Livros para conhecer Annie Ernaux
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10 de outubro de 2022
Annie Ernaux recebeu o Nobel da Literatura. Quem a conhecia achou bem. Quem não a conhecia tem bar aberto para a conhecer agora. Eis algumas sugestões:
Uma Paixão Simples
É uma boa porta de entrada, tanto pela escrita quanto pelo tema. Uma paixão desarmante entorpece sempre e aqui temos a história desse torpor. No romance, uma mulher e um homem dão as mãos. Ela divorciada, ele casado, ela mais velha. É a história de um desastre e o leitor fica a ver o comboio descarrilar. Ela espera por ele – o leitor espera também. Não há clichê maior do que este, mas os clichês não existem por acaso. Annie Ernaux entra nas vísceras desta paixão simples. A sua prosa é despida de manias – só tensão, só osso. Quem a lê sofre com ela. Se tiver mais de 15 anos, talvez volte ao passado durante dois ou três minutos, se pergunte para onde foi a energia de querer sorver tudo num minuto. A história, que tem sofrimento, provoca êxtase, inveja e principalmente alívio.
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Os Anos
É um país ou uma mulher? Com uma escrita minimalista, Annie Ernaux vai a tudo, encarando o período entre 1941 e 2006. A história é coletiva e pessoal, a experiência de leitura é a de quem recebe um todo orgânico. Há a construção de uma identidade coletiva e a análise do impacto que cada fotografia, música ou filme tem na identidade individual. Ali temos 60 anos da história francesa. O livro encantou França. Depois saiu de lá e continuou a encantar, tendo recebido o Prémio Strega 2016 em Itália e tendo sido selecionado para o Prémio Man Booker International em 2019. No país de origem, recebeu o Prémio Marguerite Duras.
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O Acontecimento
Acabou de sair por cá e é emoção em estado puro. Annie Ernaux não sabe o que é escrever prosa inútil. Cada frase é depurada, cada parágrafo chega limpinho, sem gordura. Em 1963, a autora engravidou sem querer. Na altura, com 23 anos, estudante, teve de enfrentar um país em que a interrupção voluntária da gravidez era ilegal. Não teve o apoio da família, procurou terminar a gravidez indesejada em quase absoluta solidão. O Acontecimento relata a memória disto, quase 40 anos depois, e Ernaux é boa a pegar nos picos que fizeram doer lá atrás e a transformá-los em picos que entrem na pele agora. Há beleza trágica na forma como é narrado o drama pessoal, mas nunca passa ao lado a violência de uma lei que existe contra as mulheres, que lhes diz até que ponto mandam nos seus corpos. Mas, se a lei é cega, a vontade vê. Ora, com boa prosa, também o leitor vê – no caso, uma agulha de tricô a entrar num sexo, num retrato violento, seco, arrepiante.
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