Entrevista a Mário de Carvalho: «A escrita não pode deixar de transformar o mundo»
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A obra de Mário de Carvalho (Lisboa, 1944) é uma espécie de língua estrangeira, como diria Proust a propósito dos «belos livros», uma prosa tão peculiar de onde emergem suculentos mundos e imaginários, seja qual for o género em que se expresse. Mas, nesta entrevista, o forasteiro fomos nós. O autor, assumidamente pouco convivial, abriu-nos a porta a uma conversa rica em que partilha memórias e pensamentos sobre a literatura, a vida e o estado de coisas.
Mário de Carvalho é um dos mais importantes e premiados escritores em Língua Portuguesa
«PARA ESCREVER NÃO PRECISO DE CABANAS CHEIAS DE FRINCHAS»
A escrita para si é um imperativo de transformação do mundo ou uma experiência essencialmente estética?
«Ó coisas todas vãs todas mudaves», já o escreveu o grande Sá de Miranda. A mudança é da natureza das coisas. E, nessa mudança, também estamos comprometidos (todos nós!), em maior ou menor escala. Os nossos actos entram necessariamente nesse processo de transformação, ainda que possa ser em ínfimo pormenor. «Não te esqueças de que a tua palavra é um acto», dizia Valéry, ao que julgo lembrar-me. Assim, a escrita não pode deixar de transformar o mundo. Nem todos os livros terão a repercussão de «O jovem Werther», que teria induzido milhares de suicídios, nem o alcance social de D. Quixote, passando certidão de óbito a uma instituição já de si debilitada, a cavalaria, mas há sempre qualquer lastro que permanece. Mesmo do autor mais modesto, ignoto e recolhido. Porém, nunca se saberá, à partida, como um livro vai interferir. Irrelevantes são os propósitos do escritor. Mal lhe sai da mão, o livro enceta a sua viagem, por sua conta e risco. E não é raro funcionar exactamente ao contrário do que a ingenuidade do seu autor pretendia. Que é uma «experiência estética» parece-me não haver dúvida. A literatura costuma ser alinhada a par das artes. E os livros são avaliados precisamente em função da sua potencialidade de apelar ao imaginário, seduzir e surpreender, desvendar os lados ignotos da vida, como qualquer obra de arte.
As suas obras são um retrato ao mesmo tempo impiedoso e lúcido de Portugal. Consegue imaginar-se noutra sociedade e noutra cultura?
Já vivi noutras sociedades, embora por não muito tempo. Também faço essa pergunta a mim próprio: Se tivesse continuado na Suécia, por exemplo, seria hoje um autor sueco? No entanto, algo me diz que esta minha língua portuguesa, falada pela mãe, praticada e volteada desde miúdo, em casa e lá fora, com a sua versatilidade e riqueza vocabular, puxa por nós doutra maneira, e muito especial.
Rotina: comodismo ou conforto?
Algumas rotinas são uma forma de manter a vida organizada e sem sobressaltos de maior. Relevam de um desejável sentido prático. Já não tenho idade nem paciência para improvisações, nas pequenas coisas do dia-a-dia. Não vale a pena descobrir o que já está descoberto. Mas pode haver outra rotina perigosa, que não a organizadora do dia-a-dia: a que contamina o próprio texto. E aí teremos o autor a repetir-se ou a caricaturar-se a si mesmo. E dessa há que fugir como o diabo da cruz. Quanto à comodidade, sim. Prefiro estar comodamente instalado. Para escrever, não preciso nem de cabanas cheias de frinchas, nem de sótãos apertados, nem de águas-furtadas. Tenho escritórios, secretárias, espaço, apoio burocrático, e oxalá não me falte o tempo.
Fiz esta pergunta a Luis Sepúlveda e gostaria de lha fazer também: de que ingredientes se faz um bom escritor?
Escrevi um livro (Quem disser o contrário é porque tem razão) que não anda longe da pergunta, a qual suscita, em boa verdade, matéria para muita página. Aqui se o dá por reproduzido. Mas resumamos: muita e variada leitura, porventura esquecida; atenção aos lados ocultos ou clandestinos das coisas; bom ouvido; respeito e frequentação de uma literatura portuguesa que não é de somenos. E a eterna pergunta, sempre a insinuar-se: «e se?».
A versatilidade (escreveu romances, ensaios, novelas, teatro...) faz de si um escritor universal?
A «versatilidade» resulta de eu ser um autor dado à curiosidade. Dá-me para espreitar o que não está à vista. Mudar de registo, de tom, de género. Uma aventura, também vontade de saber. Quanto à chamada «universalidade» releva de outra ordem de considerações. E não me cabe a mim enunciá-las. Os leitores dirão.
Foi um resistente ao fascismo e só regressou a Portugal após a queda de Salazar. De que forma essa experiência moldou o seu ofício?
Tive a oportunidade de conhecer um variado tipo de homens a lidar com as circunstâncias mais difíceis. Também calcorreei outras terras, entre outras gentes. E comprovei como a dignidade humana se pode manter, mesmo em confronto com as situações mais duras, adversas e injustas. O «meu ofício», como sagazmente diz, vive muito destas impressões que são guardadas e trabalhadas no imo mais profundo de nós.
Considerava-se um bom advogado? Lembra-se do dia em que se sentiu preparado para dar o passo seguinte?
Fui um advogado cumpridor. Não me lembro exactamente do dia em que decidi deixar o foro. Foi um abandono lento. Fui aceitando cada vez menos processos. Em dada altura, acabei com os poucos que tinha, subestabeleci em colegas ou finalizei-os – sempre atendendo, claro, aos interesses dos clientes que mos haviam confiado – e decidi aplicar-me sobretudo na escrita, que, desde há algum tempo, já vinha, insistentemente, reclamando o seu espaço.
Publicou o primeiro livro em 1981, mas costuma dizer que só ao décimo livro é que se considerou escritor. Porquê?
Porque tinha (e tenho ainda) os escritores em grande consideração, e promover-me a ser um deles – com a aura que a qualidade de «escritor» trazia em torno – foi uma ousadia que ultrapassou a humildade do meu respeito.
«Ó coisas todas vãs todas mudaves», já o escreveu o grande Sá de Miranda. A mudança é da natureza das coisas. E, nessa mudança, também estamos comprometidos (todos nós!), em maior ou menor escala. Os nossos actos entram necessariamente nesse processo de transformação, ainda que possa ser em ínfimo pormenor. «Não te esqueças de que a tua palavra é um acto», dizia Valéry, ao que julgo lembrar-me. Assim, a escrita não pode deixar de transformar o mundo. Nem todos os livros terão a repercussão de «O jovem Werther», que teria induzido milhares de suicídios, nem o alcance social de D. Quixote, passando certidão de óbito a uma instituição já de si debilitada, a cavalaria, mas há sempre qualquer lastro que permanece. Mesmo do autor mais modesto, ignoto e recolhido. Porém, nunca se saberá, à partida, como um livro vai interferir. Irrelevantes são os propósitos do escritor. Mal lhe sai da mão, o livro enceta a sua viagem, por sua conta e risco. E não é raro funcionar exactamente ao contrário do que a ingenuidade do seu autor pretendia. Que é uma «experiência estética» parece-me não haver dúvida. A literatura costuma ser alinhada a par das artes. E os livros são avaliados precisamente em função da sua potencialidade de apelar ao imaginário, seduzir e surpreender, desvendar os lados ignotos da vida, como qualquer obra de arte.
As suas obras são um retrato ao mesmo tempo impiedoso e lúcido de Portugal. Consegue imaginar-se noutra sociedade e noutra cultura?
Já vivi noutras sociedades, embora por não muito tempo. Também faço essa pergunta a mim próprio: Se tivesse continuado na Suécia, por exemplo, seria hoje um autor sueco? No entanto, algo me diz que esta minha língua portuguesa, falada pela mãe, praticada e volteada desde miúdo, em casa e lá fora, com a sua versatilidade e riqueza vocabular, puxa por nós doutra maneira, e muito especial.
Rotina: comodismo ou conforto?
Algumas rotinas são uma forma de manter a vida organizada e sem sobressaltos de maior. Relevam de um desejável sentido prático. Já não tenho idade nem paciência para improvisações, nas pequenas coisas do dia-a-dia. Não vale a pena descobrir o que já está descoberto. Mas pode haver outra rotina perigosa, que não a organizadora do dia-a-dia: a que contamina o próprio texto. E aí teremos o autor a repetir-se ou a caricaturar-se a si mesmo. E dessa há que fugir como o diabo da cruz. Quanto à comodidade, sim. Prefiro estar comodamente instalado. Para escrever, não preciso nem de cabanas cheias de frinchas, nem de sótãos apertados, nem de águas-furtadas. Tenho escritórios, secretárias, espaço, apoio burocrático, e oxalá não me falte o tempo.
Fiz esta pergunta a Luis Sepúlveda e gostaria de lha fazer também: de que ingredientes se faz um bom escritor?
Escrevi um livro (Quem disser o contrário é porque tem razão) que não anda longe da pergunta, a qual suscita, em boa verdade, matéria para muita página. Aqui se o dá por reproduzido. Mas resumamos: muita e variada leitura, porventura esquecida; atenção aos lados ocultos ou clandestinos das coisas; bom ouvido; respeito e frequentação de uma literatura portuguesa que não é de somenos. E a eterna pergunta, sempre a insinuar-se: «e se?».
A versatilidade (escreveu romances, ensaios, novelas, teatro...) faz de si um escritor universal?
A «versatilidade» resulta de eu ser um autor dado à curiosidade. Dá-me para espreitar o que não está à vista. Mudar de registo, de tom, de género. Uma aventura, também vontade de saber. Quanto à chamada «universalidade» releva de outra ordem de considerações. E não me cabe a mim enunciá-las. Os leitores dirão.
Foi um resistente ao fascismo e só regressou a Portugal após a queda de Salazar. De que forma essa experiência moldou o seu ofício?
Tive a oportunidade de conhecer um variado tipo de homens a lidar com as circunstâncias mais difíceis. Também calcorreei outras terras, entre outras gentes. E comprovei como a dignidade humana se pode manter, mesmo em confronto com as situações mais duras, adversas e injustas. O «meu ofício», como sagazmente diz, vive muito destas impressões que são guardadas e trabalhadas no imo mais profundo de nós.
Considerava-se um bom advogado? Lembra-se do dia em que se sentiu preparado para dar o passo seguinte?
Fui um advogado cumpridor. Não me lembro exactamente do dia em que decidi deixar o foro. Foi um abandono lento. Fui aceitando cada vez menos processos. Em dada altura, acabei com os poucos que tinha, subestabeleci em colegas ou finalizei-os – sempre atendendo, claro, aos interesses dos clientes que mos haviam confiado – e decidi aplicar-me sobretudo na escrita, que, desde há algum tempo, já vinha, insistentemente, reclamando o seu espaço.
Publicou o primeiro livro em 1981, mas costuma dizer que só ao décimo livro é que se considerou escritor. Porquê?
Porque tinha (e tenho ainda) os escritores em grande consideração, e promover-me a ser um deles – com a aura que a qualidade de «escritor» trazia em torno – foi uma ousadia que ultrapassou a humildade do meu respeito.
«O frenesim de captação de espectadores (...) atropela e remove tudo o que seja um bocadinho mais elevado»
Como avalia as novas gerações em relação ao consumo de livros e hábitos de leitura?
Conheço jovens que são bons leitores, mesmo grandes leitores, que têm interesse pela literatura e querem sempre ir um pouco mais além. É muito fácil e despachado, para alguém da minha idade, diminuir os jovens de hoje, em comparação com os de outros tempos. Os romanos tinham uma qualificação para esta figura: laudator temporis acti – o louvaminheiro dos tempos passados. É uma constante, pelas eras fora. Lembro-me de um amigo meu, já falecido, a evocar as suas turmas e cursos da juventude (ele era engenheiro) e a concluir como eram escassíssimos aqueles que liam um livro nesses tempos remotos e capitosos, tão falsamente celebrados. Há que ponderar, sem cair em exageros nem catastrofismos.
A escritora Chimamanda Ngozi Adichie defende que, se necessário, devemos pagar aos nossos filhos para lerem – o dinheiro como incentivo até que se crie o hábito. Concorda?
Subornar os miúdos? E isto é dito assim, com todo o despejo? Já agora, na mesma linha de primarismo, porque não obrigá-los ler com – desculpem a expressão – «um bom enxerto de porrada»? Não, isto não vai lá com peitas nem com outro tipo de violências, mas despertando o gozo, o prazer de ler, através de uma presença constante e reiterada do livro (em papel ou digital) na vida de todos os dias.
No Reino Unido, as vendas de livros dispararam com o confinamento. Em Portugal, nunca conseguimos formar uma população leitora, e este período confirmou a hecatombe no setor livreiro. Na sua opinião, o que falhou?
Dispararam? Com certeza? E que livros? Caso a ver. O facto é que, em Portugal, perante uma presença avassaladora da comunicação de massas, designadamente das televisões, os livros são sempre remetidos à inexistência ou então atirados para horas mortas. O frenesim de captação de espectadores, à custa do primarismo mais básico e amplexivo, atropela e remove tudo o que seja um bocadinho mais elevado. De letras e artes nem falar.
Como é que está a lidar com a pandemia?
Lido com a pandemia como toda a gente. Com desagrado e cumprindo as cautelas mínimas. Farto de estar em casa ou mascarado. Nem dará para escrever, porque eu gosto de decidir, por mim próprio, quais os momentos do meu trabalho e prefiro que me não sejam impostos.
Quando escreve uma daquelas palavras que ninguém conhece, retira um certo gozo imaginando os leitores «à nora» à procura do significado no dicionário mais próximo?
Isto merece uma boa explicação. Até porque a última coisa que me preocupa na vida é desencantar palanfrório. E, francamente, até considero de mau gosto dar-se alguém à exibição de vocábulo rebarbativo. É como fazer inchar a musculatura nas praias ou tirar ratinhos das orelhas. As habilidades têm baixa cotação em literatura. Agora, a predominância da comunicação de massas levou à fixação de uma espécie de mínimo denominador comum da linguagem, assente num vocabulário básico elementar que visa omitir toda a complexidade e riqueza lexical do português. Eu fico espantado, quando me vêm apontar como «difíceis» palavras de uso quotidiano na minha família ou correntes entre pessoas com um mínimo de instrução. A minha obrigação, como escritor, é utilizar todas as potencialidades da nossa bela língua, a plasticidade das suas construções, a exuberância e gradação do seu vocabulário, sem ficar agrilhoado à linguagem dos jornalistas ou dos locutores. É o preito que eu devo a toda uma grande literatura que me precede, interpela e vigia. E é isso, decerto, que os leitores esperam de mim e a que eu farei sempre o possível por corresponder.
Em Portugal, é possível viver apenas da escrita?
Num caso ou noutro, talvez. Mas, em não se sendo um permanente best-seller, duvido muito. Mesmo recorrendo a todos os outros meios, teatro, cinema, rádio, crónicas em jornais, etc., a vida, tensa e frenética, do escritor em exclusividade não compensa. Não é só cá. Noutros países é a mesma coisa. Mas a questão é mais complexa do que parece. Há quem advogue que é formativo para o autor estar em contacto com as duras realidades, a par dos seus contemporâneos. Conhecer na pele o peso das responsabilidades: emprego, diversidade de opções, problemas. Isso daria mais consistência e verosimilhança aos seus textos. Eu inclino-me mais para a necessidade de a sociedade propiciar ao escritor os meios que lhe permitam escrever sem percalços.
O que é que ainda o surpreende? O que o emociona?
Surpreende-me a capacidade dos humanos de criar sempre coisas novas e diferentes; emocionam-me os relatos de generosidade e empenho na causa de todos que, felizmente, não deixam de aparecer. Entusiasmam-me as aquisições científicas que nos vão revelando, de ano para ano, um mundo mais rico, complexo e desconcertante.
Se pudesse jantar com um qualquer escritor, vivo ou morto, quem escolheria?
Eu não sou muito convivial nem apreciador de refeições partilhadas. Mas, se tivesse mesmo de escolher, optaria por Eça de Queirós, que, segundo os relatos da época, era um exímio conversador, por Jorge Luís Borges, que não deixaria de me fascinar com a sua invulgar cultura e imaginação, e Manuel da Fonseca, insigne contador que, de certeza, me deliciaria com as suas fiadas de histórias.
Vem por aí um novo livro. Podemos levantar a ponta do véu?
Sim, virá um novo livro, Epítome de Pecados e Tentações, que já se encontra pronto e aguarda apenas que as condições epidémicas (podemos chamar-lhes assim?) o permitam para se entregar aos leitores. São contos, quase todos ousados e inquiridores. Depois logo verão.
Como vê a vida aos 75 anos?
Como ela é… Ilusória, esquiva e contingente.
Por fim, uma pergunta do seu editor, Manuel Alberto Valente: Acha que, a médio prazo, poderá surgir, no campo da ficção portuguesa, uma obra de qualidade (sublinho, de qualidade) que reflicta os tempos que estamos hoje a atravessar?
Todas as pestes tiveram os seus autores. Qualidade há muita por aí, segundo julgo perceber. E o «reflexo» (ah, o célebre «reflexo»…) destes nossos tempos, pode manifestar-se de forma que não tenha sequer de mencionar a doença, mas dando a respectiva angústia por aquelas formas e caminhos que a literatura sempre soube desvendar.