundo. Passamos a conhecê-lo bem, amparamos-lhe as quedas de criança, acompanhamos as suas deambulações de adolescente e vamos observando o jovem adulto encarar a vida, entre peripécias, a estupefação dos dias, as raízes na terra tão densa de imagens que é o Alentejo.
Neste Abraço, vamos de mão dada, somos conduzidos por pequenos textos onde nos deparamos com grandes reflexões, mas também, e sobretudo, com a originalidade da constatação. José Luís Peixoto no seu papel de tradutor da realidade, como só ele sabe, dando magnitude de palácio aos pequenos acontecimentos de porta de prédio.
De tão próximos que estamos, quase lhe chegamos a caneta para escrever, partilhamos muitas das suas aflições e, sobretudo, momentos em que rimos. Como daquela vez em que, ao acordar no seu pequeno apartamento do centro histórico de Lisboa, nos idos de uma cidade sem glamour, Peixoto se dirige à casa de banho e verifica que todo o chão ruiu e descansa impávido no apartamento de baixo. Resta o espelho, no mesmo lugar, onde ainda lhe é possível ver com que cara recebe o dia. Passamos também pelos seus ídolos, entre os quais o incontornável Saramago, pela construção dos romances e o percurso até se consagrar como um dos mais importantes autores portugueses da atualidade. Tudo contado com aquela admiração tranquila, onde cada frase nos remete a um Alentejo que fazemos também nosso.
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UMA CASA NA ESCURIDÃO
Nas palavras do próprio autor, este é um livro para pessoas especiais. As que não têm medo de encontrar em si próprias lugares ensombrados por uma tal escuridão que dói da forma mais afilada, empurrando-nos através de um túnel em que nos vamos despojando de tudo. Não é uma leitura fácil. O desplante com que a violência acontece perante os nossos olhos oprime qualquer hipótese de redenção e faz com que estilhacemos tudo o que nos é mais caro. A maternidade ganha contornos de porto maior e olhamos a mãe que desiste, que não consegue abrigar.
Numa casa coberta de heras, com o seu brasão, conhecemos um escritor apaixonado por uma mulher que vê apenas quando fecha os olhos; uma mãe estirada num sofá, imersa em gatos e comida, derrotada; e uma escrava de olhar sereno, que nos devolve alguma da placidez que não encontramos na montanha, na estátua do jardim ou no cemitério da cidade. A esta casa regressa um príncipe, melhor amigo, e chega um violinista, trazendo a música consigo. Nesta terra, os editores são obrigados a publicar todos os livros que se lhes apresente, sob pena de irem parar à cadeia e serem tratados como os piores entre os criminosos. Depois, as invasões. O extirpar de tudo o que nos faz humanos. Mas há sempre forma de desaparecermos mais um pouco. A escuridão não acaba.
Uma história onde esperamos encontrar alguma luz, sem garantias de que um mínimo raio de esperança brilhe no final.
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AUTOBIOGRAFIA
A desmaterialização do tempo e do espaço é uma das caraterísticas da obra de José Luís Peixoto. Neste livro, encontramos três Josés, que coabitam um romance multidimensional onde a principal presença, que se sobrepõe às outras, é a de José Saramago.
As várias interpretações, inseridas dentro de uma moldura comum, conduzem-nos à obra do Nobel da Literatura português e, assim, encontramos vários pontos de ligação entre livros, personagens e acontecimentos da vida real.
A título de curiosidade, a audácia de escrever uma obra de cariz biográfico sobre uma figura com o relevo de José Saramago encontrou eco positivo em Pilar del Río, primeira pessoa a ler esta Autobiografia. A partir daí, José Luís Peixoto sentiu-se mais confiante: a opinião da companheira de Saramago, personagem também deste livro, era ponto essencial.
Os três Josés são o próprio Peixoto, escritor, que está sempre presente numa das dimensões da obra e que ficamos aqui a conhecer melhor; não tanto, porém, como Saramago. O escritor de O Ano da Morte de Ricardo Reis transforma-se aqui em homem real, de carne e osso mas, ainda assim, personagem de papel.
Por fim, o escritor José tem como missão a biografia de Saramago, mas a vida parece constantemente afastá-lo do seu caminho. Lídia, que já foi de Pessoa, de Saramago e é agora de Peixoto, apresenta-se como uma imigrante cabo-verdiana que trabalha num minimercado de Lisboa e é, também aqui, uma das personagens mais interessantes do enredo.
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