Entrevista a Luís Corte Real

17 de janeiro de 2020
Luís Corte Real fundou a editora Saída de Emergência em 2003 e vive rodeado de livros desde a infância, mas só agora se decidiu a escrever um. Responsável pelas edições portuguesas de Guerra dos Tronos e por muitas outras obras icónicas de fantasia (e não só, também publica no nosso país Nora Roberts, por exemplo), é um apaixonado por livros, pela edição e com este seu primeiro livro mergulha o leitor na Lisboa oitocentista de Eça, apimentando-a com pinceladas de sobrenatural, mistério e aventura.
Estivemos à conversa com ele para saber mais sobre esta Lisboa de neblinas e vielas obscuras.





Luís Corte Real
Luís Corte Real
Já publicaste tantos livros de outros autores, como é que está a ser esta experiência de publicares pela primeira vez um livro escrito por ti?
Lançar um livro é muito diferente de escrevê-lo, mas tem corrido bem. Como é um livro de um género muito diferente, porque não se escreve muita literatura fantástica em Portugal, quando surge algo com toques de fantástico acaba por despertar atenção. Sobretudo, porque, neste caso, o fantástico está entretecido com traços de romance histórico e de policial, também. Não é uma fantasia como a Guerra dos Tronos ou ficção científica, acaba por ser algo meio gótico, meio romance histórico, meio policial, do tradicional detetive do oculto, que é uma figura clássica da literatura fantástica, do cinema, da televisão e da BD, mas que em Portugal não tem grande tradição.
Por isso, quando tentei arranjar uma descrição muito sucinta do projeto, chamei-lhe uma espécie de Ficheiros Secretos na Lisboa de Eça de Queirós. Acho que isso resume bem o que procurei escrever.

Fundaste a editora Saída de Emergência em 2003 e vives rodeado de livros pelo menos desde essa altura. Ao longo deste tempo fomos lendo alguns textos teus esporadicamente, mas só agora publicas um livro. Porquê?
De facto, durante estes dezoito anos só escrevi três ou quatro contos para projetos que nós, editora Saída da Emergência, organizámos. Antologias de fantástico e fantasia, como o livro Os Contos Mais Épicos de Conan, sempre na coleção BANG, que é a nossa coleção de literatura fantástica.
Porquê o romance agora? Porque, finalmente, depois de trinta anos de escrever e desistir, de fazer projetos e desistir, e de já estar resignado ao facto de que escrever um livro não era para mim, uma vez que era algo que exigia uma disciplina e uma capacidade de sacrifício muito grandes, encontrei uma fórmula para escrever.
Penso que até tenho bastante disciplina e a capacidade de sacrifício necessária, mas nunca consegui aplicá-las à escrita. Aplicava-as ao meu trabalho, às minhas responsabilidades, aos estudos, mas não à escrita e a verdade é que já estava resignado com isso. Até que há coisa de dois anos acabei por encontrar a fórmula para escrever com regularidade, que é o primeiro passo: escrever com regularidade, sem desistir, sem me entediar, sem ficar farto, sem querer fazer outras coisas…. Encontrei o meu método. Sem isso, pode haver muito gosto, tempo, ideias, pode haver até talento, mas, não havendo método, acaba por ser como aqueles futebolistas que dão uns toques fabulosos, mas nunca vão a lugar nenhum, nunca chegam a uma grande equipa.
Aconteceu agora porque tenho há cerca de dois anos esse método de trabalho que funcionou e agora já não passo um dia sem escrever. Só vou para a cama satisfeito se tiver sido um dia em que, ou escrevi, ou pesquisei, para depois poder escrever.


 
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O Deus das Moscas Tem Fome é o primeiro livro de Luís Corte Real, fundador da editora Saída de Emergência.
A ação do teu livro, O Deus das Moscas Tem Fome, decorre na Lisboa oitocentista, o que deve ter implicado muito trabalho de investigação, justamente. Como foi esse processo?
Como o livro tem uma grande componente de romance de época ou histórico, era de facto necessário fazer muita pesquisa. Passa-se na Lisboa de há 150 anos, que tem alguns pontos em comum com a Lisboa de hoje em dia, mas é fundamentalmente diferente, a nível de arquitetura, moldura humana, hábitos, política, religião, dia a dia, o papel das mulheres, da igreja, profissões, roupa, relógios, luvas, carros, animais….
É uma viagem no tempo e tentei oferecer na escrita essa viagem no tempo aos leitores, o que implicou realmente muita pesquisa. Muitos livros, muita internet… Quando pensava “já sei o suficiente sobre a Lisboa oitocentista para poder escrever”, também sabia que há sempre mais coisas para descobrir, mais um livro sobre o Teatro São Carlos, sobre o Chiado, sobre as doenças típicas do século XIX, as epidemias, a cólera, mais um livro sobre a emigração… É um processo que está sempre a desenrolar-se, em paralelo com a escrita.
Agora estou a escrever o segundo volume, que já está bastante adiantado e vou, pela primeira vez, levar a personagem principal, o Benjamin Tormenta, que é um detetive do oculto, à cidade do Porto. O próprio Fontes Pereira do Melo pede-lhe, neste segundo livro, como um favor pessoal, que vá resolver um caso ao Porto. Conheço o Porto, onde vou muitas vezes e tenho família; mas a questão é: como era o Porto em 1874? Não faço ideia! Por isso ando a comprar livros sobre a cidade, a fotocopiar coisas que encontrei, coisas escritas por professores… Depois juntei tudo e comecei a escrever esta semana, porque já me sinto capaz de escrever um conto ambientado nesse Porto, mas foram dois meses de pesquisa para descobrir as ruas, a comunidade inglesa, a ler romances do Júlio Dinis, do Almeida Garrett ou do Camilo Castelo Branco, para perceber como falavam as pessoas na época… é outro Porto, outro mundo.
Esse é o fascínio de escrever romance histórico: a possibilidade de recriar. É trabalhoso, é verdade. Se fosse um policial passado em 2021 era tão mais fácil!

Porquê o século XIX e não a atualidade ou outra época?
Há dois escritores de que gosto muito. Não gosto apenas das suas obras, gosto também de tudo o que está à volta delas: um é o Eça de Queirós, que a meu ver continua a ser o melhor escritor de língua portuguesa de sempre e, quanto mais leio outros escritores portugueses e novos escritores, mais me rendo ao Eça. Acho que isto não acontece por eu ter ficado parado no tempo, mas porque ele é realmente superior a tudo. Talvez o Saramago também, que é arrebatador, mas o Eça é o Eça e é um clássico. Cento e cinquenta anos depois continua a ser genial.
Outro autor de que gosto muito é o norte-americano H. P. Lovecraft e os contos dele passam-se nos anos trinta do século passado.
Há, portanto, duas épocas que me seduzem: a vitoriana, o seja, o final do século XIX, e o início do século XX. Estava indeciso entre as duas, mas sabia que a ação se iria desenrolar em Lisboa. Quem diz Lisboa, diz Cascais, Sintra, Macau, Porto… Eventualmente vou “pôr” o Benjamim Tormenta a passear por todo o país e também pelo estrangeiro. Já escrevi, aliás, um conto novo, que na verdade é um romance, ambientado no Egito. Peguei no livro de viagens do Eça sobre o Egito e coloquei o Tormenta a fazer uma viagem muito semelhante à desse livro: parte de Lisboa, vai para Gibraltar, segue para Malta e daí para o Egito.
Acabei por optar pela época vitoriana porque os romances do Eça são autênticos guias de viagem, da sociedade, etc. O Eça falava obviamente mais da burguesia e da aristocracia, da Lisboa dandy e chique, enquanto o Tormenta também anda pelos becos sujos, pelas casas de ópio, pelas casas de “meninas”, sofre navalhadas na noite lisboeta e não só… Esses elementos, já não fui buscá-los ao Eça, naturalmente, tive de usar outras fontes, mas há muita informação interessante disponível e, no final, na escrita, tudo se conjuga.


É muito curioso que digas que Eça foi uma grande fonte de inspiração e de informações para a tua escrita porque, no manifesto da coleção BANG, que surge aliás nas primeiras páginas de O Deus das Moscas Tem Fome, pode ler-se que «todas as obras são válidas desde que ignorem as limitações do realismo.»; mas o Eça, que foi então uma inspiração para o teu livro e até participa nele enquanto personagem, é justamente o nosso maior escritor realista.
É verdade! (Risos) O que tentei fazer foi conjugar o realismo do Eça (porque queria que o Portugal do século XIX que encontramos no livro fosse realista) com o fantástico do Lovecraft e de outros autores e personagens a quem dedico os contos: seja o Mike Mignola, cujas bandas desenhadas me inspiraram muito, seja o George Lucas, com o Indiana Jones, que é uma personagem pulp dos anos trinta… São tudo inspirações. Todos esses autores ajudaram à minha construção e, portanto, contribuíram para a criação do livro. Tento, com esta obra, elogiá-los e trazê-los, a eles e às emoções que os seus livros, séries ou filmes me provocaram, para a nossa realidade, para a Lisboa oitocentista de Benjamim Tormenta.


O livro pode ser lido como uma sucessão de contos, mas disseste numa entrevista que para ti se trata de um romance em partes ou mosaicos. Podes explicar um pouco essa ideia?
Geralmente os contos do mesmo livro são independentes entre si, não têm relação entre eles. Podemos lê-los na ordem que quisermos ou nem sequer lê-los a todos. Têm personagens diferentes e apresentam universos diferentes…
Mas, neste livro, os contos seguem uma ordem cronológica e há um arco narrativo que os une. Para acompanharmos esse arco, que é a relação do Benjamim Tormenta com a entidade que o habita, temos mesmo de ler os contos todos pela ordem em que surgem no livro, pois, de contrário, há coisas que deixam de fazer sentido. Por isso, vejo este livro como um romance em partes. Há contos maiores, outros mais curtos, mas fazem parte de um todo, como se fosse uma série de televisão em episódios.
E há ainda outra razão: comercialmente não é vantajoso falar em antologia de contos, porque em Portugal existe um certo preconceito ou desinteresse pelo género. Às vezes pergunto-me porquê, já que há contistas maravilhosos…
Mas um amigo dizia-me, com razão, que os contos têm uma desvantagem relativamente ao romance: o leitor investe o seu tempo e apaixona-se pela personagem, mas ao fim de umas páginas acaba tudo. Depois tem de começar do zero no conto seguinte e nunca chega propriamente a sentir que há um horizonte longínquo para descobrir.
No caso de O Deus das Moscas Tem Fome, o Benjamim Tormenta é a personagem principal de todos os contos do livro e as personagens secundárias vão circulando, como o criado dele, o Eça, o Fradique Mendes, o rei D. Luís, o Fontes Pereira de Melo (o equivalente ao nosso Primeiro-Ministro da altura, que recorre muito ao Tormenta para resolver alguns imbróglios)...
A própria Madame Wei aparece no princípio, no fim, e provavelmente surgirá em livros posteriores também. O Tormenta tem uma relação estranha com ela: por um lado acha que deve ser aniquilada, mas por outro pergunta-se se ela não será também uma vítima involuntária das transformações que sofre. Há um erotismo na relação destas duas personagens e o Tormenta está indeciso entre matá-la e beijá-la.


Benjamim Tormenta “é o primeiro investigador do paranormal da literatura nacional”. Qual foi a tua maior inspiração para a personagem?
Vem da mescla de géneros, de tudo o que fui lendo e vendo… O Mike Mignola é uma grande influência, o Lovecraft também, o Eça… É fruto dos meus gostos, dos livros e filmes que mexeram comigo, tudo isso misturado numas proporções que eu próprio não sei dizer exatamente quais são, mas que resultou num desejo de um detetive do oculto na Lisboa de Eça. Acrescentei o demónio (o tormento do Tormenta) que transforma o detetive numa espécie de super-herói, dando-lhe capacidades que um mero mortal não tem, mas que lhe saem do corpo. Paga um preço caro por isso e tem com este demónio uma relação muito tensa de dependência e de ódio e isso terá eventualmente de ser resolvido. Ou Tormenta mata ou demónio ou é morto por ele. É esse arco narrativo que vai acompanhando os contos. Pouco a pouco vou descascando a cebola e nem eu próprio sei ainda como acabará, apesar de planear muito os meus contos.
O George R. R. Martin , sempre que lhe perguntam que tipo de escritor é, dá a mesma resposta: diz que existem os jardineiros e os arquitetos e ele, Martin, é um jardineiro: deixa a planta crescer e vai aparando, mas nunca sabe muito bem para onde ela crescerá. Mas há escritores que são arquitetos: planeiam tudo até ao fim, os capítulos, as vírgulas, quase, e depois então começam a escrever.
Eu também planeio tudo até ao fim, mas quando começo a escrever vou “podando” e às vezes surgem curvas inesperadas… Não sei como vai acontecer, mas sei que irá acontecer. E terá de acabar de forma um pouco agridoce, bem e mal ao mesmo tempo.


A meio do livro há um conto escrito por Anabela Natário. Como é que surgiu essa participação de outra autora?
É uma tradição que fui resgatar à ficção pulp do início do século XX, em que um escritor criava um universo e outros autores escreviam contos ambientados nesse universo. O Lovecraft, por exemplo, tinha a sua mitologia própria de deuses, que eram uma espécie de alienígenas, e havia outros escritores que escreviam contos inseridos nessa realidade. O próprio Robert E. Howard escreveu contos lovecraftianos.
Achei que seria interessante recuperar essa tradição porque esta personagem, o Benjamim Tormenta, é completamente pulp. Poderia fazer parte das weird fictions dos anos 30, ao lado do Conan, e tentei trazer de volta esse imaginário, também desta forma.
A Anabela Natário é uma autora da Saída de Emergência, eu próprio usei um dos livros dela como inspiração, o Mulheres Fora da Lei, que fala de criminosas, algumas delas oitocentistas, por isso desafiei-a a escrever um pequeno conto, que surge a meio do livro.
Também já convidei outro autor para fazer algo semelhante no segundo volume e dar a sua versão desta Lisboa mais negra e sombria, cheia de segredos. Digo Lisboa, mas o Porto e a Constantinopla do século XIX também irão eventualmente surgir no universo do Benjamim Tormenta.


O plano, então, é esse: já estás a escrever um segundo volume que passará pelo Porto e por Constantinopla, mas, segundo li, também pelo Rio de Janeiro.
Tento levar o Tormenta às metrópoles importantes do século XIX. Lisboa não era uma delas, infelizmente, já tinha entrado numa fase de decadência. Portugal era um país muito pobre, com 80% de analfabetismo, tínhamos ficado para trás, na cauda da Europa, claramente. Fontes Pereira de Melo corrigiu um pouco isso, mas não inteiramente.
O Tormenta terá nitidamente de passar por Londres, porque 99% dos detetives do oculto têm os seus casos em Londres, sejam eles escritos por norte-americanos, por franceses, por alemães ou por espanhóis.
Quis ambientar a ação em Portugal e é possível: também tínhamos os nossos segredos, as nossas neblinas, os nossos becos estreitos… Mas o Tormenta terá de viver aventuras em Londres, em Paris, no Rio de Janeiro e em Constantinopla.
Não sei se será já no segundo volume, porque isso implica muito trabalho, em termos de pesquisa.


A Saída de Emergência é a editora do fantástico e fantasia por excelência em Portugal. Editaste George R. R. Martin e Andrzej Sapkowski, por exemplo, mas também Nora Roberts. Qual foi o autor que mais prazer te deu publicar em Portugal?
Há autores que dão muito prazer publicar porque vendem bem e depois há outros que adoramos e fazemos questão de publicar, mas que são flops em termos de vendas. Mas isso faz parte…
O Martin deu-me muito gosto porque, quando começámos a publicá-lo, foi uma aposta pessoal. Ainda antes de ter fundado a editora Saída de Emergência, eu já lia a obra do Martin. Lembro-me que, no 11 de setembro, em 2001, quando as Torres foram atingidas, eu estava a ler o Martin. Recordo-me perfeitamente disso. Comecei a lê-lo quatro ou cinco anos antes de criar a editora, em 2003, e quando apostei nele foi um risco grande. Já eram pelo menos três livros enormes, que sabíamos que teríamos de dividir em tomos, de um autor completamente desconhecido em Portugal, creio que nunca tinha sido editado cá, nem sequer os contos, e não havia ainda nenhuma série de televisão no horizonte.
Só quando o Martin veio a Portugal (trouxemo-lo cá duas vezes) é que soubemos que a HBO tinha comprado os direitos da Guerra dos Tronos. Nessa altura já tínhamos publicado cinco ou seis dos nossos volumes, mas ele próprio tinha poucas esperanças na adaptação para televisão, porque a HBO tinha comprado também uma série do Merlin, o mágico, e provavelmente iria avançar com essa, já que o Merlin era uma personagem muito conhecida. Mas optaram mesmo pela Guerra dos Tronos, que acabou por ser um sucesso que ninguém consegue explicar. Há muitas teorias, também tenho a minha, e foi um sucesso tal que pegou num autor que já estava a vender bem e levou-a a outro patamar.
É verdade que ainda antes disso o Martin já estava no top de vendas em Portugal, o que para um livro de fantasia de um autor desconhecido era muito bom, mas com a série passámos de vendas de 5000 ou 6000 exemplares para 80 mil ou 90 mil. Trouxemos o autor uma segunda vez a Portugal e já não estavam só cem pessoas a assistir, estavam seiscentas ou setecentas, além de todas as que não conseguiram entrar. Tenho de facto muito gosto em ter editado em Portugal a obra dele.
Mas também tenho muito gosto no Mark Manson, o autor de A Arte Subtil de Saber Dizer que se F*oda. Nenhuma editora quis comprar os direitos desse livro, nós fizemo-lo por um valor bastante baixo e depois esteve dois anos em primeiro lugar nos tops!
E a Nora Roberts, tenho um carinho muito grande por esta autora, de quem já publicámos talvez sessenta livros. A minha filha lê os livros dela, lê as trilogias, por exemplo, numa semana, e adora. É uma autora com leitores muito fiéis. É óbvio que todos os autores têm um pico e às vezes depois não regressam a esse auge de vendas, mas a Nora é uma autora muito estável.
Na verdade, tenho gosto em publicar autores completamente distintos. Autores nacionais, também. Temos muitos autores portugueses, fundamentalmente de não ficção, na chancela Desassossego, de História, Política, Ciência, e esse está a ser um projeto muito giro.
Se tivesse de escolher só um seria o Martin, é provavelmente o que me deu mais gozo, talvez por eu ser fã dele há muitos anos.


Tens alguma história curiosa com algum desses grandes autores que possas partilhar com os leitores da WOOK?
Com o Martin passei bastante tempo, porque ele esteve em Portugal duas vezes e da primeira ficou cá uma semana. Nessa época ainda era um autor desconhecido, por isso fizemos uma apresentação em Lisboa e outra no Porto, mas no resto dos dias não havia nada previsto em termos de promoção e andámos a descobrir o país. Fomos a Óbidos, por exemplo, e ele adorou a ginjinha. Depois fomos a Mafra e visitámos o convento. Estivemos em Tomar, no Convento de Cristo. E fomos ao Porto. Passeámos pela cidade, apanhámos o barco, no rio Douro… Curiosamente o George R. R. Martin gostou mais do Porto do que de Lisboa porque prefere cidades com rio e o Tejo parece quase um mar. Encantou-se mais pelo Porto, pela Foz do Douro, andou por baixo das pontes, adorou a cidade.
Aconteceram coisas muito engraçadas durante essa viagem, como o facto de ele ressonar no carro. (Risos)
Da segunda vez que ele veio a Portugal, fiz-lhe uma pergunta que para mim era pertinente: ele já estava a escrever a Guerra dos Tronos há muitos anos e provavelmente tinha na cabeça uma ideia clara do rosto das personagens. Então perguntei-lhe, agora que havia uma série de televisão, com tanto sucesso, já com várias temporadas, e que eu sabia que ele via, se as figuras que ele inicialmente imaginara já tinham sido substituídas, na sua cabeça, pelos atores da serie. Mas o Martin ficou indignado, quase ofendido, porque para ele as personagens continuavam a ter as caras que imaginara no início, quando começou a escrever a saga.
Gostávamos muito de trazê-lo a Portugal uma terceira vez, mas a fila de espera deve ser de dez anos! (Risos) E ele tem de acabar o próximo livro, por isso temos de nos contentar com essas duas visitas.


Sempre gostaste muito de ler?
Adoro ler! Se tivesse de escolher o top dos meus hobbies, os primeiros três seriam ler, ilustrar só aparece em quarto lugar. Gosto muito de fazer ilustrações e ilustro bastante, fiz inclusive ilustrações para O Deus das Moscas Tem Fome, mas ler é algo que adoro desde criança. Também é verdade que quando era miúdo não havia consolas, os computadores eram umas coisas muito pequenas, com ecrãs verdes, e felizmente não havia smartphones nem internet, por isso, ou íamos para a rua brincar ou ficávamos em casa a ler e a desenhar. Li muito e desenhei muito!
Sempre adorei livros e tive a imensa sorte de arranjar uma profissão relacionada com livros. Sobretudo quando são autores portugueses, os editores acabam por ter um papel importante na escrita, no que sai ou não, como sai, etc.
E agora tenho também a escrita, que não pretendo interromper. É certo que tenho a vantagem de poder publicar os meus livros! (Risos) Mas isso não significa que seja menos exigente; é por ser tão exigente que levei tanto tempo a publicar, mas agora encontrei finalmente a minha voz e descobri o que quero escrever. Se irá vender… As pessoas vão querer ler? Não sei. Publiquei livros maravilhosos que venderam apenas 200 exemplares; e publiquei livros que considero maus e tiveram dez edições… A qualidade do livro tem muito pouco a ver com o sucesso nas vendas ou com a visibilidade. É uma roleta russa. É importante que os livros tenham uma capa bonita e acho que O Deus das Moscas Tem Fome tem uma bela capa, que transmite bem o que o livro é.


Qual foi o último livro que leste adoraste?
No Verão passado li um livro que adorei! Foi The Amazing Adventures of Kavalier and Clay, que chegou a ser publicado em português, mas já não está disponível. É a história de dois judeus, na Nova Iorque dos anos trinta do século XX, que escrevem histórias de super-heróis, como o Stan Lee fazia, e acompanhamos a trajetória destas duas personagens, desde a fuga aos nazis à Nova Iorque grande metrópole do sonho americano.
Assistimos ao seu crescimento e ao da indústria dos comics, vemos a injustiça dessa indústria, em que os autores criavam personagens, as editoras faturavam milhões, mas os autores não ganhavam nada com isso. Daí os criadores do Super-Homem terem processado a DC.
Este livro foi para mim uma viagem brutal, adorei! É um livro enorme, mas devorei-o. Foi uma daquelas leituras em que sentimos que o livro muda a nossa vida, há coisas dele que ficarão comigo para sempre.
Na minha vida foram muitos, muitos os livros que adorei e muitos deles estão nesta personagem que criei, o Benjamim Tormenta, e é por isso que agradeço aos autores ao longo do livro.

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